Irritações: véspera e dia anterior

Esta deixa-me doente


      Não sei se já disse isto nos vinte anos de blogue, mas, como todos os dias nascem tradutores, não fará mal, pelo contrário: por favor, não escrevam tantas vezes «no dia anterior». De certeza que conhecem, já ouviram da boca de pais, avós (mas devia ser «avôs), vizinhos, a palavra «véspera». Usem-na.

[Texto 22 343]

Irritações: o arenito das traduções

Pois, muita areia


      Eu só queria notas de 500 euros (pois, também não posso contentar-me com notas de 10 ou 20) como as vezes que já li, em traduções do inglês americano, referências a casas, degraus ou qualquer outro elemento arquitectónico de arenito. O brownstone transforma-se invariavelmente em «arenito castanho», quando não «arenito amarelo», como se a cor da pedra fosse mais importante do que o edifício inteiro. E, no entanto, nem é castanho nem amarelo: o brownstone original tem uma tonalidade indefinida, entre o avermelhado e o terroso (reddish-brown, como dizem os dicionários) e o que importa, verdadeiramente, não é a cor, mas o tipo de edifício que esse termo designa. Brownstone não é a pedra nem a cor: é o nome dado a um tipo de prédio urbano nova-iorquino, típico do século XIX, com fachadas revestidas de arenito (sempre aparece!) e uma escadaria frontal, o stoop, que conduz ao andar principal, elevado em relação à rua. Traduzir isso por «degraus de arenito castanho» é não perceber nem a arquitectura, nem a língua, nem o efeito pretendido na narrativa. Mas retomo o início e reformulo-o: não era notas que eu queria, mas anos com saúde. Enquanto fui imortal, não pensava assim, mas agora a história é outra.

[Texto 22 337]

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P. S.: Lá te esqueceste, Porto Editora, de dicionarizar «grafémico» e «grafofonémico», que aqui propus no passado dia 29. Só neste blogue andam vai para quinze anos. Já merecem ascender ao Olimpo.


Irritações: «soar»

Porque não é tradutor

      «“You are?” Bob’s voice sounded surprised.» Se não é tradutor, caro leitor, de certeza que não verteu aquele «sounded» por «soou». Parabéns, é menos uma criatura, que me parecem, e são, demasiadas, que me enfurece com essa maneira tolinha de traduzir. Sim, tem razão, há alternativas, e entre elas estão, no contexto, «mostrar-se» ou «parecer».
[Texto 22 330]

«De resto»

De reliquo

      Agora já encontrei autores que afirmam que «de resto» é um galicismo fraseológico, que está em vez de «quanto ao mais». Mas Vittorio Bergo (Erros e Dúvidas de Linguagem. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1986, p. 121) escreve: «DE RESTO – Locução acoimada de galicismo mas defendida e abonada por bons autores, já que traduz o latim de reliquo. “De resto, tratavam-se com aparente cordialidade.” (AH, Lendas, II, 252).» Se Alexandre Herculano usou...
      Por acaso estou a ler uma tradução do francês, com o original à frente, e comprovei que as seis ocorrências de du reste que apresenta foram todas pobremente vertidas por «de resto». Ora, não se podia traduzir uma ou outra por «finalmente», «aliás», «além de que»?... Nem temos necessidade de lançar mão de formas mais coriáceas como «ademais» e mesmo «quanto ao mais».
[Texto 491]

«Nom de voisinage»

Das Antilhas

      Ora aqui está algo curioso. Nas Antilhas (apenas?), os indivíduos têm um nom de voisinage, um nome dado pela comunidade mais próxima onde vivem, duplo essencial de todo o nome oficial. Numa tradução, porém, deveremos traduzir à letra — «nome de vizinhança» — ou procurar uma melhor correspondência? E alcunha, serviria?

[Texto 486]

Tradução: «marronage»

Serve

      «E assim a marronagem histórica...» É cópia do francês marronage, que designa o acto de os escravos se evadirem (a que, actualmente, se acrescentou a acepção de resistência à cultura dominante). O Dicionário Francês-Português da Porto Editora dá como tradução de marronage «exercício ilegal de uma profissão», «fuga, evasão de escravos». Marron é, em francês, castanho, como sabem, mas pelo mesmo vocábulo também se designava o fugitivo, o gentio, o ilegal e o clandestino. Ora, não é raro ver, em especial em autores brasileiros, para referir a mesma realidade, a palavra, que a maioria dos dicionários não regista, «quilombolismo».
[Texto 385]

Tradução: «mantelpiece»

[Mantelpiece.jpg]

Outra solução

      «On the mantelpiece is a photograph in Lucite of two old people I don’t know.» «Por cima da lareira...», verteu o tradutor. É outra solução, em vez de cornija ou lintel da lareira. Bem melhor, na verdade, que «prateleira da lareira» ou, abrenúncio!, «escarpa da lareira».
[Texto 376]

Tradução: «tilt-a-whirl»

Maluca é, de certeza

      «The big round cars for the Tilt-a-Whirl…» «As cabines enormes e redondas do Tilt-a-Whirl…» Hã? Este divertimento de feira não tem nome em português? Estou mesmo a ouvir um miudito alentejano a dizer à mãe que quer andar no tilt-a-whirl... No ProZ, sugerem «xícara maluca» (já ouviu, caro Paulo Araujo?) ou, para Portugal, «cadeira maluca».

[Texto 375]

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