Para não sermos meros espectadores
«Os comboios-expresso que iam em direção ao Sul, para Merano, para Trieste, para Itália nunca paravam na sua minúscula estação. Os comboios-expresso passavam a uma velocidade vertiginosa por Fallmerayer, que, duas vezes por dia, aparecia na plataforma a cumprimentá-los com o seu boné vermelho reluzente; esses comboios degradavam o chefe de estação quase à categoria de guarda-linha» (O Chefe de Estação Fallmerayer, Joseph Roth. Tradução do alemão e introdução cronológica de Álvaro Gonçalves. Porto: Assírio & Alvim, 2018, p. 31).
Revisão parece que não teve, e isso nota-se e muito. Na verdade, é «comboios expressos» — os tais que na definição do dicionário da Porto Editora, como já aqui vimos, vão «do local de partida ao de chegada sem fazer paragens». Era bom, era. É antes assim: «6. (comboio, camioneta) que efectua um percurso com poucas paragens intermédias». Quanto à definição de «guarda-linha» («pessoa que vigia as linhas férreas»), também só se ganhava que fosse revista. Algo como isto ➠ guarda-linha FERROVIA trabalhador ferroviário encarregado de vigiar e inspeccionar determinado troço de uma linha férrea, verificando o estado da via, detectando e sinalizando eventuais perigos e zelando pela segurança da circulação dos comboios.
Quanto ao boné do chefe Fallmerayer, «reluzente» faz-me pensar logo em certos materiais, como metal e plástico, de que habitualmente não são feitos. Seja como for, na tradução, a frase é equívoca, até se pode interpretar que cumprimentava os comboios tirando o chapéu. Assim, mais claro seria desta forma: «Os expressos passavam desenfreadamente por Fallmerayer, que, duas vezes por dia, saía para a plataforma, de boné vermelho-vivo, a saudar; quase rebaixavam o chefe de estação a guarda-linha.» Calma, ainda aqui ficamos a ver os comboios passarem (como certos guarda-linhas). «Os rostos dos passageiros nas grandes janelas desvaneciam-se numa massa branca-cinzentada» (O Chefe de Estação Fallmerayer, Joseph Roth. Tradução do alemão e introdução cronológica de Álvaro Gonçalves. Porto: Assírio & Alvim, 2018, p. 31). Nein, nein, nein! Die Regel lautet so: nos adjectivos compostos formados por dois adjectivos, só o segundo elemento varia em género e número, mantendo-se o primeiro invariável na forma masculina do singular; assim, diz-se «massa branco-acinzentada», «massas branco-acinzentadas», «camisa verde-clara» e «camisas verde-claras». Gern geschehen!
[Texto 23 444]