Como se traduz por aí

Sim, boa sorte


      No 3.º episódio da série Vigilantes (Brigade Anonyme), Castaneda recebe uma nova chamada de pais em pânico: Adèle Hayat, a filha de 20 anos, desapareceu antes de embarcar num avião para se juntar a eles em Ajaccio. Quando descobriram que a última pessoa que estivera com ela era Damien, um empregado do Grande Hotel, em Royan, a equipa foi lá apertar com ele. Conversaram e, vendo que era inocente, Castaneda despede-se: «OK, on va te laisser travailler. Bon courage.» Pois, mas o que estava nas legendas, de Susana Serrão? «Podes voltar ao batente. Boa sorte.» Boa sorte também para os espectadores, pode ser que 0,5 % percebam isto.

[Texto 22 934]

Como se traduz por aí

Falsos amigos para falsos tradutores


      «He picked up his service pistol, a 9 mm Walther P38, from the dressing table, checked the action, and slotted it into his holster.» Para o tradutor, é «verificou a acção», sem dedicar meio segundo a pensar se isso fazia sentido.

[Texto 22 880]

Léxico: «dia aberto»

Uma ida à Casa Sonotone ajudava


      Ontem vi o filme Brincar com o Fogo (Jouer Avec Le Feu, de Muriel Coulin e Delphine Coulin, 2024) e achei curioso que o tradutor (que não sabemos quem foi) optasse por «portas abertas» em vez do agora preponderante «dia aberto». Eis o que a personagem, que é a real detentora do cargo, Béatrice Pérez, disse: «Chères étudiantes, chers étudiants, chers parents, en tant que doyenne de la Faculté des Lettres, je suis honorée et fière de vous souhaiter la bienvenue aux portes ouvertes de la Sorbonne.» Tanto mais que nas legendas saiu desta forma pouco natural, até mesmo agramatical: «Caras alunas, caros alunos, caros pais, enquanto diretora da Faculdade de Letras, tenho a honra e o orgulho de vos dar as boas-vindas ao Portas Abertas da Sorbonne.» Na verdade, há uma via intermédia, e porventura a mais conforme à nossa língua, que passa por, aparentemente, se inspirar no inglês open day e no francês portes ouvertes, que é «dia de portas abertas». Seja como for, já bem enraizado nos nossos hábitos linguísticos está ➜ dia aberto evento em que uma instituição, sobretudo escola, universidade ou empresa, abre as suas instalações ao público para dar a conhecer o seu funcionamento, actividades e serviços.

[Texto 22 871]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Mas sabemos o nome da legendadora, que deixou passar uma coisa sem pés nem cabeça. À chegada a casa, depois de terem ido ao dia aberto na Faculdade de Letras da Sorbona, pai e filho mais novo, Louis, deparam-se com a surpresa de Fus ter preparado a refeição. Há ali uma troca rápida de falas breves, interjeições — «Oh, la vache!», «Ah ouais!», «Ah!», «Tu t’es chauffé», «J’ai mes petits secrets!», «Fus le cuistot!», «Dis donc...» —, com esta última, uma observação do pai, a aparecer assim nas legendas: «Elá...» Aqui, a culpa também é, obviamente, da legendadora, Patrícia Pimentel. No contexto, é qualquer coisa como «com que então...», ainda a expressar a surpresa de o filho, que já andava desencaminhado, ter preparado a refeição. (Fez-me lembrar a bojarda no anúncio dos Gato Fedorento para a Portugal Telecom (ainda alguns dos meus leitores não teriam nascido), em que aparecia «épa». Mas pronto, eles é que são bons.) Como é que a tradutora, com mais meios, não conseguiu ver isto?


Tradução: «guardien de la paix»

Espetanços contra o espectador


      No filme Os Novos Vizinhos (Les Gens d’à côté, André Téchiné, 2024), Lucie (Isabelle Huppert) resume assim a Yann (Nahuel Pérez Biscayart) o seu percurso inicial na polícia: «Comecei como guardien de la paix aos 24 anos. Depois estive 3 anos na polícia administrativa e depois trabalhei com sem-abrigo, nas estações da Gare du Nord e da Gare de L’Est.» Isto, claro, nas legendas, et le spectateur qui ne comprend pas le français, tant pis pour lui. Não é isso, não é SÓ por estar ali aquele pedacinho em francês: está mal traduzido. Mas o que é isso de «polícia administrativa»? Bem, terão de perguntar à tradutora, Cláudia Brito. Vamos ao que a personagem diz, vamos ao áudio: «J’ai commencé gardien de la paix à 24 ans. Plus tard, j’ai fait police-secours à Paris pendant trois ans, puis je me suis occupée des sans-abris dans les gares. Gare du Nord, gare de l’Est.» Transpondo — não é o que se deve fazer na tradução? —, tanto quanto possível, para a realidade portuguesa, seria mais ou menos assim: «Comecei como polícia aos 24 anos. Mais tarde, estive três anos na intervenção rápida em Paris e, depois, ocupei-me de sem-abrigo nas estações: Gare du Nord e Gare de l’Est.»

[Texto 22 852]

Tradução: «lactante»

Vê-se de tudo


      «Dos agentes de la Guardia Civil fuera de servicio salvaron la vida a una niña de 16 meses que se encontraba en parada cardiorrespiratoria en el municipio de Alhama de Murcia. Los agentes practicaron primeros auxilios, aplicando la maniobra de Heimlich adaptada para lactantes. Gracias a ello, la niña comenzó a ventilar de forma autónoma antes de la llegada de la ambulancia. En la imagen, los guardias, con la menor» («Dos guardias civiles fuera de servicio salvan la vida a una niña», La Razón, 16.04.2026, p. 45). 

