Como se escreve por aí

E sem revisor para corrigir...


      «Seguro despediu-se ontem de Lisboa, hoje termina a campanha no Porto. Domingo, é preciso que o país saia para votar e essa é a única equação que as sondagens não conseguem responder» («Seguro», Luís Osório, Diário de Notícias, 6.02.3036, p. 4).

      Com construções assim menos óbvias, menos habituais, a probabilidade de as frases estarem correctas não é muito alta. Então não se responde a alguém ou a alguma coisa? Quanto ao conhecimento da regência verbal, estamos conversados.

[Texto 22 402]

«Apelar para»

Assim é

      «Apelei para tôdas as minhas fôrças e tirei, de longe, para mim só, a máscara que cobria o seu rosto fechado, para ver se conseguia fazê-la cair durante um segundo» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, 4.ª ed., p. 64).
[Texto 3398]

«Interpor recurso para ou a»?

Já que a língua é a mesma

      Jornalista Olga Tancredo, na emissão das 6 da tarde do Rádio Jornal, na Rádio Nacional de Angola: «No final do encontro, o porta-voz da CASA-CE [Convergência Ampla de Salvação de Angola-Coligação Eleitoral], Lindo Bernardo Tito, afirmou que aquela coligação vai interpor recurso ao Tribunal Constitucional dentro dos prazos previstos por lei.» O mais habitual é usar-se a construção «interpor recurso para».
[Texto 2095]

Regência de «reverter»

Não percebi logo

      «A enóloga proprietária da marca Quinta de Remostias decidiu reverter um euro da venda de cada garrafa de vinho que produziu para a criação de uma bolsa de investigação que permita desenvolver novas formas de diagnóstico de doenças raras. Uma ideia invulgar e feliz para contribuir para o desenvolvimento da ciência. Portugal não está habituado a mecenato deste tipo e seria bom que outros seguissem Rola-Braz» («Ana Rola-Braz», Público, 18.04.2012, p. 48).
      Acho que estão a precisar de comprar um dicionário de regências verbais. Dá jeito tê-lo à mão. Em alternativa, estudarem um pouco mais.
[Texto 1386]

Regência: «ansiar»

Já não sabemos ansiar

      «Victor Frutuoso diz que, há cerca de quatro ou cinco anos, houve um empresário holandês interessado em fazer um empreendimento turístico relacionado com a gastronomia, produtos biológicos, hotelaria de grande qualidade, “mas não teve sucesso no financiamento”. Agora, todos anseiam para que a história não se repita» («Aldeia à venda em Marvão já tem um investidor interessado», Maria Antónia Zacarias, Público, 20.11.2011, p. 41).
      Desconheço essa regência do verbo «ansiar» — como a jornalista ignora a regência correcta: ansiar + por. Bem, só erra na preposição.
      «Às vezes, só às vezes, abreviava essas leituras saltando períodos..., e, coitado! o avô estava já velho e não dava pelas inevitáveis lacunas dos artigos assim lidos. Eu ansiava por que ele me abandonasse o jornal para ler o folhetim» (Confissão Dum Homem Religioso, José Régio. Lisboa: INCM, 2001, p. 55).

[Texto 696]

Regência: «precisar»

Apesar de Camilo e de Bocage

      A autora quis que a frase ficasse sem a preposição, porque, alegava, com preposição era, tinha aprendido, errado se se lhe seguia um verbo no infinitivo, mas já não quando seguido de substantivo ou pronome. «E então, *** despediu-se com o pretexto de que precisava urgentemente beber água.» O Dicionário Houaiss resume bem, creio, a questão: «Na actual norma portuguesa da língua, este verbo, quando na acep. de ‘ter necessidade de’, pede objecto indirecto; há, porém, bom número de abonações de autores portugueses clássicos, como Camilo e Bocage, que o empregaram com transitividade directa; na verdade, na língua, a regência deste verbo oscila entre uma coisa e outra, com peso maior para o objecto indirecto, tanto no Brasil como em Portugal, excepto quando a ele se segue outro verbo no infinitivo, caso em que, em Portugal, se usa sempre seguido de preposição (preciso de fazer, precisava de sair, precisou de se explicar), enquanto, no Brasil, tal emprego tem vindo a rarear (preciso fazer, precisava sair, precisou explicar-se).»
[Texto 388]

«Apelar para»

Não me convencem

      Correspondendo ao apelo da leitora Cristina e aproveitando ter-me passado agora mesmo pelos olhos uma frase com a regência errada («Muitos apelam à extin­ção da RTP.»), eis mais uma vez: a regência do verbo «apelar», na acepção que a frase acima exigia, é apelar para. A mim, basta-me esta notinha de Francisco Fernandes na página 83 do seu magnífico Dicionário de Verbos e Regimes: «APELAR A ALGUÉM ou A ALGUMA COISA é regência condenada pelos mestres.» Bem podem os novíssimos linguistas de pacotilha dizer o contrário.
      Eis um mestre: «Ao final, todos, mesmo os paulistas, apelaram para a ação do Governo, seja com a abertura de crédito barato, seja mediante legislação favorável à imigração, seja por medidas que possibilitassem o emprego do trabalhador nacional» (Emancipação dos Escravos: Projeto Dantas (dos sexagenários) e o parecer que o justifica, Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988, p. VII).
[Texto 175]

«Deduzir acusação contra»

Nem por decreto

      «O Ministério Público deduziu acusação de crime de homicídio qualificado à mulher suspeita de ter afogado o filho de dois anos na ribeira do parque da Serra das Minas, concelho de Sintra, anunciou a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa» («Mãe será julgada por afogar o filho», Público, 1.06.2011, p. 29).
      Deve ter sido também o Ministério Público que ordenou a mudança de regência verbal.

[Texto 90]

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