Gentílicos e maiúscula

Rigor germânico

      «Os Gregos abordaram de forma inútil o movimento dos corpos e confundiram o mundo durante 2 mil anos: o seu estilo de formular questões sentados em poltronas era mais apropriado à matemática e à ética do que à física» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 112).
      Só serve para exemplificar, porque está correcto. A última moda, ao que vejo, é grafar com maiúscula inicial apenas os gentílicos antigos! Celtas, Maias, Astecas... Acreditem. Tudo sancionado por revisores, imagino. Só gente como eu e Harri Meier († 1990), um simples romanista conceituadíssimo, propugnam o contrário (e as gramáticas, claro): «Nos etnónimos, exige-se a maiúscula quando se trata das populações em conjunto, seja que a coletividade se exprima no plural ou no singular (os Portugueses, “o Português gosta de bacalhau” = “os Portugueses”), ao passo que precisamente as individualizações requerem a minúscula (muitos americanos, quaisquer americanos, o brasileiro)» (Ensaios de Filologia Românica, Vol. 1, Harri Meier. Rio de Janeiro: Grifo, 1974, p. 199). Só não faço assim quando o «livro de estilo» das editoras manda fazer o contrário.
[Post 4756]

Gentílicos

Há lá camelos

      Espanha, de novo. A Fundéu veio relembrar, recentemente, que em espanhol o nome da capital dos Emirados Árabes Unidos se escreve Abu Dabi, sem h. E quanto ao gentílico? Abudabí (e, no plural, abudabíes). O gentílico dos EAU é emiratí (e, no plural, emiratíes). Entre nós, ninguém diz nem manda dizer nada. Agora, que o primeiro-ministro foi aos Emirados Árabes Unidos vender dívida pública, ainda interessam mais estas coisas. Talvez possamos dispensar o gentílico dos habitantes ou naturais da capital, mas quanto ao gentílico dos habitantes ou naturais dos EAU, não podemos deixar de usar afoitamente (que remédio, não vejo outro) emiradense.

[Post 4431]

Gentílicos

Pelo menos isso


      Será incongruente escrever «junta militar birmanesa» quando no título escrevemos, por exemplo, «A resistente de Myanmar»? Tanto como continuarmos a usar o gentílico «cingalês» referido ao Sri Lanka. O gentílico Myanmense ainda não pegou (graças a Deus!) por cá.

[Post 4273]

Natural de Trindade e Tobago


Imagem: http://coastalcruzn.files.wordpress.com/


Feio como um trombone


      Na redacção: «Trindade e Tobago. Já há muito tempo que não aparecia. Como se chamam os naturais?» Silêncio de largos segundos. «Trinitários.» Pois é… e Tobago? O Dicionário Houaiss regista Trinitário-Tobagense. Já sabemos que Tobago é corruptela, mas veja-se o que acontece com Pompeia. É bem escusado tentarmos impor a forma Pompeios. Ninguém leva a sério (mas sim: a ignorância é risonha). No romance Em Nome da Terra, de Vergílio Ferreira, o narrador, João, viúvo e reformado, anota: «Olho o fresco de Pompeia. Ou não bem de Pompeia mas de Estábias que fica logo a seguir e ao sul. Ou talvez não de Pompeia mas de Pompeios que é um nome feio como um trombone (trombone?)»

Gentílico: fueguino

Imagem: http://www.larc1.com/

Terra do Fogo

      Cara Ivette Ferreira: o natural ou habitante da Terra do Fogo designa-se «fueguino», por estranho que, à primeira vista, possa parecer, já que foi Fernão de Magalhães a dar o nome de Terra do Fogo a este fim do mundo. Contudo, «fueguino» vem de «Fuego» — Terra del Fuego —, como está bem de ver.

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