      Vamos pôr as coisas assim: muitos desses que julgam que estão habilitados a traduzir do castelhano apenas porque, antes do 25 de Abril, os avós iam comprar caramelos a Badajoz iam espalhar-se aqui. É que em castelhano lactante tanto designa o bebé, a criança que mama, como a mulher que amamenta. Em português, precisamos de duas palavras: lactante é a mulher que amamenta, e à criança que mama damos o nome de lactente. Por um daqueles acasos em que a minha vida (ou a de todos?) é pródiga, justamente na semana passada revi uma obra em que a autora usava o termo errado.

[Texto 22 833]

Tradução: «péniche»

O contrário do que ali se intuía


      Quinto episódio da série Na Sombra. O mais electrizante até agora, a faltar um para o fim. Le Major, claramente nervoso, confessa a César e a Marylin: «C’est moi qui suis allé à la péniche où j’ai retrouvé le fils Pinguet.» Nas legendas: «Fui à barcaça, onde me encontrei com Pinguet Filho.» Ora, a embarcação está atracada em Issy-les-Moulineaux, um daqueles troços do Sena onde abundam péniches habitadas, muitas delas permanentemente atracadas e integradas no tecido urbano. São batelões convertidos, alguns luxuosíssimos. Chamar barcaça a isto... Há-de ser a pior escolha, muito, muito atrás, pela conotação, de «batelão», «barco», «casa-barco», e em último caso — oh, sim, dêem-me um tiro! — o termo original, péniche, que encontro em algumas traduções, para dar a cor local. Não há volta a dar, a palavra «barcaça» torna-se mesmo desajustada no contexto, já que remete de imediato para rudeza, trabalho pesado, até alguma degradação material, tudo o contrário do que se sabe (César fora lá antes, de noite) e do que se intui.

[Texto 22 817]

Tradução: «unoaked»

Estava aqui a pensar


      Com que então uma garrafa de Comboio do Vesúvio unoaked… Ainda algum pacato e desprevenido português se atraganta antes mesmo de o levar aos lábios. Vejamos: se unoaked também é, apesar de consolidado, ambíguo em inglês, porque não sugerirmos nós um termo legitimamente português? Em rigor, unoaked não significa sempre «vinho sem qualquer contacto com madeira». Muitas vezes quer apenas dizer «vinho sem marca sensorial de carvalho», excluindo o uso de barrica nova, mas admitindo madeira neutra, contacto breve ou soluções técnicas equivalentes. O termo funciona menos como descrição processual do que como rótulo de estilo, e essa ambiguidade é hoje plenamente aceite no discurso enológico anglo-saxónico. Ora, se toleramos essa elasticidade no inglês, não há razão para exigir ao português uma precisão cirúrgica que o próprio original não tem. A dificuldade não é conceptual, é lexical: o inglês dispõe de um adjectivo curto, transparente e estabilizado; o português refugia-se em perífrases correctas, mas pesadas, como «vinho não estagiado em madeira» ou «vinho sem contacto com carvalho». É aqui que se pode, e talvez se deva, atirar o barro à parede. Desmadeirado é morfologicamente irrepreensível, semanticamente claro e dialoga directamente com um adjectivo já consagrado, amadeirado. Tal como unoaked, pode ser lido tanto em chave técnica como sensorial; tal como unoaked, não resolve todas as subtilezas do processo, mas comunica eficazmente um perfil de vinho. Nenhum termo nasce perfeito nem imune a objecções. Nasce porque alguém o usa, outro o entende e um terceiro já não estranha. Se aceitamos unoaked numa garrafa do Douro, talvez esteja na hora de experimentar também um vinho desmadeirado, ao menos na língua.

[Texto 22 803]

Como se traduz por aí

Não temos cá disso


      Quarto episódio da série Na Sombra. Francœur, apertado por escândalos e suspeitas, propõe a Marie-France Trémeau uma candidatura conjunta, à americana. O Eliseu para ele, para ela o Matignon. Ela, embora replique de imediato que não acredita nestas soluções bicéfalas, não deixa de ponderar ali mesmo. Mas diz também: «Quand tu auras vu ma liste de courses, je ne sais pas si ta proposition sera toujours une si bonne idée.» Nas legendas, estava assim: «Quando tiveres visto a minha “lista de compras”, a tua proposta talvez não tenha sido uma ideia assim tão boa.» E esta «lista de compras» já tinha aparecido noutro episódio. Para um francês, a expressão francesa não é obscura, a sua equivalência literal é que não existe em português. É um caso clássico de assimetria idiomática. 

      Temos de ver que é um filme, em geral o espectador não anda para a frente e para trás para perceber, nem pára para ir consultar um dicionário. Tem de se optar sempre pela formulação mais clara, mais directa. Por isso, eu optaria por uma solução assim: «Quando vires a minha lista de exigências, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» Ou até mais simples: «Quando vires as minhas exigências, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» Ou ainda: «Quando vires as minhas contrapartidas, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» É que, para aceitar, ela vai querer os ministérios mais importantes, como o do Interior e o da Justiça, entre outras exigências relacionadas com a linha política.

[Texto 22 802]

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