Léxico: «tragediante»

Só em bilingues?


      «As páginas do diário que sucedem à morte de Fanny, por ele mandada embalsamar e depositada em urna de cristal, depois de lhe extrair o coração que meteu num bocal de álcool e levou para o Lodeiro — mise en scène dum tragediante-comediante, encharcado de Dumas Filho, de Gautier, de Soares de Passos, do mau Schiller — são suspiros, retrospecção dolorosa, remorso, pantominice» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 190-91).

[Texto 22 902]

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Léxico: «piasta»

A História fora dos dicionários


      Aqui os protagonistas de um romance estão a caminho de Auschwitz, «antiga capital dos ducados piastas de Auschwitz e Zator». O pior é que os dicionários não registam (e deviam) a palavra ➜ piasta HISTÓRIA relativo ou pertencente à dinastia dos Piastas, primeira dinastia reinante na Polónia, que governou desde o século X até ao XVII; membro dessa dinastia.

[Texto 22 901]

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Léxico: «afogador»

Arranque a frio


      Ai, ai... Houve um momento de anticlímax quando o Ford Escort Mk2 não quis pegar. Ela puxou o afogador e tornou a tentar e, desta vez, o motor arrancou. Claro que, a ti, Porto Editora, isto não te diz nada, pelo que proponho ➜ afogador dispositivo do carburador que limita a entrada de ar, enriquecendo a mistura ar-combustível para facilitar o arranque a frio do motor.

[Texto 22 900]

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AO90 no dia-a-dia

Da teoria à prática


      «Desde logo, através do mais ou menos declarado financiamento, com dinheiros públicos, da confissão dominante – ainda há um quarto de século o então cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, se queixava de haver pouca verba no Orçamento de Estado para a construção de igrejas, e só a partir de 2005, após a revisão da Concordata, os padres deixaram de beneficiar legalmente de isenção de IRS –, sendo fastidioso enumerar aqui todos os privilégios, económicos e outros, de que a Igreja Católica ainda goza face às outras confissões» («O Chega e a Bíblia de Tarantino», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 29.04.2026, p. 13). 

      Tem que ver com o Acordo Ortográfico, sim senhor: desde o início da sua aplicação, pessoas mal informadas — entre as quais boa parte são jornalistas — entendem, ou assim parece, que uma das alterações foi decepar tudo o que é hífen. Revejam-me esta convicção, se faz favor. E com urgência.

[Texto 22 899]

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Léxico: «camerata»

Mais música


      Carlos Tavares, o que foi ministro da Economia no XV Governo Constitucional, não o ex-director-executivo da Stellantis (e quantos mais homónimos não haverá...), foi um dos convidados do programa Uma Noite em Forma de Assim, na Antena 1. A certa altura, usou o termo «camerata», nascido italiano, mas usado universalmente. Portanto, já é nosso este ➜ camerata MÚSICA 1. conjunto de músicos, geralmente de pequena dimensão, dedicado à execução de música de câmara; 2. [por extensão] grupo de artistas ou eruditos reunidos em torno de interesses estéticos comuns, especialmente à semelhança das academias musicais italianas do Renascimento.

[Texto 22 898]

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Léxico: «transcriptoma | transcriptómica | transcriptómico»

E são três


      «Neste estudo, os investigadores combinaram técnicas de sequenciação de células individuais e transcriptómica espacial – tecnologia avançada que mapeia a expressão dos genes diretamente em cortes de tecido, preservando a localização original das células – para examinar cerca de 5,5 milhões de neurónios em mais de 300 ratinhos» («Cientistas criam o primeiro “mapa do olfato”», Rádio Renascença, 28.04.2026, 16h36). 

      Bem, muito bem, rebém — porque é, de facto, esta a palavra, com esta grafia, que se usa na maioria das vezes. Não é por acaso. Assim, proponho ➜ transcriptómica BIOLOGIA MOLECULAR ramo que estuda o transcriptoma; conjunto de métodos destinados à análise global da expressão génica. 

      E é assim porque vem do inglês transcriptome, comp. de transcript, «transcrito», + genome, «genoma», com -ome (do gr. -ōma, «conjunto, totalidade»), já que, termo científico e recente que é, não se formou na nossa língua, e daí ser errado escrevê-lo «transcritoma». 

      E, assim, também temos ➜ transcriptoma BIOLOGIA MOLECULAR conjunto de todas as moléculas de RNA (transcritos) presentes numa célula, tecido ou organismo, num dado momento ou em determinadas condições; reflecte o estado de expressão génica. 

      E ➜ transcriptómico BIOLOGIA MOLECULAR relativo ao transcriptoma ou à sua análise; que diz respeito ao estudo global da expressão génica.

[Texto 22 897]

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Léxico: «bailarina»

Esta não dança


      «O método mais usado, sobretudo no inverno, continua a ser a “bailarina”, um cilindro a lenha onde se faz fogo para aquecer cerca de 90 litros de água, utilizados depois em banho de imersão. “É o nosso luxo”, descrevem, embora exija tempo: o processo pode demorar entre 30 minutos e uma hora até estar pronto» («Quando a luz falha, eles continuam ligados. Como se vive fora da rede elétrica?», Lara Castro, Rádio Renascença, 28.04.2026, 6h48). 

      Trata-se de uma reportagem, e vêem-se duas fotografias da bailarina, que se poderá pensar que é a «vasilha de forma cónica para aquecer água» que o dicionário da Porto Editora acolhe. O que se vê nas imagens da reportagem, porém, é diferente, é isto ➜ bailarina aparelho doméstico tradicional, geralmente metálico e de forma cilíndrica, provido de fornalha interior a lenha, utilizado para aquecer água destinada a banhos de imersão, comum em meios rurais.

[Texto 22 895]

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Definição e etimologia: «maratona»

Nem dizem se é de estrada


      «Cuentan que el origen del maratón hay que agradecérselo al filólogo francés Michel Bréal. Fue él quien relató a Pierre de Coubertain la vieja historia de Filípides y su carrera desde Marathon hasta Atenas para anunciar el desembarco persa. También quien lo convenció para incluir una prueba similar en el programa olímpico. Y dicen que los 42,195 kilómetros no son la distancia real entre las dos ciudades, sino que se estableció así a partir de los Juegos de Londres 1908, cuando se alargó la prueba en poco más de dos kilómetros al inicio para que la Reina consorte pudiese ver la salida desde el balcón real del Palacio de Windsor» («El asalto a la barrera imposible: del pie descalzo de Bikila a unas zapatillas de 97 gramos», J. Asprón, El País, 27.04.2026, p. 33). 

      Dizem, dizem, dizem... Maratona não era cidade, como escreve o jornalista, nem aldeia, como se lê no Houaiss. Não passava de um povoado, um demo, mas designava sobretudo uma planície. Quanto à definição, podia dizer-se mais do que se lê na maioria dos dicionários, sem sobrecarregar, assim ➜ maratona DESPORTO prova de corrida pedestre de fundo, disputada em estrada, com distância oficial de 42,195 km, fixada internacionalmente desde os Jogos Olímpicos de Londres de 1908, integrando o programa do atletismo e exigindo elevada resistência física e gestão prolongada do esforço. 

      Já quanto à etimologia, vem do topónimo Maratona (grego Marathṓn), demo da Ática situado numa planície costeira; segundo a tradição, um mensageiro (identificado tardiamente como Fidípedes) correu daí até Atenas para anunciar a vitória ateniense sobre os Persas (490 a. C.); o episódio foi retomado no século XIX, dando origem à designação da prova de corrida de fundo; o topónimo remonta a maráthron, «funcho».

[Texto 22 894]

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Definição: «balalaica»

Porque se pode 


      Num romance que estou a rever, uma personagem toca balalaica, sempre umas musiquinhas lá da sua terriola russa. Ora, usa quase sempre palheta. Dado que nem todos os instrumentos de cordas se podem tocar com palheta, proponho ➜ balalaica MÚSICA instrumento musical de cordas dedilhadas, de origem russa, com braço trasteado e caixa de ressonância triangular, de três cordas, duas das quais em uníssono, tocado sobretudo com os dedos, usado sobretudo na música popular russa, tanto a solo como em acompanhamento de canto ou integrado em conjuntos instrumentais.

[Texto 22 893]

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Definição: «tartaruga-verde»

Omitido o traço mais distintivo


      «Se hace de noche en Long Beach, playa que bordea Georgetown, la capital de Isla de Ascensión. En la orilla, algo se mueve. Una masa oscura y enorme emerge del oleaje con una lentitud que parece de-liberada. Es una hembra de tortuga verde (Chelonia mydas), que puede llegar a medir 1,3 metros y pesar más de 150 kilos, y que acaba de cruzar 2.300 kilómetros de océano abierto desde las costas de Brasil. Ha tardado seis semanas. En el camino no ha comido nada. Está volviendo a la playa en la que nació» («La odisea para sobrevivir de la tortuga que desova a 2.000 kilómetros de casa», Patricia Fernández de Lis, El País, 26.04.2026, p. 42). 

      O pior das definições de «tartaruga-verde» dos nossos dicionários é a omissão desta odisseia de que fala o artigo. A maioria das definições fica-se pelo aspecto e pela taxonomia, quando o traço verdadeiramente distintivo desta espécie é comportamental: essa migração extraordinária e o regresso ao local de desova. Assim, proponho ➜ tartaruga-verde ZOOLOGIA (Chelonia mydas) espécie de tartaruga marinha de grande porte, da família dos Quelonídeos, com distribuição pantropical, caracterizada por realizar longas migrações oceânicas e por regressar às praias onde nasceu para desovar; apresenta carapaça oval de coloração variável (geralmente castanho-olivácea) e corpo esverdeado, podendo atingir cerca de 1,5 m de comprimento e pesar até cerca de 190 kg; na fase adulta, alimenta-se sobretudo de algas e ervas marinhas, sendo predominantemente herbívora.

