Como se fala por aí

Assim se perde


      «Dois quilómetros e 600 metros antes estamos na zona das Docas de Lisboa. Cotrim de Figueiredo puxa do megafone e encoraja as dezenas presentes. “Quem chegar em último é uma batata mole, encontramo-nos no Palácio de Belém, que vou lá buscar as chaves”» («Cotrim. “Quem chegar em último é uma batata mole”», João Maldonado, Rádio Renascença, 4.01.2026, 19h33). Isto é o quê, a versão das Avenidas Novas da batata podre?

[Texto 22 798]

O que se escreve por aí

Mas não existem, claro


      João Caupers, jurista, antigo presidente do Tribunal Constitucional e ex-conselheiro de Estado, que mantém no Diário de Notícias uma crónica semanal, veio expender uma tese estrambótica (extravagante, esquisita, ridícula, estrambólica...) até mais não: não existem sinónimos. Mais: se existissem, o que nega, seriam desnecessários. Embora, já mais perto do fim do que do princípio, afirme que não é linguista (ah!), sempre vai avançando para o desenlace, que não é outro que não aquele que já adiantei, mas não quero que fique aqui apenas a minha interpretação: «Numa breve investigação que fiz recentemente, encontrei, em decisões judiciais, as palavras esquivamento, ajuizamento e lesionamento (entre outras). Se existirem, serão sinónimos, respectivamente, de esquiva, juízo e lesão. Não terão outra utilidade a não ser dificultar a compreensão do texto» («Palavrões», João Caupers, Diário de Notícias, 12.03.2026, p. 4).

[Texto 22 613]

Como se inventa por aí

Ora, não vale a pena


      «Muçulmanos caxemires rezam após concluírem a oração do Asr (tarde) durante o mês sagrado de jejum do Ramadão no Santuário Dargah Hazratbal, em Srinagar», era a legenda de uma imagem no Público de ontem. Pois, era uma boa ideia, mas os gentílicos de que dispomos são dois, não três: caxemirense e caxemiriano.

[Texto 22 505]

O que se escreve nos jornais

Não me diga

      «Cristiano Ronaldo surpreendeu sexta-feira à noite ao falar aos jornalistas, no final do Portugal-Suécia, com o filho pela mão. Cristiano Ronaldo Júnior, que a família trata carinhosamente por Cristianinho, fez 3 anos a 17 de junho último, mas tem cada vez mais protagonismo e está a tornar-se uma das crianças mais influentes do mundo, como de resto acontece com os filhos de outros futebolistas, como David Beckham» («Filho de Ronaldo ganha mais protagonismo e fãs nas redes sociais», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 18.11.2013, p. 53).
      E que influência é essa, cara Filomena Araújo, que Cristiano Ronaldo Júnior exerce no mundo? Não deteve o tufão Hayan, por exemplo, pois não? Protagonismo tem, graças aos jornalistas acéfalos deste mundo.
[Texto 3540]

«Esta prova é um erro CrXto»!

Será mesmo um erro?

      «A ideia surgiu», respondeu o professor Arlindo Ferreira, «um pouco por brincadeira, nos comentários do blogue. Uma leitora sugeriu fazer T-shirts para os protestos [que se realizam hoje em várias cidades] e até sugeriu algumas frases. Acabou por ficar “Esta prova é um erro CrXto”. Depois juntou-se outro colega que tinha capacidade para tratar da impressão e entrega das T-shirts. E foi assim que surgiu a campanha» («“Será difícil convencer 500 professores a corrigir a prova”», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 16.11.2013, p. 48).
      Hã?! Primeiro, vem-nos à mente o acrónimo ΙΧΘΥΣ. A frase que se lê em todo o lado é «Esta prova é um erro Crato»; na T-shirt, em cima do que pode ser um a, surge o sinal de errado. Como diriam os da glote, a frase permite várias leituras. Quem escreveu a frase (um aluno?) enganou-se e em vez de «crasso» saiu «crato» (como está tudo grafado em maiúsculas, o nome do ministro é apenas sugerido). Por isso, algum professor — competentíssimo, que certamente não precisa de se submeter à prova de avaliação — apôs o sinal de errado sobre o a. Ou — inclino-me mais para esta — o que se pretendia escrever era uma apóstrofe ao ministro da Educação, mas, como até revisores (!) e professores de Português (!!) fazem, sem a vírgula antes do vocativo: «Esta prova é um erro, Crato.» São Marcos lhes valha.
[Texto 3527]

Bairrismo exacerbado

Bend over backwards

      «Empossado há 24 dias, o presidente da Câmara [Municipal do Porto], eleito como independente, foi “apresentar cumprimentos” ao Comandante Metropolitano da PSP [António Bagina] e “deixar uma mensagem de preocupação e solidariedade” sobre a falta de meios da polícia, que traduziu na locução “os agentes da PSP fazem das tripas coração”, uma “expressão que é tipicamente portuense”» («Há duas alternativas para substituir a 12.ª esquadra», José Miguel Gaspar, Jornal de Notícias, 15.11.2013, p. 22).
      Já li, e mais de uma vez, que Rui Moreira é um homem culto, mas isto ultrapassa o que pudesse imaginar.
[Texto 3524]

E porquê esquistossomose?

Não se percebe

      «Em uma cirurgia inédita na literatura médica brasileira, o setor de ginecologia do Hospital das Clínicas de São Paulo removeu um cisto de ovário de 16 litros por um corte de 1,2 cm no umbigo. [...] “O clínico-geral disse que era “barriga d’água [esquistossomose]. Como o meu exame de Papanicolaou sempre dava negativo, disseram que eu nem precisava passar com o ginecologista”, diz Maria» («Cisto gigante é retirado pelo umbigo de paciente no HC», Cláudia Collucci, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. C9).
      Barriga-d’água é o mesmo que ascite — designação dada em medicina à acumulação de líquido na cavidade abdominal. Pretendeu a jornalista Cláudia Collucci usar um termo técnico para explicar do que se trata? A esquistossomose é outra doença, também chamada bilharziose, causada por um parasita, a bilhárzia. Precisamos aqui de um médico.
[Texto 3402]

Léxico: «dessolidarizar»

Podia estar

      O autor achou que tinha de inventar uma palavra: «prometeuniana». Apre. Mas, mudando de assunto, eis uma que falta em muitos dicionários: «Não posso dessolidarizar-me desses horrores, exactamente do mesmo modo que não posso dessolidarizar-me das minhas ideias. Perante a radical evidência do mal, a única salvação para o homem e para os homens aparece-me em Jesus [...]» (Deus, o Que É?, M. S. Lourenço. Lisboa: Morais Editora, 1968, p. 152).
[Texto 3355]

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