Como se escreve por aí

E sem revisor para corrigir...


      «Seguro despediu-se ontem de Lisboa, hoje termina a campanha no Porto. Domingo, é preciso que o país saia para votar e essa é a única equação que as sondagens não conseguem responder» («Seguro», Luís Osório, Diário de Notícias, 6.02.3036, p. 4).

      Com construções assim menos óbvias, menos habituais, a probabilidade de as frases estarem correctas não é muito alta. Então não se responde a alguém ou a alguma coisa? Quanto ao conhecimento da regência verbal, estamos conversados.

[Texto 22 402]

«Apelar para»

Assim é

      «Apelei para tôdas as minhas fôrças e tirei, de longe, para mim só, a máscara que cobria o seu rosto fechado, para ver se conseguia fazê-la cair durante um segundo» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, 4.ª ed., p. 64).
[Texto 3398]

«Calcorrear (por)»

Vendo bem...

        «Domingos Flores ainda se lembra de calcorrear por estes caminhos» («Rota da transumância começou em Idanha», Sandra Salvado, Jornal da Tarde, 3.05.2013).
      Estava convencido de que o verbo «calcorrear» não pede a preposição «por», mas, como diz, avisadamente, Montexto, as regências são mais lábeis do que se pensa.
      «Já te deste ao trabalho de calcorrear por essas aldeias afora? Não, eu sei. E sobretudo sei que és mulher! E uma mulher não calcorreia as aldeias do País» (Novas Peregrinações, Manuel Rodrigues. Lisboa: A Regra do Jogo, 1981, p. 37).
[Texto 2806]

«Ater-se a»

Casa de ferreiro

      «Não nos vamos ater na argumentação nem no descritivo das muitas peripécias da saga. Qualquer leitor interessado poderá ler o artigo e interpretá-lo como melhor entender.
      À míngua de tudo e sem cotação na bolsa — lá está a dependência! —, ressalvamos o penúltimo parágrafo. Nele se refere o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, classificado como “subsidiadíssimo”, em meio da listagem de editoras, personalidades políticas, instituições de toda a ordem que, qual enxame, se orienta ou desorienta na colmeia da língua» («Sobre o Ciberdúvidas», Público, José Manuel Matias e José Mário Costa, Público, 15.04.2013, p. 47).
      Mas não é ater-se a, isto é, limitar-se, restringir-se? Então?... E como é possível que os autores, coordenadores do Ciberdúvidas, prefiram «listagem» a «lista»?
[Texto 2763]

«Preferir uma coisa a outra»

Se até Camilo...

      Às 22h12 de ontem, escrevia-me um leitor: «Decorre na RTP (não sei se só aí) uma campanha de divulgação de uma iniciativa da Universidade de Aveiro em que vários intervenientes terminam os seus depoimentos com a seguinte frase: “Eu prefiro mudar o país DO QUE mudar de país.” Isto diz-se assim?» É claro que não diz, mas como são, imagino, catedráticos, reitores, investigadores a falar, pode haver quem duvide dos seus próprios conhecimentos. Não se diz que são os melhores cérebros que estão a emigrar?
[Texto 2759]

Regência do verbo «tardar»

Não tarda

      «Não tardou para que aparecesse alguém a dizer que Bruni [no seu novo disco, Little French Songs] se referia a François Hollande, opositor de Sarkozy que venceu as eleições presidenciais no ano passado» («Carla Bruni está de regresso aos discos», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 2.04.2013, p. 47).
      Ao verbo «tardar» junta-se habitualmente um infinitivo com em ou com a. Logo, seria «não tardou a aparecer».

[Texto 2729]

«Apelar para»

Fica bem aqui

      «Fernão d’Álvares expôs-lhe, com todo o primor de homem avezado ao trato da côrte, o objecto da sua comissão, misturando na exposição palavras de bom conselho, e outras que lisonjeavam a vaidade do senhor da Terra de Santa Maria, apelando directamente para a grandeza e generosidade da sua alma» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 222).
      Apelar para. Doravante, vamos carrear para aqui todos os muitos bons exemplos da regência correcta.

[Texto 2572]

«Interpor recurso para ou a»?

Já que a língua é a mesma

      Jornalista Olga Tancredo, na emissão das 6 da tarde do Rádio Jornal, na Rádio Nacional de Angola: «No final do encontro, o porta-voz da CASA-CE [Convergência Ampla de Salvação de Angola-Coligação Eleitoral], Lindo Bernardo Tito, afirmou que aquela coligação vai interpor recurso ao Tribunal Constitucional dentro dos prazos previstos por lei.» O mais habitual é usar-se a construção «interpor recurso para».
[Texto 2095]

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