[Texto 22 892]

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Léxico: «sacramentalidade»

Outro perdido nas mudanças


      «Que se não conformem com a análise espectral os discípulos de Pangloss: os que trazem às costas a opinião dos outros como uma mochila do regimento; os fetichistas do ídolo absoluto; os filhos desmiolados de papá, desatentos de tudo o que não seja o volante e a bola do seu clube; todos os lentaços e letrados, escaravelhos das ideias que andam pelo chão, e ainda aqueles que transformam os seus preitos em sacramentalidade — não se conformem e fujam de ler este livro que pode provocar-lhes a erisipela» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 8-9).

[Texto 22 891]

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Léxico: «gaélico | goidélico»

Acabamos assim


      Por acaso vi, sim, mais um filme: A Menina Silenciosa (The Quiet Girl, de Colm Bairéad, 2023). A fotografia é simplesmente impressionante. E a história não lhe fica atrás. Desta vez, não posso dizer que aqui ou ali está mal traduzido, porque é falado em gaélico, de que não percebo nada — eu e, curiosamente, mais de metade dos Irlandeses. Segundo o último censo, de 2022, apenas 40 % sabem falar (em graus muito variados, muitas vezes escolares) e, na prática, somente cerca de 1 % a 2 % usam a língua diariamente. Assim, fico menos triste. Mais triste só por aparecer nas legendas (de Patrícia Pimentel, assim como a tradução) «contatar». Década e meia depois de o AO90 se ter tornado parte do nosso dia-a-dia, como é que uma pessoa cuja ferramenta de trabalho é a língua dá estes erros? Dá para imaginar como será com a população em geral. Voltando ao gaélico, também era bom que aparecesse nos nossos dicionários definido como deve ser, talvez assim ➜ gaélico LINGUÍSTICA designação genérica das línguas célticas da Irlanda, da Escócia e da ilha de Man (irlandês, gaélico escocês e manês), pertencentes ao ramo céltico das línguas indo-europeias; em uso restrito, pode referir especificamente o gaélico escocês ou, por extensão corrente, o irlandês.  

      O que obrigaria a dicionarizar também ➜ goidélico LINGUÍSTICA relativo ou pertencente ao grupo das línguas célticas que inclui o irlandês, o gaélico escocês e o manês.

[Texto 22 890]

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Léxico: «flebotomista»

No Brasil, claro


      «O resultado é intrigante: encanadores, lavadores de pratos e flebotomistas — enfermeiros especializados em tirar sangue — aparecem quase intocados. Apenas 6% do que fazem os flebotomistas, por exemplo, poderia ser substituído por IA (basicamente um robô para agendar a picada). Já escritores e autores surgem como uma das profissões mais ameaçadas: 85% de suas funções seriam substituíveis pelos chats ditos inteligentes» («A inteligência artificial e o paradoxo de Euclides», Ubiratan Muarrek, Público, 20.08.2025, 7h00).

[Texto 22 889]

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Léxico: «ponte dos asnos»

Muitos não passam


      «Mas não vale a pena perdermo-nos em conjecturas, levados por aí fora a esbagoar raciocínios como os discípulos de Aristóteles na ponte dos asnos» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 147). 

      Há muitas pontes nos dicionários, não esta ➜ ponte dos asnos GEOMETRIA 1. nome tradicional do quinto teorema do Livro I dos Elementos de Euclides, segundo o qual, num triângulo isósceles, os ângulos da base são iguais. | 2. figurado dificuldade inicial de raciocínio lógico que constitui um obstáculo revelador da capacidade ou incapacidade de compreensão de um aluno ou interlocutor.

[Texto 22 888]

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Léxico: «taiconauta»

Vamos lá encarar isto


      «A corrida é sobretudo com a China, cujos planos de alunar taikonautas e instalar bases lunares coincidem com as ambições norte-americanas — a China quer pousar os seus astronautas em 2030» («Fim da espera. O voo de regresso dos humanos à Lua hoje para fazer história», Tiago Ramalho, Público, 1.04.2026, p. 2). Andamos a encontrá-lo há tantos anos, que é simplesmente estúpido fingirmos que não existe.

[Texto 22 887]

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Léxico: «casuísmo»

Completemos a dupla


      «Isto porque Pascal, nas célebres “Provinciais”, atacou com extraordinária verve o casuísmo, o laxismo e a hipocrisia dos jesuítas do seu tempo, pondo-se ao lado dos jansenistas, agostiniano austeros e devotos das ideias de graça e predestinação» («Deus escondido», Pedro Mexia, «Revista E»/Expresso, 14.07.2023, p. 66).

[Texto 22 886]

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Léxico: «trilateração»

Que não é o mesmo


      Ora aí está, vê-se bem que perceberam tudo: também nos falta ➜ trilateração GEOMETRIA, TELECOMUNICAÇÕES método de determinação da posição de um ponto com base no cálculo das suas distâncias a, pelo menos, três pontos de referência conhecidos; em telecomunicações e sistemas de localização (como GPS, redes móveis ou bluetooth), essas distâncias são geralmente inferidas a partir do tempo de propagação ou da intensidade dos sinais recebidos.

[Texto 22 885]

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Léxico: «triangulação»

Nem de propósito


      Hoje em dia, ouve-se com muita frequência o termo «triangulação», mas, logo por azar, numa acepção que os dicionários ainda não acolhem. Ainda ontem, no programa da Rádio Observador E o Resto É Ciência, José Manuel Fernandes dizia: «Mas antes disso, para quem não tem bem presente, o GPS basicamente o que faz é: nós temos um aparelho que está ligado a satélites e através da triangulação com os satélites, nos dá a nossa posição exacta.» Não é, em rigor, assim. O GPS recorre, de facto, a satélites, mas o que faz tecnicamente não é triangulação, e sim trilateração. Contudo, é este o entendimento mais difundido, o que se tem de acautelar na definição de ➜ triangulação TELECOMUNICAÇÕES determinação aproximada da posição de um dispositivo, emissor ou receptor, com base na combinação de medições efectuadas a partir de vários pontos de referência, como estações-base ou satélites (no uso corrente, designa genericamente métodos de localização por sinais, mesmo quando, em rigor técnico, assentam no cálculo de distâncias e não de ângulos).

[Texto 22 884]

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Léxico: «estação-base»

Um ano depois do apagão


      «“O envio de SMS foi iniciado às 17h15, com difusão efetiva apenas a partir das 20h00, quando parte significativa das estações-base já operava sem energia de rede; a taxa de entrega ficou abaixo dos 50%, tendo a rádio desempenhado um papel supletivo relevante”, pode ler-se no relatório» («Apagão: Relatório elaborado pelo PSD aponta falhas “graves na comunicação” e pede 72 horas de autonomia para infraestruturas críticas», Manuela Pires, Rádio Renascença, 26.04.2026, 6h00 ). 

      Dada a sua ausência dos dicionários, proponho ➜ estação-base TELECOMUNICAÇÕES instalação fixa de radiocomunicações, constituída por equipamentos emissores e receptores (nomeadamente antenas), que estabelece a ligação entre terminais móveis (como telemóveis) e a rede de telecomunicações, assegurando a cobertura de uma determinada área geográfica («célula») e o encaminhamento de chamadas ou dados.

[Texto 22 883]

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Léxico: «papel manila»

O costume


      A tradutora achou que seria «manilha», o que me leva a propor, antes que vejam a luz mais disparates (e porque até o tens em bilingues, Porto Editora), proponho ➜ papel manila tipo de papel espesso, resistente e geralmente de cor amarelada ou acastanhada, usado sobretudo no fabrico de envelopes e pastas de arquivo; deve o nome à antiga utilização de fibras provenientes de Manila, nas Filipinas, embora hoje seja produzido com outras matérias-primas.

[Texto 22 882]

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Léxico: «esqueletizado»

A beleza do mecanismo


      Só tenho um relógio esqueletizado, um Hruodland Pilot, um excelente relógio mecânico chinês com uma reserva de marcha de 72 horas. O que vejo é que esta acepção tão específica do termo não está nos nossos dicionários, pelo que proponho ➜ esqueletizado RELOJOARIA diz-se de relógio, ou do respectivo movimento, cujas placas e pontes foram recortadas ou vazadas, de modo a tornar visíveis os componentes internos (rodas, molas, balanço, etc.), através do mostrador, do fundo ou de ambos, sem comprometer o funcionamento.

[Texto 22 881]

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Como se traduz por aí

Falsos amigos para falsos tradutores


      «He picked up his service pistol, a 9 mm Walther P38, from the dressing table, checked the action, and slotted it into his holster.» Para o tradutor, é «verificou a acção», sem dedicar meio segundo a pensar se isso fazia sentido.

[Texto 22 880]

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Definição e etimologia: «Eleutérias»

Ainda bem que isto apareceu


      «“Eleutéria”, que em grego – eleuthería – significa “liberdade” estará exposta no cruzamento da Avenida da Liberdade com a Rua Barata Salgueiro. A peça foi desenvolvida em parceria com o designer Nuno Lacerda e representa, de forma simbólica, a instabilidade de regimes autoritários» («“Eleutéria”: a cadeira que “nasceu para cair” marca o 25 de Abril em Lisboa», Teresa Almeida, Rádio Renascença, 25.04.2026, 10h20, itálico meu).

