Miguel Ângelo, pois claro

Aleluia!


      «Das 391 figuras do fresco, muitas estão nuas ou seminuas, o que causou escândalo na época, levando a que fossem cobertas com panos pintados sobre a obra original, após a morte de Miguel Ângelo» («“Juízo Final” volta a ganhar brilho», Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 32). 

      Vá lá. São o reduto, os jornais, porque já há editoras a «aconselharem» a escrevê-lo sempre em italiano. Que estupidez... Até em Itália estarão a comentar: «Ma che cazzo, pare che alla fine i portoghesi sappiano scrivere in portoghese.»

[Texto 22 656]

Tradução: «pediment»

Despublica!


      «– É pequena para a idade. – Não era verdade, mas ninguém o contradisse. – Terá de crescer. Aproxima-te – disse Roberval, e parei diante dele, tão perto que podia tocar no armário. Como queria fazê-lo! As pequenas gavetas eram perfeitas para as minhas mãos. Quem me dera que o meu guardião me desse aquele brinquedo! Ele, que era o guardião de todas as coisas. O armário imitava um palácio em miniatura. Na fachada, estavam gravados pedimentos e pilares, ladeando as gavetas com embutidos de marfim. O que teria o meu guardião lá dentro? Joias? Papéis? Relíquias sagradas?» (excerto do romance histórico Isola, de Allegra Goodman, pré-publicado no Público, «Dois capítulos do romance histórico Isola, da norte-americana Allegra Goodman», 18.03.2026, 12h01).

      Um termo estranho — temo-lo, sim senhor, mas que até eu desconhecia — devia logo fazer disparar alarmes, quando não na tradutora, no revisor. Pois, mas não. No original, lê-se isto: «Its façade was carved with pediments and pillars framing drawers inlaid with ivory.» Ou seja: «A fachada estava esculpida com frontões e pilares que enquadravam gavetas incrustadas de marfim.» Em português, «pedimento» é sinónimo (completamente obscuro, esquecido, arcaico) de «pedir; petição» e, segundo a Porto Editora, também termo geológico. O vocábulo inglês pediment (séc. XVII) «frontão, remate triangular de fachada» ← alteração de formas anteriores periment, peremint (séc. XVI), é de origem incerta; provavelmente deformação dialectal de pyramid («pirâmide»), por associação à forma triangular; posteriormente reinterpretado por influência erudita de ped-, «pé» (latim pes, pedis), o que levou a aproximações secundárias ao latim pedamentum, «apoio, escora», e ao italiano pedamento, «base, fundamento», embora estas ligações não sejam etimologicamente seguras. Seguro é que é um erro monumental de tradução.

[Texto 22 654]

Tradução: «to gain traction»

Ouvida na rádio no sábado


      «Uma teoria relacionada a questões climáticas também ganhou tração ao longo do dia. Em um primeiro momento, a REN (Redes Energéticas Nacionais), responsável pela distribuição de energia em Portugal, chegou a dizer que um fenômeno atmosférico raro na Espanha, produzido por variações extremas de temperatura no interior do país, tinha causado o apagão» («Apagão paralisa serviços e leva caos a Portugal e Espanha», Folha de S. Paulo, 29.04.2025, p. A35). 

      Mais um decalque semântico bastante directo do inglês to gain traction, que é comum nos meios de comunicação e no discurso político e empresarial anglófono. Em inglês, gain traction tem origem no sentido físico de traction (aderência ou força de fricção que permite o movimento, por exemplo, de pneus ou rodas), mas passou a ser usada metaforicamente com o sentido de «começar a ter aceitação, apoio ou eficácia». Em português de sempre, dir-se-ia antes que uma ideia ganhou força, ganhou adesão, começou a vingar ou tornou-se mais plausível/aceite.

[Texto 22 583]

Como se traduz por aí

Alguém e ninguém


      Último episódio de Equipa de Limpeza. Michèle e Solange percorrem parte de França numa muito chamativa carrinha Ford Econoline 150 com a inscrição «God Save The Gouines» na lateral. Vão aos hotéis do Grupo Sargas persuadir as colegas a fazerem greve. Como o dinheiro não abunda, dormem na carrinha. A inscrição merece um breve esclarecimento: gouines é um termo francês tradicionalmente insultuoso dirigido a mulheres lésbicas, mas que foi em parte reapropriado por muitas delas em tom afirmativo ou irónico. A frase pinta assim um slogan provocatório, algo como «Deus salve as lésbicas», que combina bem com o espírito combativo das duas viajantes — embora, diga-se, apenas Michèle seja lésbica. Logo na primeira noite, assistimos ao seguinte diálogo. Michèle: «Estou a bocejar, mas de certeza que não vou conseguir dormir.» Solange: «Espero que não ressones.» Michèle: «Não sei. Há muito tempo que não durmo com alguém. Eu gaguejo.» Ora, esta última frase é simplesmente absurda no contexto. Absurda. Depois de uma pequena confidência, Michèle percebe que se expôs demasiado e põe fim à conversa. O verbo que julgo ouvir no original é dégueuler, num uso coloquial do francês popular (por exemplo, «j’en dégueule»), que significa literalmente «vomitar», mas que figuradamente pode significar «deitar tudo cá para fora», «dizer demasiado», «despejar o que se tem para dizer». A escolha encaixa perfeitamente na personalidade de Michèle: uma mulher brusca, dura, marcada por um passado pesado (cumpriu oito anos de prisão) e cuja linguagem é directa e crua. A legenda «Eu gaguejo» não é apenas uma tradução infeliz: é um erro crasso. Tudo indica que a tradutora/legendadora, Rita Neves, julgou ouvir o verbo bégayer («gaguejar»); mas qualquer tradutor minimamente atento teria percebido de imediato que a frase não faz sentido naquele contexto e teria voltado ao áudio para confirmar o que efectivamente ali é dito.

