Definição: «gaulês | etrusco»

Acabamos assim


      «De fato, sabemos que, no caso do Império Romano, povos que tinham uma grande variedade de idiomas próprios passaram a adotar só o latim (na parte ocidental do império) ou o grego (na parte oriental) como línguas da cultura e, mais tarde, do cotidiano. Entre as línguas extintas pela presença romana estão o etrusco, língua isolada (sem parentes conhecidos) da Itália, e o gaulês, idioma celta da atual França» («Idiomas podem ter alcançado pico de diversidade 3.000 anos atrás», Reinaldo José Lopes, Folha de S. Paulo, 27.07.2026, p. B10). 
      Idioma da Gália... Tentemos assim ➠ gaulês nome masculino LINGUÍSTICA língua indo-europeia do ramo céltico, hoje extinta, falada na Gália e noutras regiões da Europa Ocidental até cerca do século VI.
      Quanto ao ➠ etrusco nome masculino LINGUÍSTICA língua não indo-europeia, de classificação genética incerta, hoje extinta, falada na Etrúria e noutras regiões da península Itálica entre cerca do século VIII a. C. e o século I d. C.

[Texto 23 620]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «irregular»

Mais do que irregular


      «Acelerando num Cherokee a cair aos bocados pelos três quilómetros de pista vazia a uma velocidade que, calculou Proctor, se o velocímetro estivesse a funcionar, indicaria cento e trinta quilómetros por hora, Todd foi durante uns poucos segundos gloriosos o arrojado irregular do deserto que em tempos fora» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 72). 
      E que irregular é este? Podemos ter a certeza de que o leitor vai compreender? Não! O que vejo é que «combatente irregular» é a designação militar portuguesa perfeitamente estabelecida. Já vi que ficou de fora do verbete nos nossos dicionários, pelo que proponho ➠ irregular adjectivo de 2 géneros MILITAR que não pertence às forças armadas regulares de um Estado ou que actua fora da sua estrutura e organização.

[Texto 23 619]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «ímbrex»

Porque é mesmo


      Na página 103 da obra A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, está uma imagem de uma sepultura de criança sobre ímbrex. No caso, a Porto Editora já acolhe a variante ímbrice, mas a forma latina graficamente adaptada à acentuação portuguesa há muito que é usada pelos nossos arqueólogos. Assim, apenas faria a remissão ➠ ímbrex nome masculino ARQUEOLOGIA ver ímbrice. Mas não deixaria de propor uns ajustes à definição de ➠ ímbrice nome feminino ARQUEOLOGIA telha curva, geralmente de forma semicilíndrica, que, no sistema de cobertura romano, era colocada sobre os rebordos de duas tégulas contíguas, cobrindo e impermeabilizando a respectiva junção.

[Texto 23 618]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «pedologia forense»

Orientação profissional


      «A história com cara de “CSI”, a série de TV sobre investigação de crimes, está no currículo da doutora em ciência do solo Samara Alves Testoni, 38, que começou neste ano a ministrar uma disciplina de graduação pioneira no país sobre essa técnica. A matéria se chama pedologia forense, ou seja, a ciência que estuda o solo aplicada a investigações no âmbito judicial» («Disciplina na Unesp ensina a usar análises do solo em investigações criminais», Laura Mattos, Folha de S. Paulo, 7.08.2026, p. A41). 
      A designação tem uso técnico consolidado e está documentada também em Portugal, nomeadamente em cursos da Universidade do Porto e em seminários da Associação Portuguesa de Ciências Forenses. Não se restringe necessariamente à investigação criminal: pode servir qualquer investigação com relevância jurídica ou judicial. E não é uma ciência, mas a esta hora já a jornalista também saberá. 
      Assim, proponho ➠ pedologia forense ramo da pedologia que aplica métodos de caracterização, análise e comparação dos solos à investigação de factos com relevância judicial, nomeadamente para determinar a proveniência de vestígios e relacionar pessoas ou objectos com determinados locais.

[Texto 23 617]

Etiquetas ,
edit

Definição: «autoclave»

E a pressão?


      «Meanwhile, the surgical instruments themselves are usually sterilised in a machine called an autoclave, which uses high-pressure steam. The steam is made from highly purified water, often distilled or deionised, because ordinary water can leave mineral deposits that affect the sterilisation process» («How is water sterilised for use in, say, surgery?», Irish Daily Mail, 30.09.2026, p. 39). 
      O cerne do conceito de autoclave está justamente naquele high-pressure steam, isto é, no vapor de água sob pressão. Ora, é precisamente esse elemento que está ausente da definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «aparelho de esterilização em que a água atinge temperaturas superiores a 100 °C sem ferver, por estar impedida a saída do vapor». Embora seja possível, sob pressão, a água permanecer no estado líquido a temperaturas superiores a 100 °C, não é essa circunstância que caracteriza a autoclave como aparelho de esterilização. O cerne do processo é a utilização de vapor de água sob pressão e a alta temperatura, elemento que a definição actual não explicita. 
      Assim, proponho ➠ autoclave aparelho de esterilização que utiliza vapor de água sob pressão, a temperaturas superiores a 100 °C. (Na realidade, a etimologia diz que vem do francês autoclave, composto de auto-, do grego autós, «mesmo; próprio», e -clave, do latim clavis, «chave».)