      É como a jornalista diz, o grego ἐλευθερία (transliterado eleuthería) é o substantivo que designa «liberdade», «condição de ser livre», tanto no plano político como pessoal. Deriva do adjectivo ἐλεύθερος (eleútheros), «livre». Não temos o nome comum, mas a Porto Editora regista Eleutérias, as «festas em honra de Júpiter libertador, para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano», mas não é bem, bem assim, porque não se restringiam ao contexto romano; porque não eram sempre para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano, eram antes celebrações da liberdade, frequentemente associadas a vitórias, sim, mas não redutíveis a essa fórmula; porque a referência a Júpiter libertador é enganadora. Assim, proponho ➜ Eleutérias festividades da Grécia antiga, especialmente as de Plateias, celebradas em honra de Zeus Eleutérios («Libertador») para assinalar a vitória sobre os Persas (479 a. C.) e a consequente libertação, com carácter comemorativo e agonístico. 

      Quanto à etimologia completa, passa por explicar que vem do grego Ἐλευθέρια (Eleuthéria), plural substantivado de ἐλευθερία (eleuthería) «liberdade», termo que designa, por extensão, festividades associadas à libertação; passou ao latim como Eleutheria, -orum, nome de festas comemorativas, donde o português erudito «Eleutérias». 

[Texto 22 879]

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Sobre «palestino»

Princípio de Muphry, é isso 


      «Causou polémica a afirmação da comentadora da SIC, Maria João Tomás, de que Jesus era “palestino”. Na língua portuguesa, dizer que um palestiniano é “palestino” equivale a designar um francês como ‘franço’, ou um português como ‘portuga’. Mas não se pode exigir que uma professora universitária domine a própria língua. Sobretudo quando domina algo muito mais importante: a solução dos problemas mundiais» («Jesus até foi islâmico – e votaria em Seguro», João Cerqueira [escritor], Nascer do Sol, 30.01.2026, p. 41). 

      Eu não sei como não cai o céu quando se fazem afirmações tão estúpidas. Só ali as vírgulas a isolarem o nome da comentadora da SIC já dizem muito sobre o domínio da língua. Vamos lá ver: não se tem de ter sempre um cuidado acrescido quando estamos a fazer uma crítica? Então e não havia a porra de um dicionário, de um vocabulário, de uma enciclopédia, a internet? Veja se não encontra «palestino»/«Palestinos» imediatamente a seguir a «palestiniano»/«Palestinianos» na página 746 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. Em todos os dicionários, aliás. Também não deixa de me espantar que nos jornais se publiquem textos deste jaez. Há-de dizer-se que decorre da mera liberdade, mas no caso parece mais que é dar corda para alguém se enforcar. Em última instância, no entanto, quem se lixa sempre são os leitores, que pagaram e têm de ler estes disparates e que, em alguns casos, por falta de preparação, por falta de discernimento, os vão repetir. 

[Texto 22 878]

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Léxico: «barquinha»

Não só as dos aeróstatos


      Na semana passada, uma empresa de arboricultura em meio urbano, escalada e poda selectiva de árvores ornamentais, árvores de grande porte e árvores monumentais, a Árvores & Pessoas, andou aqui na avenida a tratar de todas as árvores. Entre os diversos equipamentos, usavam aquelas plataformas chamadas ➜ barquinha designação corrente de dispositivo elevatório instalado sobre viatura, constituído por braço articulado ou telescópico que sustenta uma pequena plataforma ou cesta destinada a elevar pessoas para trabalhos em altura (manutenção eléctrica, poda, telecomunicações, etc.), podendo atingir vários metros de elevação; no uso técnico, a designação refere-se mais estritamente à própria cesta.

[Texto 22 877]

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Definição: «optoelectrónica»

Weniger Licht!


      Viram bem: a a optoelectrónica não é só a «disciplina que estuda e desenvolve tecnologia eletrónica capaz de interagir com luz». Demasiado vaga. E mal orientada: «interagir com luz» diz muito pouco e pode abranger praticamente tudo, do sensor mais rudimentar a um simples interruptor fotoeléctrico. Não pode ser. Falta-lhe o núcleo conceptual da área. Assim, proponho ➜ optoelectrónica TECNOLOGIA ramo da ciência e da engenharia que estuda e desenvolve dispositivos e sistemas que convertem radiação luminosa em sinais eléctricos, e vice-versa, incluindo a sua detecção, emissão e modulação, com aplicações em comunicação, medição, imagem e controlo. 

      O caso obriga-nos a dizer o contrário de Goethe: não mais luz, mas menos luz. Que foram, bem sei que sabem, as derradeiras palavras de Goethe; mas esperemos que não venham a ser as nossas últimas: ainda fazemos falta a muita gente. Muita não; alguma.

[Texto 22 876]

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Léxico: «convoo | optrónica | optrónico»

Aprendamos


      «A Marinha receberá nesta sexta-feira (24) a primeira fragata construída no Brasil desde 1980. A entrada em operação da F200 Tamandaré é a culminação de mais um capítulo do atribulado processo de compras militares no país, e coincide com uma nova perspectiva para a Força» («Marinha recebe 1.ª fragata em 46 anos e ganha impulso com guerra no Irã», Igor Gielow, Folha de S. Paulo, 24.04.2026, p. A12). 

      Uma imagem com legendas desta nova fragata indica o nome de algumas partes e equipamentos, e entre eles ➜ convoo Brasil MARINHA convés de um navio destinado à operação de aeronaves, servindo de pista para aterragem e descolagem e de área de estacionamento, nomeadamente de helicópteros. 

      E também aparecem indicadas umas alças optrónicas, daí eu propor ➜ optrónico TECNOLOGIA relativo a sistemas que integram óptica e electrónica para captação, tratamento e análise de radiação luminosa, nomeadamente em dispositivos de observação, medição ou aquisição de alvos; optoelectrónico.

[Texto 22 875]

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Definição: «geofagia»

Macacos me mordam!


      «Los famosos monos del Peñón de Gibraltar [macaco-de-gibraltar] han desarrollado un comportamiento sorprendente a la par que astuto para sobrevivir a su dieta: ingerir tierra de forma intencionada para aliviar los efectos digestivos de la comida basura que consumen debido al contacto diario con turistas. Así lo revela un estudio liderado por la Universidad de Cambridge, que documenta por primera vez la práctica habitual de la “geofagia” en esta población, la única de monos en libertad en Europa» («Monos de Gibraltar comen tierra para digerir la comida basura», La Razón, 24.04.2026, p. 58).

      Não sei para que são as aspas na palavra. Enfim, lá como cá, é assim que entendem as coisas. Mas a geofagia também não é só o que os dicionários dizem, o hábito patológico de comer terra ou argila. Longe disso, pelo que proponho ➜ geofagia MEDICINA, ZOOLOGIA hábito de ingerir terra, argila ou outros materiais do solo, observado em humanos e noutras espécies animais; no ser humano, pode associar-se a perturbações alimentares, carências nutricionais ou práticas culturais. 

      Sim, não faltam casos, de África até aos Estados Unidos da América, de geofagia ligada a práticas culturais, sem nenhuma conotação patológica. E não faltam estudos.

[Texto 22 874]


⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Para quem quiser, seja ou não lexicógrafo, aprofundar o conhecimento destes casos, deixo quatro hiperligações: a primeira para o documentário Eat White Dirt (2015), sobre o consumo de caulino no Sudeste dos Estados Unidos; a segunda para o estudo «Geophagy: An Anthropological Perspective», que enquadra o fenómeno em termos culturais e adaptativos; a terceira para o projecto de investigação «Kaolin-Linked Appetites and Edibles (KLAE)», dedicado à geofagia no Sul dos EUA; a quarta para o ensaio Eating Clay at the Bend of the Road, sobre a persistência desta prática na cultura afro-americana.


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Definição: «clavecino»

Oh, la vache!


      «Avec une estimation de 1000 à 2000 clavecins historiques encore jouables éparpillés dans le monde, qu’on ne déplace presque plus en raison de leur fragilité, les instrumentistes n’ont pas assez d’une vie pour en faire le tour. Mais, lors de leurs recherches, ils ne sont pas à l’abri de redécouvertes miraculeuses» («Ces chasseurs de clavecins qui parcourent le monde à la recherche de l’oiseau rare», Thierry Hillériteau, Le Figaro, 24.04.2026, p. 26). 

      O dicionário da Porto Editora afirma que é o «instrumento semelhante ao cravo». Não é. O Houaiss é que resolve tudo de forma certa e económica: «MÚS m.q. cravo». Acho que estamos habilitados a fazer até melhor, o que intento propondo ➜ clavecino MÚSICA instrumento de teclado de cordas beliscadas; o mesmo que cravo; forma erudita, adaptação do francês clavecin.