[Texto 22 557]

Como se traduz por aí

Nunca leu um anúncio imobiliário


      No 8.º episódio da série francesa Extra, na RTP2, Antoine vai falar com o cunhado, não apenas para tentar tirar nabos da púcara, mas para lhe pedir desculpa, o que faz anunciando-lhe que vai ampliar e remodelar o anexo onde Xav vive. Puxa do telemóvel e diz: «Olha, fiz uns planos.» Quer dizer, isto segundo a tradutora, Teresa Silva Ribeiro, que se esqueceu de que, neste sentido, dizemos «plantas». («Tu vois, j’ai fait des plans.») Corrigindo: «Olha, fiz umas plantas.» Xavier replica: «É a tua cena agora, não é?» Antoine sorri e prossegue, na versão da tradutora: «Sim. Então, como vês, é tudo térreo, com duas exposições.» Duas exposições... Aquilo vai ser o quê, um museu no anexo? («Alors, je te montre. Là, tu vois, tout est de plain-pied. C’est traversant.») Corrigindo: «Então, deixa-me mostrar-te. Aqui, como vês, é tudo no mesmo piso. Tem duas frentes.» Tudo isto nos primeiros cinco minutos do episódio. Não sei, talvez um breve estágio na ERA ou na Remax resolvesse o problema.

[Texto 22 551]

Tradução: «sous-traitante»

Fica para a próxima


      Na série francesa Equipa de Limpeza (Frotter-Frotter, no original), exibida na RTP2, uma das camareiras, ao comprovar que não lhe foram pagas horas extraordinárias, afirma: «Vou falar com o Roullet.» Roullet é o gerente do hotel. A supervisora, Solange, corrige-a: não é com o hotel que devem tratar do assunto, mas com a empresa que as contratou e que lhes paga o salário, a Clean Up. A primeira insiste: «Não me importo de ir desancar o subempreiteiro.» 

      O problema é terminológico e é duplo. Em primeiro lugar, «subempreiteiro» é termo técnico próprio do âmbito da construção civil, relativo à subempreitada. Num contexto de prestação de serviços de limpeza hoteleira, a figura jurídica pertinente não é a subempreitada, mas a subcontratação ou a externalização de serviços. Em segundo lugar, mesmo no plano da subcontratação, o hotel não é o subcontratado. Pelo contrário: a Clean Up é que presta o serviço ao hotel, paga os salários e organiza o trabalho; ela é que corresponde, em francês, à sous-traitante, isto é, à empresa subcontratada. O hotel é a entidade contratante (donneur d’ordre), não o subcontratado. Há ainda um elemento interno que torna a opção da legenda particularmente infeliz. Num almoço do pessoal, o próprio gerente explica que o serviço de limpeza é «externalizado» — no original, ouve-se on l’externalise. A legenda traduz, e bem, por «subcontratado». Estamos, portanto, claramente perante um serviço que o hotel decide externalizar, confiando-o a uma empresa terceira. Não há aqui nenhuma lógica de empreitada. 

    A tradução e legendagem portuguesa, da responsabilidade de Rita Neves, ao optar por «subempreiteiros», desloca o enquadramento para o domínio errado e agrava a confusão, tanto mais que a própria série fornece, noutra cena, a chave terminológica correcta. Num registo rigoroso, a réplica poderia ter sido algo como: «Não me importo de ir falar com os do hotel», «Não me importo de ir falar com a direcção» ou, querendo manter alguma precisão técnica, e já que a personagem parece especialista em mopas e normas, «Não me importo de ir falar com a entidade contratante.»

[Texto 22 519]


Es heißt „Baviera“ auf Portugiesisch – merkt’s euch, ihr Zapfer!

Coisa de cervejistas


      Vou vendo — e corrigindo sempre — Bavária em vez de Baviera. É bem verdade que Rebelo Gonçalves, na página 155 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, diz ser preferível a primeira, mas já então notava que o uso consagrou Baviera. Então, deixemos tudo como está. Aliás, Rebelo Gonçalves não acertou sempre.

[Texto 22 411]

Definição: «co-gestão»

Poupem-me


      Se algum tradutor der de caras com uma codetermination, peço que não a verta à letra. Não se trata de «co-determinação», forma que até aparece por aí, é certo, mas que não é nossa. O termo correcto, claro e consagrado é outro: co-gestão. É assim que surgem os conselhos de empresa, é assim que se fala da presença de representantes dos trabalhadores nos órgãos de gestão, é assim que se traduz há décadas em textos da União Europeia e nas próprias práticas sindicais portuguesas. De caminho, bem podemos pensar numa definição mais ampla e clara do que a da Porto Editora, que acerta no essencial mas fica aquém. Assim, proponho ➜ co-gestão participação formal dos trabalhadores nos órgãos de gestão de uma empresa, especialmente por meio de representação em conselhos de administração ou conselhos de empresa, com graus variáveis de influência sobre as decisões estratégicas e, por vezes, sobre os resultados económicos da actividade empresarial.

[Texto 22 408]

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