[Texto 23 616]

Etiquetas ,
edit

Definição: «aniridia»

Não é bem assim


      Como vimos no artigo anteriormente citado, nele se empregava também a palavra «aniridia». Ora, «aniridia» não está registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: encontramo-la apenas no Dicionário de Termos Médicos e em alguns dos dicionários bilingues da mesma editora. No primeiro, porém, «aniridia» limita-se a remeter para «aniria», definida como «falta congénita de íris». Também aqui há alguma coisa a corrigir. A aniridia congénita não corresponde necessariamente à falta total da íris. A Orphanet define-a como «malformação ocular bilateral congénita, caracterizada pela ausência completa ou parcial da íris». Há mesmo descrições especializadas que preferem falar em hipoplasia parcial ou quase completa da íris, lembrando que a aniridia é, na realidade, uma afecção que envolve várias estruturas do olho. Acresce que a aniridia pode também ser adquirida, designadamente em consequência de traumatismo ou cirurgia ocular. Assim, a definição «falta congénita de íris», além de demasiado absoluta quanto à ausência da íris, restringe o termo aos casos congénitos. 
      Parece, pois, justificar-se não só a inclusão de «aniridia» no Dicionário da Língua Portuguesa, mas também a revisão da definição. Uma formulação suficientemente abrangente poderia ser ➠ aniridia MEDICINA ausência total ou parcial da íris, de origem congénita ou adquirida. 
      Se se entender que o verbete deve descrever especificamente a doença congénita, que é de longe o emprego mais corrente do termo, então seria preferível ➠ aniridia MEDICINA malformação ocular congénita caracterizada pela ausência total ou parcial da íris.

[Texto 23 615]

Etiquetas ,
edit

Definição: «ceratopatia»

E vamos por aqui fora


      «Um novo tratamento com células-tronco para uma doença ocular progressiva fez com que os pacientes conseguissem ler cinco linhas a mais em um teste de acuidade visual padrão — oferecendo uma nova esperança para quem já havia esgotado todas as opções terapêuticas disponíveis» («Nova técnica com células-tronco melhora visão na ceratopatia associada à aniridia», Julie Stewart, Medscape, 28.09.2026). 
      Está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (talvez fugido do Dicionário de Termos Médicos): «MEDICINA qualquer doença da córnea». Padece do mesmo mal ou limitação das definições de outros dicionários: esquecem-se de que -patia tem um valor um pouco mais amplo: designa uma afecção, alteração ou perturbação patológica, não necessariamente uma doença entendida como entidade nosológica autónoma. Isso vê-se bem em expressões como «ceratopatia de exposição», que é descrita como lesão/dano da córnea causado pela exposição prolongada da superfície ocular. À prova de bala é a definição «MEDICINA afecção da córnea». É melhor do que «qualquer doença da córnea» por duas razões: afecção abrange doença, alteração, anomalia, degenerescência, etc.; e «qualquer» é dispensável numa definição deste género. Se ceratopatia é uma afecção da córnea, naturalmente qualquer entidade que caiba nessa classe pode receber a designação. 
      (Na versão para dispositivos móveis do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, espera-nos uma surpresa: em «ceratopatia», sob «VEJA TAMBÉM», surge «ageustia»; em «ageustia», surge «amnistia»; e em «amnistia», por sua vez, «agalactia». Na versão para computador percebe-se o que aconteceu: são palavras apresentadas sob a rubrica «rimam com». Alguma coisa se perdeu na passagem para os dispositivos móveis e uma cadeia de rimas transformou-se numa cadeia de remissões. Obra da desinteligência artificial?)

[Texto 23 614]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «soldadinho-do-araripe | sauim-de-coleira | boto-tucuxi»

Começamos com esta tripla


      «Símbolos da biodiversidade brasileira, a arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) e o tucuxi (Sotalia fluviatilis) entraram para a lista de espécies da fauna ameaçadas de extinção. [...] A nova lista, porém, não traz só más notícias: animais como o soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni), o sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) e a baleia-franca-austral (Eubalaena australis) tiveram sua categoria de ameaça reduzida» («Arara-azul e boto-tucuxi entram na lista de espécies do país ameaçadas», Jéssica Maes, Folha de S. Paulo, 10.09.2026, p. A48).