[Texto 22 873]

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Léxico: «dia aberto»

Uma ida à Casa Sonotone ajudava


      Ontem vi o filme Brincar com o Fogo (Jouer Avec Le Feu, de Muriel Coulin e Delphine Coulin, 2024) e achei curioso que o tradutor (que não sabemos quem foi) optasse por «portas abertas» em vez do agora preponderante «dia aberto». Eis o que a personagem, que é a real detentora do cargo, Béatrice Pérez, disse: «Chères étudiantes, chers étudiants, chers parents, en tant que doyenne de la Faculté des Lettres, je suis honorée et fière de vous souhaiter la bienvenue aux portes ouvertes de la Sorbonne.» Tanto mais que nas legendas saiu desta forma pouco natural, até mesmo agramatical: «Caras alunas, caros alunos, caros pais, enquanto diretora da Faculdade de Letras, tenho a honra e o orgulho de vos dar as boas-vindas ao Portas Abertas da Sorbonne.» Na verdade, há uma via intermédia, e porventura a mais conforme à nossa língua, que passa por, aparentemente, se inspirar no inglês open day e no francês portes ouvertes, que é «dia de portas abertas». Seja como for, já bem enraizado nos nossos hábitos linguísticos está ➜ dia aberto evento em que uma instituição, sobretudo escola, universidade ou empresa, abre as suas instalações ao público para dar a conhecer o seu funcionamento, actividades e serviços.

[Texto 22 871]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Mas sabemos o nome da legendadora, que deixou passar uma coisa sem pés nem cabeça. À chegada a casa, depois de terem ido ao dia aberto na Faculdade de Letras da Sorbona, pai e filho mais novo, Louis, deparam-se com a surpresa de Fus ter preparado a refeição. Há ali uma troca rápida de falas breves, interjeições — «Oh, la vache!», «Ah ouais!», «Ah!», «Tu t’es chauffé», «J’ai mes petits secrets!», «Fus le cuistot!», «Dis donc...» —, com esta última, uma observação do pai, a aparecer assim nas legendas: «Elá...» Aqui, a culpa também é, obviamente, da legendadora, Patrícia Pimentel. No contexto, é qualquer coisa como «com que então...», ainda a expressar a surpresa de o filho, que já andava desencaminhado, ter preparado a refeição. (Fez-me lembrar a bojarda no anúncio dos Gato Fedorento para a Portugal Telecom (ainda alguns dos meus leitores não teriam nascido), em que aparecia «épa». Mas pronto, eles é que são bons.) Como é que a tradutora, com mais meios, não conseguiu ver isto?


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Léxico: «shekel»

É aproveitar


      «O shekel israelita tem sido uma das moedas com melhor desempenho desde o início da guerra, tendo já valorizado 5% face ao próprio dólar. A 17 de abril chegou mesmo a máximos de 31 anos, ao ficar abaixo da fasquia dos 3 shekels por dólar» («Moeda israelita é das que mais “fatura” com a guerra», C. P., Negócios, 23.04.2026, p. 11). 

      Oportunidade para definirmos melhor ➜ shekel ECONOMIA unidade monetária do Estado de Israel (novo shekel, desde 1985; símbolo ₪), subdividida em 100 agorot; designação moderna que retoma a antiga unidade de peso semítica conhecida em português por «siclo».

[Texto 22 870]

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Léxico: «turpitude | torpitude | túrpido»

Que são duas, com o mesmo étimo


      «Mas depois deste livro: Memórias do Cárcere, está absolvido de todas as turpitudes que praticou» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 61). Tudo do latim, claro — turpitude, torpitude, túrpido.

[Texto 22 869]

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Léxico: «internamento | internamento social»

Agora é todos os dias


      Agora, volta e meia, lê-se, ouve-se, usa-se ➜ internamento social SAÚDE, POLÍTICA permanência de um doente em unidade de saúde após alta clínica, motivada por insuficiência de respostas sociais adequadas à sua condição, como a inexistência de apoio familiar, de vaga em cuidados continuados ou de acolhimento em estrutura residencial.

      Ocasião para dizer também que a 5.ª acepção de «internamento» do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não tem pés nem cabeça está a precisar de cuidados intensivos: «DIREITO decisão judicial que determina a entrada e permanência em hospital psiquiátrico ou instituição adequada de indivíduo portador de anomalia psíquica grave que, por força dessa anomalia, seja considerado perigoso». Mas que raio... «internamento» não é, nem pode ser, uma decisão: é o acto, efeito ou situação que resulta de uma decisão (judicial, médica, administrativa). A definição confunde o plano jurídico (o acto decisório) com o plano factual (a execução ou estado de internamento). Assim, proponho ➜ internamento DIREITO medida determinada por decisão judicial que impõe a entrada e permanência de indivíduo em hospital psiquiátrico ou instituição adequada, em razão de anomalia psíquica grave e da perigosidade que dela decorre.

[Texto 22 868]

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Léxico: «clazomania | clafomania»

E respectivos adjectivos


      Este tinha tudo, o desgraçado: «Sufría tics vocales incontrolados, coprolalia aumentada (tendencia a decir palabrotas e insultos, uno de los síntomas que causan más estigma), klazomanía (emisión de gritos involuntarios) y clafomanía (destruir objetos)» («Un marcapasos cerebral para liberar a Josep de sus insultos descontrolados», Esther Armora, ABC, 22.04.2026, p. 58).   

      O pior é que os dicionários não acompanham esta necessidade de sabermos, pelo que proponho ➜ clazomania PSIQUIATRIA perturbação caracterizada pela emissão involuntária e compulsiva de gritos, frequentemente de forma repetitiva e descontextualizada, podendo surgir associada a síndromes neurológicas como a síndrome de Tourette ou a outros quadros de descontrolo dos impulsos vocais. (Vem do grego klázō, «gritar», + -mania, «impulso obsessivo».)

      E, claro, ➜ clafomania PSIQUIATRIA perturbação caracterizada por impulsos patológicos, repetitivos e dificilmente controláveis de destruir objectos, sem finalidade prática, podendo surgir associada a síndromes neurológicas ou a outros quadros de descontrolo dos impulsos. (Vem do grego klásis, «quebra, fractura», + -mania, «impulso obsessivo».)

[Texto 22 867]

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Léxico: «gigantografia | gigantográfico»

Mais um parzinho à maneira


      «Conduzimos em direcção ao passo de Ak Baital e depois a Murghab. A pequena cidade não tem atractivos, mas é importante por albergar o único hospital da região. Com apenas um piso, o edifício parece muito modesto, mas também aqui (como em toda a parte) se exibem gigantografias do presidente. Mais uma prova de que falar de culto da personalidade não é exagero jornalístico» («O senhor do Pamir», Paolo Moiola, Além-Mar, Maio de 2026, p. 34). 

      Pois, não a tens, o que resolvemos já propondo ➜ gigantografia ARTES GRÁFICAS técnica de reprodução e ampliação de imagens, sobretudo fotográficas, para grande formato, destinada a suportes como cartazes, painéis ou outdoors; 2. imagem de grande formato obtida por esse processo, geralmente utilizada para fins publicitários, informativos ou decorativos em espaços públicos; 3. descrição ou representação de gigantes.

[Texto 22 866]

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Extras! Extras! Extras!

Eles sabem


      «Pós-operatório de transplante capilar inclui despesas extras de R$ 4.000» (Ivan Finotti, Folha de S. Paulo, 22.04.2026, p. B13).

[Texto 22 865]

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Definição: «homeopatia»

Falta pouco


      «Por si alguien todavía tenía dudas, la homeopatía no sirve para el tratamiento de ninguna enfermedad y sus efectos son comparables al placebo. Así lo refleja un exhaustivo informe técnico titulado “Homeopatía y productos homeopáticos: Evaluación de las evidencias acerca de su eficacia y seguridad”, publicado por la Agencia Española de Medicamentos y Productos Sanitarios (Aemps), en el que se concluye de forma categórica que no existe evidencia cientifica que avale la eficacia de la homeopatía como instrumento terapéutico, tras una revisión sistemática de la literatura científica y de las evaluaciones de organismos estatales a nivel internacional» («El Ministerio de Sanidad concluye que la homeopatía no es eficaz para tratar ninguna enfermedad», C. Garrido, ABC, 22.04.2026, p. 57). 

       Em Espanha já chegaram a esta conclusão óbvia, e certamente cá não vai demorar. Não acredito, por isso, que haja um lóbi que trabalhe para impedir que nos dicionários se diga ➜ homeopatia MEDICINA sistema terapêutico criado por Samuel Hahnemann (1755-1843), baseado no princípio de que substâncias capazes de provocar certos sintomas num indivíduo saudável podem, em doses extremamente diluídas e após sucessivas diluições e agitações, tratar sintomas semelhantes num doente; as diluições empregadas são frequentemente tão elevadas que tornam improvável ou inexistente a presença de moléculas da substância original, assentando o método em pressupostos sem fundamento científico e não havendo prova fiável da sua eficácia terapêutica.

[Texto 22 864]

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Léxico: «varadouro»

Amazónia, Mato Grosso


      «Tudo começa com o desmatamento ilegal de uma área no interior da floresta, perto de um rio, para retirada de madeira, garimpo ou pecuária. Em seguida, são abertas trilhas (ou varadouros, como são chamados esses caminhos na Amazônia) para o tráfego de pessoas e produtos» («Estradas fantasmas turbinadas por políticos locais ameaçam a Amazônia, afirmam estudos», Flávio Ferreira, Henrique Santana e Jullia Gouveia, Folha de S. Paulo, 21.04.2026, p. A10).

      Não será apenas por esta que os dicionários brasileiros acolhem sete acepções de «varadouro» e os portugueses apenas duas.

[Texto 22 863]

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Definição: «meritocracia»

Estão a ver a coisa mal


      «Se há um viés cognitivo de ampla penetração, é a falácia do mundo justo —a ideia de que, no final, as pessoas receberão o que merecem. Somos condicionados desde criancinhas a crer nessa lorota. Ela está presente nas histórias infantis (vilões são sempre punidos), nas religiões (papai do céu recompensa os bons e castiga os maus) e até em justificações ideológicas (discurso da meritocracia). Aparece também em eleições» («Injustiça eleitoral», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 17.04.2026, p. A3).

