«A» protético

Já me alembro: assoprem na arrã

      Ontem tive de ir a uma repartição de Finanças (não vem daqui, garanto, o meu optimismo). Num dos ecrãs em que podemos ver o número de senha que está a ser atendido, de repente apareceu também uma emissão do programa Bom Português. A frase era qualquer coisa como isto: «É nesta cadeira que me acento.» Depois de terem explicado o significado de «acento», a frase reapareceu assim: «É nesta cadeira que me acento.» Finalmente, surgiu a frase recomendada: «É nesta cadeira que me assento.» Se tiver de voltar a uma repartição de Finanças, já estou mentalmente preparado para os ver recomendarem as formas «alembrar», «amandar», «amostrar», «arrã», «arrebentar», «arrecuar», etc. Depois de nos limparem o dinheiro, sujam-nos a língua.
[Texto 291]

«(In)legitimidade»?

Outra querela — se quiserem

      Na secção «Cartas à Directora» do Público, José Mário Costa responde hoje ao jornalista Luís Miguel Queirós. Logo no início, escreve: «Não me insurgia aí [na carta «Sobre o “presidento” e a “presidenta”»], obviamente, contra a sua opinião pessoal sobre a (in)legitimidade do uso da palavra “presidenta”, mas contra a forma como, nesse primeiro texto, enquanto jornalista, lhe cabia tratar, de forma distanciada, uma questão linguística que divide especialistas, em Portugal como no Brasil.» Desde quando é que, para indicar o antónimo de «legitimidade», se pode escrever o prefixo in-, que nem sequer fez parte, na língua portuguesa, da formação do vocábulo, que recebemos já do latim? Que grande equívoco.
[Texto 280]

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