[Texto 23 613]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «despedido»

Assim me despeço


      «Mestre Raposo dormira sobre o acontecimento; e, pois não tinha certesa nem testimunhas da agressão, houve por melhor aparentar ignorancia, não se dar por achado. Por outro lado, o aprendiz estava bom; apenas com uma contusão formidavel na testa, nascida da queda despedida, a que o leitor assistiu» (O Último Cartuxo da Scala Caeli de Évora, António Francisco Barata. Lisboa: José António Rodrigues, Editor, 1891, p. 73). 
      Isto, que ouvi toda a vida, e exactamente esta locução, «queda despedida», não fica abrangido por nenhuma acepção de «despedir» e muito menos de «despedido» registada nos nossos dicionários. Assim, proponho ➠ despedido adjectivo que se faz com ímpeto ou grande velocidade; impetuoso.

[Texto 23 612]

Etiquetas ,
edit

Definição: «colherim»

Então e para que serve?


      «O sindicato lembra, por sua vez, que “não são os arqueólogos que, de forma autónoma e arbitrária, decidem quando e durante quanto tempo deve ocorrer a intervenção arqueológica”; nem tão-pouco são eles que decidem se escavam durante semanas, meses ou anos, e se o fazem por decapagens milimétricas, com colherins e escovas (o que raramente sucede em acompanhamentos de obras de grande envergadura em contexto urbano), ou com o apoio de retroescavadoras e outros meios pesados — são as entidades de tutela do património cultural, neste caso o Ministério da Cultura, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional e a própria Câmara Municipal de Lisboa» («Tuneladoras, arqueologia e má moeda», Luís Raposo, Público, 25.09.2026, p. 21). 
      Colherim que a Porto Editora define assim: «instrumento constituído por um cabo acoplado a uma peça chata, fina e triangular, geralmente de metal, usado por estucadores, pintores, arqueólogos, etc.; colheril». Tem algumas deficiências, e a principal é que descreve a forma do colherim e enumera quem o usa, mas não diz o que se faz com ele. E o advérbio «geralmente» não me parece adequado: pelo que vi, não há colherins que não sejam de metal. E mesmo o «acoplado» pode levar a pensar que são peças separáveis. 
      Assim, proponho ➠ colherim instrumento constituído por um cabo e uma peça metálica chata, fina e triangular, usado na aplicação e acabamento de massas e revestimentos e em trabalhos de precisão em escavações arqueológicas; colheril.

[Texto 23 611]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «interceptor»

Já é muito mais do que apenas isso


      Agora estamos sempre a ouvir falar de interceptores de drones. Não são os únicos que faltam nos nossos dicionários. Apesar de tudo, os brasileiros registam mais acepções do vocábulo. Assim, além da acepção geral, Porto Editora, sugiro: interceptor 2. MILITAR avião de combate especialmente concebido para interceptar e destruir aeronaves inimigas; 3. MILITAR míssil concebido para interceptar e destruir em voo aeronaves, mísseis ou outros engenhos aéreos inimigos; 4. MILITAR drone concebido para alcançar e neutralizar em voo outro drone, geralmente por impacto ou pela detonação de uma carga explosiva; 5. ENGENHARIA colector principal, constituído por tubagem ou galeria, que recebe águas residuais de outros colectores e as conduz para uma estação de tratamento ou para um ponto de descarga.
      «Zelensky denunciou que a Ucrânia está a receber quase três vezes menos interceptores do que no início do ano» («Sem saída no solo, a guerra na Ucrânia subiu aos céus», Ivo Neto e José Volta e Pinto, Público, 14.08.2026, p. 18).

[Texto 23 610]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «sota»

Olha se eu não ouvisse bem (de novo)


      Com que então não viram o Jornal Nacional da TVI no dia 13.08.2026... Mais perderam. Numa reportagem sobre um resgate na praia da Adraga, em Sintra, de especial complexidade, que até envolveu um helicóptero da Força Aérea. Fala o nadador-salvador Thomas Capucho: «A ondulação estava extremamente forte, havia uma rebentação constante naquela zona, em que tínhamos um período de acalmia, que é chamada a sota, cerca de 15 a 20 segundos. Ou seja, um período extremamente curto.» 
      Nos dicionários, nada. Assim, proponho ➠ sota nome feminino NÁUTICA período de relativa acalmia entre duas séries sucessivas de ondas.