      Quando descemos (ou subimos, depende da perspectiva) a estes conceitos, as definições deixam muito a desejar. No caso, tanto o Houaiss (com a misturada na primeira acepção) como a Porto Editora, que põe toda a ênfase, e eu nem sei porquê, na liderança (salvo como simplificação didáctica), não vão ao cerne da questão, que tem que ver com a distribuição de posições. Assim, proponho ➜ meritocracia SOCIOLOGIA sistema de organização social ou princípio de distribuição segundo o qual posições, recompensas ou estatuto são atribuídos em função do mérito individual (aptidão, esforço, desempenho), e não da origem social, riqueza ou privilégios herdados; por extensão, conjunto de mecanismos de selecção e promoção baseados nesse critério.

[Texto 22 862]

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Léxico: «subdominante»

Mais música


      O músico Daniel Pereira Cristo, que acaba de lançar o seu terceiro disco, Malva Globo, foi recebido por Pedro Miguel Ribeiro no Mesa para Dois, da Antena 1. E que disse ele que nos interesse para aqui? Muita coisa, mas sobretudo isto: «Ora, dos Beatles até à Laurindinha e passando por uma série, uns milhares largos de música, da nossa música ocidental, é por aí, não é? Tónica dominante, às vezes vai à subdominante, mas pronto, tónica dominante, se a gente pensar em “We all live in a yellow submarine”.» Ora, Porto Editora, não registas ➜ subdominante MÚSICA quarto grau da escala diatónica, situado a uma quarta justa acima da tónica, com função harmónica intermédia entre a tónica e a dominante.

[Texto 22 861]

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Léxico: «rato-do-canavial | trionomídeo»

Marcha tudo


      «Nós, Combonianos, vivemos a missão na sua dupla dimensão de anúncio do Evangelho e promoção humana. Por isso, iniciámos na prisão [Ankaful Maximum Security Prison, Cape Coast, Gana] um projecto de criação de coelhos e de um roedor de grande porte e carne muito saborosa, o rato-do-canavial, a que aqui chamam grasscutter» («Olha para mim», Pepe Girau, Além-Mar, Maio de 2026, p. 45). 

      Ora, já os nossos militares da Guerra Colonial conheciam o ➜ rato-do-canavial ZOOLOGIA (Thryonomys swinderianus) roedor africano de grande porte, da família dos Trionomídeos, distribuído pela África Subsariana, associado a zonas de vegetação densa e a culturas agrícolas, sobretudo canaviais; de corpo robusto, pelagem acastanhada e de hábitos nocturnos, alimenta-se de gramíneas e outras plantas, sendo também apreciado como fonte de alimento em várias regiões africanas. 

      Lá se também os comiam, isso já não sei. Podia perguntar ao meu primo, primo em 2.º grau, Anselmo, o único da família, apesar de franzino, débil, baixote, que foi à guerra. Por sorte, veio inteiro e com a cabeça a funcionar mais ou menos. Ou seja, como anteriormente: mais ou menos.

[Texto 22 860]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 



P. S.: Ainda estou abismado e um pouco tonto (mas isto deve ser do Sprizz que acabei de beber, muitas horas depois de ter tomado o pequeno-almoço) por ver a riqueza do verbete «primo» nos dicionários brasileiros e a pobreza nos nossos. Vae mihi!



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Definição: «electrocromismo | electrocrómico»

Não é tanto a cor, não


      Ontem vi o filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders. O protagonista, Hirayama, sai todos os dias de casa com um sorriso nos lábios, e isto quando é mero empregado de limpeza de casas de banho públicas em Tóquio. Até parece leitor do nosso José Tolentino Mendonça: «Chegará o momento em que compreenderemos que sabedoria é amar tudo. É saudar os dias sem esquecer a importância das horas» (in Para os Caminhantes Tudo É Caminho, Lisboa: Paulinas, 2026). Ora, algumas daquelas casas de banho são totalmente de vidro. Fazem parte de um projecto em Tóquio, mais concretamente em Shibuya, promovido pela Nippon Foundation, para tornar os sanitários públicos mais transparentes, literalmente, quanto à limpeza e segurança. Ao entrar, o utilizador gira o fecho interior e os vidros tornam-se opacos no mesmo instante. A este vidro inteligente dá-se o nome de electrocrómico, ou PDLC (de polymer dispersed liquid crystal). Como funciona isto, quase magia? O vidro tem uma camada interna com cristais líquidos dispersos. Quando não há corrente eléctrica, esses cristais estão desorganizados → a luz espalha-se → o vidro parece opaco (leitoso). Quando se aplica corrente, os cristais alinham-se → a luz passa directamente → o vidro fica transparente. 

      Agora a definição de «electrocrómico» no dicionário da Porto Editora: «que sofre mudança reversível de cor em resposta a estímulo eléctrico». Pois, não é verdade. Em causa estão alterações das propriedades ópticas — cor, transparência, opacidade, absorção de luz — em resposta a um estímulo eléctrico. Há logo aqui um problema, prévio, que se repete em inúmeros verbetes: se o núcleo conceptual está em «electrocromismo», que é o fenómeno, para que estamos a carregar a definição do adjectivo relacional correspondente? Não faz sentido. Assim, proponho ➜ electrocromismo FÍSICA, QUÍMICA fenómeno pelo qual certos materiais apresentam variação reversível das propriedades ópticas sob acção de um estímulo eléctrico, geralmente por efeito de processos electroquímicos internos | ➜ electrocrómico FÍSICA, QUÍMICA relativo a electrocromismo; que manifesta electrocromismo.

[Texto 22 859]

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Definição: «síndrome de Tourette»

Nem oito nem oitenta


      «Los tics se agravaron y a los 14 años le diagnosticaron síndrome de Tourette, trastorno neurológico crónico caracterizado por tics motores y vocales involuntarios, rápidos y repetitivos, que se inician antes de los 18 años» («Un marcapasos cerebral para liberar a Josep de sus insultos descontrolados», Esther Armora, ABC, 22.04.2026, p. 58).   

      Este sofria de coprolalia. Como eu argumentei, se apenas 10 % dos que sofrem desta síndrome têm coprolalia, não pode ficar na definição, como fazia a Porto Editora. Porque isso, afinal, não sendo definidor, é o mais estigmatizante. A Porto Editora acedeu, concordou, mas reduziu-a demasiado. É esse mesmo, aliás, o problema de muitas definições dicionarísticas, que, ao quererem ser demasiado genéricas, acabam por perder precisamente estes traços distintivos que a jornalista não omitiu. Assim, proponho ➜ síndrome de Tourette MEDICINA perturbação neurológica crónica caracterizada pela presença de tiques motores múltiplos e de pelo menos um tique vocal, involuntários, rápidos e repetitivos, com início na infância ou adolescência (antes dos 18 anos), podendo variar em intensidade e associar-se a outros distúrbios comportamentais ou neuropsiquiátricos.

[Texto 22 858]

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Oh diabo!

Assim começamos


      «Mazouco é uma aldeia portuguesa, mas parece espanhola. O habitante liga para o 112 e atendem do país vizinho. O regulador diz que não há incumprimento das operadoras. Ó diabo...» («Sobe & Desce», Correio da Manhã, 21.04.2026, p. 3). 

      Falam muito, mas interjeccionam mal. Na verdade, e ao contrário do que se lê num dicionário de certa academia, é de uma locução que se trata — oh diabo —, ocorre mesmo esta fusão para a expressão de um significado único, usada perante um acto de certa gravidade, exprimindo espanto, censura, recordação súbita de um acto a realizar, etc. Logo, sem vírgula. A Porto Editora não se quis comprometer e nada diz sobre isto. «— Oh diabo! Ao futebol não costumo ir, não. Mas, se fazes muito empenho em ir, arranjo-te um bilhete, se me prometeres ir lá co’uma rapariga séria, claro» (Futebol, Hugo Rocha. Lello & Irmão Editores, 1957, pp. 245-46).

[Texto 22 857]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Poderão ser muito diferentes em tudo o resto, mas Andrea Neves, Eduarda Maio e José Carlos Trindade, da Antena 1, mostraram hoje de manhã ser exactamente iguais numa coisa: ignoram que nem todos os nomes de países são antecedidos de artigo, e entre estes está Chipre. Assim, Andrea Neves, Eduarda Maio e José Carlos Trindade, os chefes de Estado e de governo da União Europeia iniciam hoje em Chipre uma cimeira informal de dois dias, que dirigirá essencialmente a atenção para a guerra no Médio Oriente e incluirá um encontro com parceiros na região. Agora só para Eduarda Maio: não diga que a sua colega está a falar «a partir de Nicósia», mas «de Nicósia». Agora só para José Carlos Trindade: devia preferir, por vários motivos, «trovejar» a «trovoar».


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Léxico: «emagrecedor»

Despeço-me com amizade até ao próximo programa


      «Anvisa restringe importação de emagrecedores do Paraguai em meio a pressão política», Mateus Vargas, Folha de S. Paulo, 21.04.2026, p. A28).

[Texto 22 856]

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Sorbona, pois claro. Léxico: «igualizador»

Sejamos minoria


      Por vezes, o nome esconde a origem: estava escrito que um dia (que por acaso é hoje) saberiam que o nome Sorbonne (ou Sorbona, aportuguesado) para designar a célebre universidade de Paris era inicialmente o nome de um colégio (collegium) fundado em 1250 pelo teólogo Robert de Sorbon (1201-1274). Desde o século XIV este veio a ser a sede da faculdade de Teologia. Só no início do século XIX o nome se estendeu a toda a universidade. 

