Tradução: «unoaked»

Estava aqui a pensar


      Com que então uma garrafa de Comboio do Vesúvio unoaked… Ainda algum pacato e desprevenido português se atraganta antes mesmo de o levar aos lábios. Vejamos: se unoaked também é, apesar de consolidado, ambíguo em inglês, porque não sugerirmos nós um termo legitimamente português? Em rigor, unoaked não significa sempre «vinho sem qualquer contacto com madeira». Muitas vezes quer apenas dizer «vinho sem marca sensorial de carvalho», excluindo o uso de barrica nova, mas admitindo madeira neutra, contacto breve ou soluções técnicas equivalentes. O termo funciona menos como descrição processual do que como rótulo de estilo, e essa ambiguidade é hoje plenamente aceite no discurso enológico anglo-saxónico. Ora, se toleramos essa elasticidade no inglês, não há razão para exigir ao português uma precisão cirúrgica que o próprio original não tem. A dificuldade não é conceptual, é lexical: o inglês dispõe de um adjectivo curto, transparente e estabilizado; o português refugia-se em perífrases correctas, mas pesadas, como «vinho não estagiado em madeira» ou «vinho sem contacto com carvalho». É aqui que se pode, e talvez se deva, atirar o barro à parede. Desmadeirado é morfologicamente irrepreensível, semanticamente claro e dialoga directamente com um adjectivo já consagrado, amadeirado. Tal como unoaked, pode ser lido tanto em chave técnica como sensorial; tal como unoaked, não resolve todas as subtilezas do processo, mas comunica eficazmente um perfil de vinho. Nenhum termo nasce perfeito nem imune a objecções. Nasce porque alguém o usa, outro o entende e um terceiro já não estranha. Se aceitamos unoaked numa garrafa do Douro, talvez esteja na hora de experimentar também um vinho desmadeirado, ao menos na língua.

[Texto 22 803]

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