30.7.26
Pobres espectadores
[Texto 23 376]
Pobres espectadores
[Texto 23 376]
Isso é o que é menos
Caríssima Porto Editora, a baita italiana não é apenas, como afirmas no dicionário de italiano-português, a «cabana alpina». Mas não é de agora, nunca foi. Na verdade, o significado histórico do termo nunca correspondeu exactamente ao que um falante de português entende por «cabana». Desde as descrições mais antigas, a baita é uma construção rural alpina, cuja função podia ser muito variada: habitação, abrigo de pastores, estábulo, celeiro ou local de transformação do leite. O problema não está no «alpina», mas na «cabana». Assim, para bem dos tradutores e, em última instância, dos leitores de traduções do italiano (no último amo, não revi menos de dez), proponho ➠ baita construção tradicional das regiões alpinas, usada como habitação, abrigo ou edifício agrícola; [por extensão] casa de montanha ou chalé alpino.
[Texto 23 288]
Sim, italiano
[Texto 23 276]
No cerne, a hipocrisia
[Texto 23 122]
É como se vê
Na quarta-feira vi, na RTP2, o primeiro episódio da série italiana Um Tempo Após Outro (Un’Estate Fa, 2023), de Davide Marengo e Marta Savina. Como envolve linguagem e conceitos jurídicos, a probabilidade de haver erros na tradução era muito alta. Como de facto. Quando Elio Santamaria está na iminência de levar um murro bem assente, de que será salvo in extremis pela intervenção de um traficante de droga, diz: «Articolo 582, percosse volontarie.» Nas legendas, da responsabilidade de Florinda Lopes (assim como a tradução), aparece isto: «Art. 582.: agressões voluntárias.» Não significa rigorosamente nada para o espectador português, não temos tal figura. É verdade, mas irrelevante para a tradução, que a personagem mistura duas figuras penais próximas do direito italiano. Ao citar o artigo 582.º do Código Penal, refere-se na realidade ao crime de lesões pessoais («lesioni personali»), isto é, à produção de danos físicos ou psíquicos noutra pessoa. Contudo, usa a expressão «percosse volontarie», que remete antes para o crime de «percosse» (artigo 581.º), correspondente grosso modo às vias de facto ou agressões sem lesão relevante. A confusão é plausível numa personagem jovem e sob tensão, sobretudo porque ambas as figuras pertencem ao mesmo campo semântico da agressão física. De volta à tradução, havia duas opções: «Artigo 582.º, ofensas à integridade física dolosas.» Ou, mais verosímil perante a situação de tensão e a condição de caloiro de Direito que a personagem seria, assim: «Artigo 582.º, agressão dolosa.» A tradução correcta exige reconhecer que o italiano está a assinalar o dolo e depois encontrar a categoria equivalente no nosso ordenamento, não apenas o correspondente vocabular.
[Texto 23 021]
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P. S.: Mas encontrei mais erros. Como este, ainda menos desculpável: «O fato, inspetor, é que não me lembro de nada daquele verão», diz Elio Santamaria ao inspector Zancan, à saída da missa. Um dia, só semialfabetizados saberão, sem qualquer espécie de hesitação, que se escreve «facto», porque tradutores, jornalistas e outros que ganham a vida a escrever é o que se vê. Mais uma coisa: escreve-se 581.º, não 581., assim amputado. Para onde mando a factura?
Também na costa, mas noutra
O 4.º e último episódio da 1.ª temporada da série Vigilantes (Brigade Anonyme), na RTP2, andou todo à volta do desaparecimento de um adolescente, Lucas. Depois de ver que a última mensagem de um dos envolvidos fora enviada de Pontaillac, Charlie pergunta à mãe de um deles onde era. «C’est une plage sur la côte. Mon beau-frère a un carrelet là-bas.» Nas legendas (de Susana Serrão), a opção foi por «palheiro». Pouco feliz. «O meu cunhado tem lá um palheiro...» «Descreva o palheiro, se faz favor», pede Castaneda. «C’est une des cabines sur pilotis. C’est vers la pointe, c’est le plus loin quand on vient de la plage et il y a des volets verts.» Fez-me lembrar uma tradução de um romance norte-americano de que falava Jorge Colaço cujo protagonista, nas palavras do tradutor, «sofrera as passas do Algarve». Enfim... Susana Serrão, bastava optar por «cabana de pesca», por exemplo.
[Texto 22 941]
Sim, boa sorte
No 3.º episódio da série Vigilantes (Brigade Anonyme), Castaneda recebe uma nova chamada de pais em pânico: Adèle Hayat, a filha de 20 anos, desapareceu antes de embarcar num avião para se juntar a eles em Ajaccio. Quando descobriram que a última pessoa que estivera com ela era Damien, um empregado do Grande Hotel, em Royan, a equipa foi lá apertar com ele. Conversaram e, vendo que era inocente, Castaneda despede-se: «OK, on va te laisser travailler. Bon courage.» Pois, mas o que estava nas legendas, de Susana Serrão? «Podes voltar ao batente. Boa sorte.» Boa sorte também para os espectadores, pode ser que 0,5 % percebam isto.
[Texto 22 934]