      Se puderem, se a mamã deixar, escrevam sempre Sorbona, só para contrariar a imparável vaga igualizadora: «Contra os ataques da Sorbona, Francisco I abriga os humanistas do Collége Royal, e a própria universidade é atingida pelo vírus: em 1533 o seu reitor Nicolau Cop, amigo de Calvino, pronuncia um discurso inaugural em que defende teses heterodoxas, com tal escândalo que teve de abandonar o cargo e refugiar-se em Basileia» (O Humanismo em Portugal, António José Saraiva. Lisboa: Edição do Jornal do Foro, 1954, p. 37).

[Texto 22 855]

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Definição: «metabolito»

Não satisfaz ninguém


      «Segundo Jack Brand, da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, “foi realmente o metabolito, que sabemos ocorrer em concentrações mais elevadas na natureza, que teve um efeito muito mais profundo no comportamento e na movimentação dos peixes”, alertando que a ausência destes compostos nas avaliações de risco pode levar a uma subestimação significativa do impacto ambiental» («Cocaína nos rios está a deixar salmões mais ativos (e com comportamentos estranhos)», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 21.04.2026, 16h05). 

      Não bastavam os mocados que por aí vemos, agora também os salmões andam na ganza. Bem, olhemos ali para metabolito, que a Porto Editora define assim: «BIOQUÍMICA qualquer substância resultante do processo de metabolismo». Para o leigo, é potencialmente enganadora, porque sugere apenas o produto final. Para o especialista, é insatisfatória, porque omite aspectos estruturais do conceito (intermediários, vias metabólicas, actividade biológica). Não fiquem tristes: a definição do Houaiss, apesar de o dar como «qualquer composto intermediário das reações enzimáticas do metabolismo», está longe de ser perfeita, já que pode levar a entender-se que exclui os produtos finais, quando, em uso científico, estes também são metabolitos. Apenas a conjugação das duas resolve o problema, o que fazemos propondo ➜ metabolito BIOQUÍMICA molécula resultante da transformação de uma substância no metabolismo, incluindo produtos finais e compostos intermédios das vias metabólicas; pode conservar, alterar ou perder a actividade biológica da substância de origem.

[Texto 22 854]

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Duala, Camarões

Parece mentira


      Então, c’um caraças, até no portal da Air France aparece Duala e os nossos jornalistas, apesar de advertidos mais de uma vez, insistem em escrever Douala?!

[Texto 22 853]

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Tradução: «guardien de la paix»

Espetanços contra o espectador


      No filme Os Novos Vizinhos (Les Gens d’à côté, André Téchiné, 2024), Lucie (Isabelle Huppert) resume assim a Yann (Nahuel Pérez Biscayart) o seu percurso inicial na polícia: «Comecei como guardien de la paix aos 24 anos. Depois estive 3 anos na polícia administrativa e depois trabalhei com sem-abrigo, nas estações da Gare du Nord e da Gare de L’Est.» Isto, claro, nas legendas, et le spectateur qui ne comprend pas le français, tant pis pour lui. Não é isso, não é SÓ por estar ali aquele pedacinho em francês: está mal traduzido. Mas o que é isso de «polícia administrativa»? Bem, terão de perguntar à tradutora, Cláudia Brito. Vamos ao que a personagem diz, vamos ao áudio: «J’ai commencé gardien de la paix à 24 ans. Plus tard, j’ai fait police-secours à Paris pendant trois ans, puis je me suis occupée des sans-abris dans les gares. Gare du Nord, gare de l’Est.» Transpondo — não é o que se deve fazer na tradução? —, tanto quanto possível, para a realidade portuguesa, seria mais ou menos assim: «Comecei como polícia aos 24 anos. Mais tarde, estive três anos na intervenção rápida em Paris e, depois, ocupei-me de sem-abrigo nas estações: Gare du Nord e Gare de l’Est.»

[Texto 22 852]

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Definição: «caça-gralhas»

Não me revejo


      Pois bem, «caça-gralhas» já está onde deve estar: no dicionário. Não sei é se deve ficar com a definição actual. É coloquial, isso de certeza, mas, como eu a vejo ser usada, pelas pessoas do meio, não é o revisor pleno, que mexe, altera, sugere (por vezes fazendo as vezes do editor, ora pois). Não: o caça-gralhas é isso, e dentro da sua limitada competência (já conheci telefonistas que, nos intervalos, tinham de fazer revisão), um caça-gralhas, alguém alfabetizado que apanha gralhas, no que até pode ser proficientíssimo. Quanto ao que as pessoas fora do meio entendem, pouco importa: bem sei que, para algumas, é tudo o mesmo. Em apoio do meu entendimento, cito a seguinte carta que Luiz Pacheco mandou, a acolitar umas provas, a Luís Amaro, poeta, jornalista, revisor, editor, crítico literário, fundador da revista Árvore e colaborador durante mais de cinquenta anos em iniciativas de âmbito literário: «Creio ter cumprido, para além da função caça-gralhas, e o melhor possível, a minha tarefa de revisor: esta terceira versão (mantendo os erros de estrutura que, a emendarem-se, obrigavam a um livro novo) está quase decente. B. B. é inteligente e tem talento: o que é, é precipitado, um tudo-nada alifante num jardim...» Estoutra citação vai no mesmo sentido: «Tarquínio tinha o culto do belo curvo e modelado apolíneo e, vindo de um publicismo nocturno e caça-gralhas, revisor embora não geral, incomodou-se com as brutalidades marujas da revolução» (A Manobra de Valsalva, Artur Portela. Lisboa: Quetzal Editores, 2002, p. 59).

[Texto 22 851]

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Pero se entiende, ¿no?

Tudo na mesma


      «“Pero se entiende, ¿no?”, suelen alegar los sorprendidos en pecado que creen que el contexto resuelve cualquier desaguisado. Ya Sancho le pedía a don Quijote que no le enmendase los vocablos si entendía lo que quería decir. Seguimos en las mismas» («Hablar con propiedad», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 18.04.2026, p. 12). Pascácios da Península Ibérica, uni-vos e dizei sempre isto, que o que interessa é que se perceba.

[Texto 22 850]

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Definição: «autismo»

Dá que pensar


      «Misdiagnosis may have affected half the cases of children with autism, experts claim. This is because signs of the developmental disorder, such as poor eye contact, do not always mean a child is autistic and could simply be caused by social anxiety» («Half of autism diagnoses in children may be wrong», Ciaran Foreman, Irish Daily Mail, 14.04.2026, p. 18). 

      O que significa que, com azar, podem rotular-nos de autistas quando a realidade é outra. Metade dos diagnosticados... Bem, façamos nós alguma coisa, não pelos médicos, que não consultam dicionários da língua para fazerem diagnósticos, mas pelo cidadão comum propondo uma nova definição de ➜ autismo MEDICINA perturbação do neurodesenvolvimento, de início no período do desenvolvimento, caracterizada por défices persistentes na comunicação e interacção social e por padrões restritos, repetitivos e inflexíveis de comportamento, interesses ou actividades; integra um espectro de manifestações clínicas de intensidade e expressão variáveis, podendo, sobretudo em idades precoces, ser confundido com outras perturbações do desenvolvimento ou da saúde mental.

[Texto 22 849]

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Léxico: «interindustrial»

Com citação extensa


      «Em cada um destes seminários esteve institucionalmente presente o responsável máximo de cada uma das escolas, e participaram investigadores daquele projeto, estudiosos das matérias em debate, assim como economistas que trabalharam diretamente com João Cravinho no GEBEI – Grupo de Estudos Básicos de Economia Industrial, por ele criado no âmbito da Secretaria de Estado da Indústria logo nos inícios dos anos de 1970, e que é justamente reconhecido como uma das mais relevantes instâncias de desenvolvimento entre nós de um pensamento económico inovador, assente no estudo minucioso do muito que era necessário conhecer para que se compreendesse como uma economia periférica e frágil como a portuguesa funcionava: da matriz de relações interindustriais (as matrizes input-output) aos multiplicadores, aos consumos energéticos, à pauta aduaneira (a proteção efetiva da produção nacional), à função consumo, aos stocks de capital, aos níveis tecnológicos, às contas de rendimento das regiões» («João Cravinho: uma obra imensa», José Reis [professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais], Público, 20.04.2026, 6h00).

[Texto 22 848]

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Léxico: «casaco-robe»

Gosto de ver


      «Calças direitas, saias rodadas, polos descontraídos, casacos-robe, vestidos retos, camisolas de gola alta — estas são algumas das peças favoritas da estação, em tricôs mais ou menos grossos, consoante a necessidade de calor extra» («No ponto», Gabriela Pinheiro, «Revista E»/Expresso, 30.01.2026, p. 77). 

      Ou seja, temos de o entesourar, assim ➜ casaco-robe casaco feminino de corte amplo e solto, inspirado no roupão (robe), geralmente sem estrutura rígida, com abertura frontal simples e, por vezes, cinto, caracterizado por linhas fluidas e uso como peça de sobreposição em contexto informal ou de meia-estação.

[Texto 22 847

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Léxico: «francofonização»

Também existe, sim


      «Desde 2016, o país é assolado por dois sangrentos conflitos armados. O primeiro é uma verdadeira guerra civil nas duas regiões ocidentais anglófonas, North West (Noroeste) e South West (Sudoeste), que começou com uma série de protestos pacíficos contra a crescente francofonização dos sistemas judicial e educativo» («Camarões: denunciar a corrupção, encorajar a esperança», Margarida Santos Lopes, Além-Mar, Maio de 2026, p. 23).

