Com maiúsculas, pois claro

Para os teimosos

      «Desde Tucídides, pelo menos, que a grande História é também grande literatura. Mas não precisamos de recuar até aos Gregos e Romanos da Antiguidade Clássica. Temos excelentes exemplos intramuros, de Fernão Lopes, João de Barros e D. Francisco Manuel de Melo, a Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Jaime Cortesão e Magalhães Godinho, isto para não falar dos vivos. Eu gostaria de aproximar a clareza da exposição e a limpidez do estilo conseguidas nesta obra desse exigente nível literário que gera no espírito do leitor o encantamento pela qualidade da prosa e uma equivalente avidez da leitura para saber, não como é que a história “acaba”, mas sim como é que ela continua...» («Uma ‘História de Portugal’», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 12.09.2012, p. 54).
[Texto 2088]

Os Ianomâmis

Erros e ausências

      «Segundo um grupo de representantes dos yanomami, o massacre terá sido levada [sic] a cabo por garimpeiros brasileiros, que utilizaram um helicóptero para passar a fronteira e investir contra os índios» («Massacre de índios», Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 10).
      Em alguma imprensa brasileira, podemos ler «os ianomâmis». Cá, vai-se quase sempre pelo caminho errado. E os nossos dicionários também não ajudam. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o termo. Já o Dicionário Houaiss, por sua vez, diz que Ianomâmis é um substantivo masculino plural.
[Texto 2077]

Uso da maiúscula

Pedra-de-toque

      «Encaixaria perfeitamente se quiséssemos falar português. Seguir os Brasileiros», comenta aqui Montexto a propósito de «padrão-ouro» não traduzir — como alguns querem e os dicionários concordam, pelo menos por omissão — o inglês gold standard na acepção secundária de exemplo supremo de alguma coisa em relação ao qual outras são julgadas ou aferidas. É precisamente isso que está em causa. Entretanto, lembrei-me também do vocábulo «pedra-de-toque», que talvez servisse — se quisséssemos — para traduzir essa acepção.
      Lembrei-me também agora, ao ler o comentário, que na obra Discursar em Português... e não só, já aqui referida, em que a autora, que, como também já vimos, usa a nova ortografia, escreveu um gentílico com maiúscula inicial. Lapso ou convicção? «Até Hitler, no seu discurso contra os Checos a 26 de setembro de 1938, diz que o povo alemão nada mais quer do que a liberdade» (Discursar em Português... e não só, Isabel Casanova. Lisboa: Plátano Editora, 2011, p. 108).
[Texto 759]

Gentílicos e maiúscula

Rigor germânico

      «Os Gregos abordaram de forma inútil o movimento dos corpos e confundiram o mundo durante 2 mil anos: o seu estilo de formular questões sentados em poltronas era mais apropriado à matemática e à ética do que à física» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 112).
      Só serve para exemplificar, porque está correcto. A última moda, ao que vejo, é grafar com maiúscula inicial apenas os gentílicos antigos! Celtas, Maias, Astecas... Acreditem. Tudo sancionado por revisores, imagino. Só gente como eu e Harri Meier († 1990), um simples romanista conceituadíssimo, propugnam o contrário (e as gramáticas, claro): «Nos etnónimos, exige-se a maiúscula quando se trata das populações em conjunto, seja que a coletividade se exprima no plural ou no singular (os Portugueses, “o Português gosta de bacalhau” = “os Portugueses”), ao passo que precisamente as individualizações requerem a minúscula (muitos americanos, quaisquer americanos, o brasileiro)» (Ensaios de Filologia Românica, Vol. 1, Harri Meier. Rio de Janeiro: Grifo, 1974, p. 199). Só não faço assim quando o «livro de estilo» das editoras manda fazer o contrário.
[Post 4756]

Gentílicos

Há lá camelos

      Espanha, de novo. A Fundéu veio relembrar, recentemente, que em espanhol o nome da capital dos Emirados Árabes Unidos se escreve Abu Dabi, sem h. E quanto ao gentílico? Abudabí (e, no plural, abudabíes). O gentílico dos EAU é emiratí (e, no plural, emiratíes). Entre nós, ninguém diz nem manda dizer nada. Agora, que o primeiro-ministro foi aos Emirados Árabes Unidos vender dívida pública, ainda interessam mais estas coisas. Talvez possamos dispensar o gentílico dos habitantes ou naturais da capital, mas quanto ao gentílico dos habitantes ou naturais dos EAU, não podemos deixar de usar afoitamente (que remédio, não vejo outro) emiradense.

[Post 4431]

Gentílicos

Pelo menos isso


      Será incongruente escrever «junta militar birmanesa» quando no título escrevemos, por exemplo, «A resistente de Myanmar»? Tanto como continuarmos a usar o gentílico «cingalês» referido ao Sri Lanka. O gentílico Myanmense ainda não pegou (graças a Deus!) por cá.

[Post 4273]

Natural de Trindade e Tobago


Imagem: http://coastalcruzn.files.wordpress.com/


Feio como um trombone


      Na redacção: «Trindade e Tobago. Já há muito tempo que não aparecia. Como se chamam os naturais?» Silêncio de largos segundos. «Trinitários.» Pois é… e Tobago? O Dicionário Houaiss regista Trinitário-Tobagense. Já sabemos que Tobago é corruptela, mas veja-se o que acontece com Pompeia. É bem escusado tentarmos impor a forma Pompeios. Ninguém leva a sério (mas sim: a ignorância é risonha). No romance Em Nome da Terra, de Vergílio Ferreira, o narrador, João, viúvo e reformado, anota: «Olho o fresco de Pompeia. Ou não bem de Pompeia mas de Estábias que fica logo a seguir e ao sul. Ou talvez não de Pompeia mas de Pompeios que é um nome feio como um trombone (trombone?)»

Palestino/palestiniano

Eles sabem

      «Na Faixa de Gaza, a lei da oferta e da procura vem fazendo estragos. Bloqueados pelos israelenses, os encarregados das passagens fronteiriças permitem somente a circulação de produtos de consumo diário a conta-gotas, disparando assim os preços e desanimando os palestinos» («Preços disparam em Gaza e ânimo dos palestinos desaba», O Povo, 31.10.2007, p. 29). Palestinos, pois claro.

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