[Texto 22 846]

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Léxico: «pilão»

Ratas e pilões


      Estou aqui a ver uma edição especial de um relógio comemorativo do Instituto dos Pupilos do Exército, e leio na descrição que é possível gravar no mostrador o nome do pilão. A formulação é reveladora: o termo surge ali com plena naturalidade, como designação identitária de quem frequenta ou frequentou a instituição, sinal claro de que estamos perante um uso consolidado, e, contudo, ainda ausente dos dicionários, onde já encontramos, por sugestão minha, os ratas do Colégio Militar. Assim, proponho ➜ pilão gíria aluno ou antigo aluno do Instituto dos Pupilos do Exército (IPE), estabelecimento de ensino militar não superior.

[Texto 22 845]

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Léxico: «missa votiva»

Talvez evite outros disparates


      Como é que a Porto Editora não regista «missa votiva», como? São estas ausências que explicarão, em parte, que os jornalistas, como uma aqui, se espalhem escrevendo «missa vocativa». Assim, e antes que mais gente mande semelhantes bojardas, proponho ➜ missa votiva RELIGIÃO (catolicismo) missa celebrada, nos termos das normas litúrgicas, em honra de um mistério do Senhor, da Virgem Maria, dos Anjos, de um santo ou por uma intenção particular, não correspondendo ao ofício próprio do dia no calendário litúrgico.

[Texto 22 844]

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Léxico: «etnozoologia | etnozoológico»

Aos pares é mais depressa


      «As espécies vegetais medicinais utilizadas na medicina tradicional são inventariadas e avaliadas de acordo com padrões fármaco-epidemiológicos e atestadas quanto à segurança. Com a adopção da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (2007), o tratado da Unesco passa a contemplar os conhecimentos, saberes-fazeres, competências, práticas e representações desenvolvidas e perpetuadas pelas comunidades em interacção com o seu meio natural, incluindo os conhecimentos ecológicos tradicionais, os saberes autóctones, a etnobiologia, a etnobotânica, a etnozoologia, as farmacopeias e as medicinas tradicionais» («Dependentes de plantas», Carlos Reis, Além-Mar, Maio de 2026, pp. 41-42).

[Texto 22 843]

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Léxico: «clarone»

Dou-te música


      «“Ele me pediu uma peça para clarone, que, em Portugal, aliás, é clarinete baixo, que se chama Azulejaria. Eu quis trabalhar com a ideia dos azulejos portugueses, com toda a história e a importância cultural que eles têm. Em Curitiba, onde eu moro, o artista Poty Lazzarotto (1924-1998) fez vários painéis com azulejos. Então, fiz uma espécie de trajetória musical da viagem do azulejo de Portugal para o Brasil”, conta ele, que também é um pesquisador da música brasileira do período colonial. “Essa peça fará sua estreia mundial em Paredes”» («Harry Crowl faz recital no Porto inspirado na azulejaria portuguesa», Elizabete Antunes, Público, 18.04.2026, 10h07). 

      Pois, não o acolhes, Porto Editora, apenas o prometes, pelo que ➜ clarone MÚSICA Brasil instrumento de sopro da família das madeiras, correspondente ao clarinete baixo do português europeu, de tubo mais comprido do que o do clarinete soprano, geralmente com campânula recurvada e tudel metálico, de registo grave e timbre escuro, usado em orquestra, bandas e música de câmara.

[Texto 22 842]

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Como se escreve por aí

Desta linda maneira


      «Um estúdio e uma escola que também conta com um museu e uma loja. Fernando Daniel acaba de inaugurar Nagana, um megaprojeto em Ovar dedicado à música, à gravação e ao ensino. O projeto abrange uma área de 1000 metros quadrados e assume-se já como um dos maiores e mais relevantes espaços do género a norte do País. O investimento é exclusivo do cantor e ronda os 2 milhões de euros. “Investi aqui quase todo o dinheiro que ganhei em oito anos na minha carreira. Abdiquei de muita coisa em prole deste projeto, em termos pessoais e profissionais, mas sinto que precisava de um espaço como este porque é isto que acredito que vou fazer para o resto da minha vida”, diz ao CM» («“Investi o que ganhei em oito anos de carreira”», Miguel Azevedo, Correio da Manhã, 18.04.2026, p. 35). 

      Ah, que desgosto, Miguel Azevedo. Já percebemos que faltou a esta aula. E agora já é tarde. Ou não, não sei, depende do brio.

[Texto 22 841]

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Léxico: «biscoito champanhe»

Não gosto muito, mas ei-los


      «Se você pensa em biscoito champanhe e não pensa em tiramisú, você precisa saber que faz parte de uma minoria. Base de uma das sobremesas mais amadas do mundo, esse biscoito leve, aerado e delicadamente adocicado é curinga na confeitaria» («Confeiteiros renomados avaliam requinte crocante do biscoito champanhe», Fernanda Meneguetti, O Estado de S. Paulo, 19.04.2026, p. C7). 

      Estão outros biscoitos nos dicionários, pelo que proponho ➜ biscoito champanhe CULINÁRIA biscoito seco e leve, de forma alongada, preparado à base de ovos, açúcar e farinha, com interior areado e superfície seca e crocante, frequentemente polvilhado com açúcar; caracteriza-se pela estrutura porosa que lhe permite absorver líquidos sem se desfazer de imediato, sendo usado sobretudo em sobremesas como tiramisu, pavês e charlottes, ou servido acompanhado de café, chá ou bebidas alcoólicas.

[Texto 22 839]

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Léxico: «memrístor»

Esta é prometedora


      E ali está, no texto sobre a sinapse, um termo que promete muito para a evolução da inteligência artificial. Afinal, não temos «transístor» e «termístor», por exemplo? No teu caso, Porto Editora, também prometes, e espero que seja promessa de político, «termistor» e «transistor». Assim, proponho ➜ memrístor ELECTRÓNICA dispositivo electrónico passivo cuja resistência varia em função da corrente eléctrica que o atravessou anteriormente, conservando essa variação mesmo na ausência de alimentação; funciona assim como um elemento com memória incorporada, sendo por isso considerado análogo funcional das sinapses biológicas e estudado no âmbito da computação neuromórfica.

[Texto 22 838]

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Léxico: «diamante-mandarim»

Nas nossas gaiolas


      «Um pequeno pássaro nativo da Austrália – o diamante-mandarim – é famoso pela sua capacidade de aprender novas canções e é um dos favoritos dos cientistas para estudar a forma como os animais conseguem assimilar novas capacidades» («Regeneração cerebral em algumas aves pode inspirar reparações no cérebro humano», Rádio Renascença, 18.04.2026, 1h30). 

      Pois, é o Taeniopygia guttata, e como tem vários nomes e está nas gaiolas de algumas casas portuguesas, Porto Editora, já sabes o que tens de fazer. 

[Texto 22 837]

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Como se fala por aí

Ou é a prosa que é adormecente?


      «Quanto à difusão, Bacelar Gouveia enfrenta sentimentos contraditórios. Por um lado, está satisfeito, porque o livro (lançado em Fevereiro, com chancela da Almedina) “tem vendido bem”, mas por outro está convencido de que este tema “não interessa às pessoas”: “Nós não temos em Portugal uma questão linguística, reconheço, mas temos pequenas questões linguísticas: o acordo [ortográfico] é uma questão controversa; o modo de escrever; a linguagem inclusiva, que tem muito que se lhe diga; ou a parte da informática, que aqui não está tratada. O problema é que em Portugal há pouco diálogo científico e as elites universitárias, aqui tenho uma visão muito pessimista, são muito frágeis e estão muito adormecentes.” Há, segundo Bacelar Gouveia, razões para isso: “O processo de Bolonha veio burocratizar o trabalho universitário, os professores gastam metade do seu tempo a preencher relatórios e a fornecer estatísticas, e não têm tempo para ler, escrever e pensar”» («“O uso generalizado e até abusivo do inglês começa a ser inadmissível”», Nuno Pacheco, Público, 17.04.2026, p. 30). 

      As elites universitárias, seja lá isso o que for, «são frágeis e estão adormecentes»... O que me parece é que é muito má ideia usarmos palavras que não conhecemos bem.

[Texto 22 836]

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Definição: «sinapse»

Qual teoria...


      «The human brain takes a different approach. Every synapse – the junctions where neurons communicate – both stores and processes information locally, which means memory and processing are fused inside the same biological hardware. This is one reason the human brain can run roughly 10¹⁴ synaptic operations per second on about 20 W of power (less than a dim household light bulb), but an Al model running in a data centre will need at least hundreds to thousands of times more power for the same number of operations» («New brain-inspired ‘memristors’ promise to reduce AI energy use», Shamim Haque Mondal, The Hindu, 16.04.2026, p. II). 

      É um bom contributo para uma nova definição de «sinapse». Já a do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora padece de vários problemas, como a formulação ser datada («teoria neurónica»), o núcleo funcional da noção não estar bem captado e a divisão em duas acepções ser totalmente artificial. Apenas a referência à região de contacto e à transmissão apontam na direcção certa. Aprofundemos um pouco apenas dois aspectos. Primeiro, a teoria neurónica é uma formulação do fim do século XIX, hoje tão básico, que deixou de ser teoria no sentido activo, é conhecimento estabelecido. Segundo, para teres duas acepções, Porto Editora, separas neurónio-neurónio de neurónio-músculo. Mas a segunda não é um significado diferente: é apenas um caso particular da primeira. Trata-se sempre do mesmo tipo de entidade, uma junção funcional especializada entre um neurónio e outra célula excitável ou efectora. Logo, induz em erro, mas não é meramente dispensável: é errado. 

      Assim, proponho ➜ sinapse ANATOMIA região especializada de comunicação entre um neurónio e outra célula (geralmente outro neurónio, mas também uma célula muscular ou glandular), onde o impulso nervoso é transmitido por mecanismos electroquímicos, com libertação de neurotransmissores e modulação da intensidade do sinal; desempenha papel essencial na integração, no processamento e na plasticidade da actividade nervosa.

[Texto 22 835]

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Definição: «desporto»

É que nem pensar, Pepe


       De manhã, estavam dois badamecos comentadores na Cadena COPE a discutir acaloradamente o que é, como se define desporto. Um defendia uma posição, digamos, próxima da que expressa a definição da Porto Editora: «exercício físico praticado de forma metódica, individualmente ou em grupo, e com diversos objectivos (competição, recreação, terapia, etc.)». É que nem pensar. O que justificava até a irritação do outro, que subscreveria, tenho a certeza, esta minha proposta ➜ desporto actividade correspondente à prática de modalidades codificadas, geralmente de natureza física (podendo, em certos casos, ter componente predominantemente mental), realizada individual ou colectivamente, de forma informal ou em contexto competitivo, segundo regras estabelecidas, que exige treino, destreza e controlo técnico.

[Texto 22 834]

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Tradução: «lactante»

Vê-se de tudo


      «Dos agentes de la Guardia Civil fuera de servicio salvaron la vida a una niña de 16 meses que se encontraba en parada cardiorrespiratoria en el municipio de Alhama de Murcia. Los agentes practicaron primeros auxilios, aplicando la maniobra de Heimlich adaptada para lactantes. Gracias a ello, la niña comenzó a ventilar de forma autónoma antes de la llegada de la ambulancia. En la imagen, los guardias, con la menor» («Dos guardias civiles fuera de servicio salvan la vida a una niña», La Razón, 16.04.2026, p. 45). 

      Vamos pôr as coisas assim: muitos desses que julgam que estão habilitados a traduzir do castelhano apenas porque, antes do 25 de Abril, os avós iam comprar caramelos a Badajoz iam espalhar-se aqui. É que em castelhano lactante tanto designa o bebé, a criança que mama, como a mulher que amamenta. Em português, precisamos de duas palavras: lactante é a mulher que amamenta, e à criança que mama damos o nome de lactente. Por um daqueles acasos em que a minha vida (ou a de todos?) é pródiga, justamente na semana passada revi uma obra em que a autora usava o termo errado.

[Texto 22 833]

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Maiúsculas e minúsculas, a origem

Foi assim


      Já alguma vez pensaram porque são tão diferentes algumas letras nas maiúsculas e nas minúsculas — por exemplo, o a e o g — enquanto outras, como o c ou o s, quase não mudam? A resposta está na sua origem distinta. As maiúsculas vêm da tradição epigráfica romana, isto é, das inscrições gravadas em pedra, de traço geométrico e regular. As minúsculas, pelo contrário, nasceram de escritas cursivas, usadas no dia-a-dia com tinta, em que a rapidez levou à simplificação e transformação das formas. Foi entre os séculos VIII e IX, no contexto das reformas de Carlos Magno, que essas formas se estabilizaram na chamada minúscula carolíngia. Mais tarde, no Renascimento, os tipógrafos combinaram essas minúsculas com capitais inspiradas na epigrafia romana, fixando o alfabeto tal como hoje o usamos.

[Texto 22 832]

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Léxico: «antropizado»

Com exemplos


      «Podemos retomar o caminho. Diante de nós estende-se a estrada, em grande parte de terra batida, que atravessa o planalto do Pamir, na região autónoma (e politicamente turbulenta) do Gorno-Badakhshan. Com mais de 1200 quilómetros de extensão, é considerada a segunda estrada mais alta do mundo, a seguir à Karakoram Highway. O seu ponto mais elevado é o passo de Ak Baital, a 4655 metros acima do nível do mar. Percorrê-la de Osh a Dushanbe — é este o plano — permite admirar paisagens espectaculares para quem aprecia uma Natureza não antropizada» («O senhor do Pamir», Paolo Moiola, Além-Mar, Maio de 2026, pp. 33-34). 

      Não o tens, mas vejo-o por aí, e até em documentos oficiais, pelo que proponho ➜ antropizado modificado pela acção humana, especialmente no que respeita a ambientes naturais; diz-se de paisagem, meio ou território que sofreu transformação por intervenção humana. ⟨paisagem antropizada, meio antropizado, território altamente antropizado⟩.

[Texto 22 831]

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Léxico: «anarcolibertário | anarcolibertarismo»

Ou é indefinível?


      Eu perguntei primeiro: por que raio não está a palavra «anarcolibertário» dicionarizada? Não percebo, se as encontramos com alguma frequência. Assim, proponho ➜ anarcolibertário POLÍTICA relativo ou pertencente a uma corrente ideológica que combina princípios do anarquismo com o libertarianismo, defendendo a abolição do Estado e a organização da sociedade com base em relações voluntárias e no mercado livre; adepto dessa corrente. 

      Ao mesmo tempo, não pode faltar também ➜ anarcolibertarismo POLÍTICA corrente ideológica que combina princípios do anarquismo com o libertarianismo, defendendo a abolição do Estado e a organização da sociedade com base em relações voluntárias e no mercado livre.

[Texto 22 830]

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Definição: «cocktail molotov»

Viu bem


      «O homem de 39 anos, ex-professor, designer e militante anarco-libertário e do Partido Socialista – que já ontem anunciou que o quer expulsar –, que atirou um cocktail molotov (artefacto incendiário) contra um grupo de manifestantes da Marcha pela Vida, antiaborto e antieutanásia, no dia 21 de março, à frente do parlamento, em Lisboa, foi segunda-feira detido pela unidade antiterrorismo da Polícia Judiciária» («Anarquista e militante do PS detido por ataque à bomba», Miguel Curado, Correio da Manhã, 16.04.2026, p. 18).

      Ainda bem que o jornalista foi beber noutra fonte, Porto Editora, porque na tua definição é um «engenho explosivo». Não é. Assim, proponho ➜ cocktail molotov engenho incendiário artesanal constituído por uma garrafa, geralmente de vidro, com líquido inflamável, fechada com um pano embebido que funciona como mecha e que, após ignição e lançamento, provoca a dispersão do combustível e a sua inflamação ao impacto.

[Texto 22 829]

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Léxico: «besouro-jóia | buprestídeo»

Um buprestídeo, dois buprestídeos


      «Besouros são um dos grupos mais bem-sucedidos da história da vida na Terra. São mais de 400 mil espécies conhecidas desses insetos, e essa lista acaba de aumentar. Pesquisadores descreveram em um artigo, publicado em março no periódico Biodiversity Journal, duas novas espécies de besouros do gênero Agrilus, da família Buprestidae, que inclui espécies conhecidas como besouros-joias» («Biólogos identificam duas novas espécies de besouro-joia, uma delas por acaso», Ana Bottallo, Folha de S. Paulo, 16.04.2026, p. A49).

[Texto 22 828]

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Léxico: «biometeorologia»

E o adjectivo, se faz favor


      «La floraison printanière des cerisiers du Japon attire tous les ans des millions de personnes. Durant quelques jours, touristes et habitants se laissent happer par la beauté et la poésie de cette explosion de fleurs rose pâle. La fête, marquée par des promenades et des pique-niques sous les arbres, est un événement culturel et économique majeur. Mais selon une étude publiée le ler avril dans le Journal international de biométéorologie, ce rituel est menacé par le réchauffement climatique» («La floraison des cerisiers du Japon souffre des hivers trop chauds», Delphine Chayet, Le Figaro, 14.04.2026, p. 22). 

      Ora, cá nem se conhece a palavra ➜ biometeorologia METEOROLOGIA ramo da meteorologia que estuda a influência dos factores atmosféricos (como temperatura, humidade, vento, radiação solar ou pressão) sobre os organismos vivos, incluindo o ser humano, os animais e as plantas, analisando os seus efeitos na saúde, no comportamento e nos processos biológicos.

[Texto 22 827]

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Léxico: «espécie sentinela | espécie indicadora»

Afinal, são duas


      «A sentinel species is a species whose members’ health signals the condition of the ecosystem in which they live. Scientists monitor them because they are among the first to respond to stressors in their environment, such as pollution and disease, and their response also tends to be more apparent than most other species. In other words, they can provide early warnings of ecosystem decline» («Nature’s signals», The Hindu, 13.04.2026, p. II). 

      No dicionário da Porto Editora e noutros, apenas vamos encontrar «espécie indicadora», mas são conceitos diferentes, ainda que próximos. Comecemos por ➜ espécie sentinela ECOLOGIA espécie particularmente sensível a alterações ambientais, utilizada para detectar precocemente a presença de poluentes, agentes patogénicos ou outros factores de risco, funcionando como sinal de alerta para possíveis efeitos sobre outros organismos ou sobre o equilíbrio do ecossistema. | Seguida de ➜ espécie indicadora ECOLOGIA espécie cuja presença, ausência ou abundância reflecte as condições ambientais de um determinado meio, permitindo inferir o seu estado ecológico (como qualidade da água, grau de poluição ou características do solo).

[Texto 22 826]

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