[Texto 23 609]

Etiquetas ,
edit

Como se escreve por aí

A maldição do itálico


      «Sempre achei que foi o destino que me fez esquecer a carteira naquele dia no Starbucks e que ele me pagasse o café» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 24). «Li na Internet que saquetas de chá podem ajudar, por isso pus uma em cada olho, mas não ajudou e espalhei chá por todo o lado» (p. 32). «Olho para o Mastercard na minha mão, confusa» (p. 59). «Ao fim da noite, estávamos ambos sempre um pouco ébrios, razão pela qual apanhávamos um Uber em ambos os sentidos, e, na viagem de regresso, dávamos uns amassos no banco de trás como adolescentes» (p. 65). «Seja como for, ainda não são bem horas de sair para a reunião, por isso pego no telemóvel e pesquiso no Google pelo nome “Veronica Chesson”» (p. 134). «A minha melhor amiga está sentada num pufe junto à minha cama» (p. 240). 
      Já agora, porque não?, também os nomes da tradutora e da revisora em itálico, tão nomes próprios como Uber, Starbucks, Mastercard, etc. O itálico não nasceu para isso, coitado. Não é como revisor que abomino isto, é como leitor.

[Texto 23 608]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «secularizante»

Lida e ouvida


      «Há muitos factores que afectam e desafiam a fé dos fiéis, entre os quais a globalização, o que nos obriga a envidar mais esforços em termos de evangelização, especialmente no domínio da catequese. Até há pouco tempo, o Maláui estava relativamente isento de ideias secularizantes, mas com a tecnologia ao nosso alcance — a rádio, a televisão e a telefonia móvel — já não é possível proteger os fiéis dos inimigos da sua fé. O que precisamos, em vez disso, é formá-los para enfrentar estes desafios [afirma Dom Martin Anwell Mtumbuka, primeiro bispo da diocese de Karonga, Maláui]» («“Os sacerdotes devem permanecer próximos do povo”», Boniface Gbama, Além-Mar, Outubro de 2026, p. 41).

[Texto 23 607]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «entronizar | entronização | confrada | confradesa»

Andamos distraídos


      «Uma vez por ano a Confraria da Cerveja escolhe um monumento para receber a sua Cerimónia de Entronização. Este ano a escolha incidiu no Convento de Mafra. A XXII Cerimónia de Entronização realiza-se no dia 1 de Outubro e deverá reunir cerca de 200 convidados. A edição deste ano fica também marcada por um número redondo: desde a fundação da instituição, em 2003, já foram entronizados 1100 confrades e confradesas» («Mafra recebe Entronização da Confraria da Cerveja», Azul, Ericeira Mag,  28.09.2026). 
      O trecho do artigo chama a atenção para três lacunas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Não: em todos os dicionários. Em primeiro lugar, «confradesa», feminino de «confrade», não está registado, apesar de ter uso efectivo e consolidado no âmbito das confrarias portuguesas. Não se trata apenas de uma opção da Confraria da Cerveja, que emprega regularmente formas como «confrades e confradesas» e «confrades ou confradesas de honra». Em estatutos da Confraria das Artes — Associação dos Amigos da Gastronomia, lavrados em 14 de Novembro de 2005 e publicados no Diário da República de 9 de Fevereiro de 2006, encontram-se, por exemplo, «demissão do confrade/confradesa» e «todos os confrades e confradesas». A forma ocorre igualmente na imprensa portuguesa. Parece, pois, haver fundamento bastante para o registo de confradesa, que poderia ser definido simplesmente como «mulher que pertence a uma confraria; confreira», além de a forma passar a figurar entre os femininos indicados no verbete de «confrade». Ao mesmo tempo, conviria registar também confrada, feminino antigo de «confrade». A palavra está documentada em português desde a Idade Média — encontram-se testemunhos dos séculos XIV e XV —, embora tenha posteriormente caído em desuso, ainda que aqui e ali se use, seja por graça, seja por convicção. Justificar-se-ia, portanto, a sua inclusão, com a marca desusado. Finalmente, o mesmo excerto revela duas lacunas semânticas. No vocabulário das confrarias, entronizar adquiriu a acepção de «investir solenemente alguém como membro de uma confraria», não contemplada no verbete actual. Correspondentemente, entronização designa a «cerimónia solene de investidura de novos membros de uma confraria». Ambos os usos estão largamente documentados há décadas em confrarias portuguesas, pelo que se justifica o seu registo em acepções próprias.

[Texto 23 606]

Etiquetas ,
edit

Definição: «iotacismo»

Logo por azar, não está


      «Você já ouviu que a dificuldade de um camelo passar pelo buraco da agulha é semelhante à dificuldade de um rico ser salvo? Há debate antigo sobre se o grego original seria kamelos (camelo) ou kamilos (corda grossa, cabo). Jerônimo optou pelo animal. O chamado “iotacismo” (processo em que as vogais gregas foram sendo pronunciadas próximas ao som de i) ajudou na confusão que não é exclusiva de Jerônimo» («O poder das palavras», Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo, 27.09.2026, p. C12). 
      Sentido que não acolhes, Porto Editora, no teu verbete: «1. emprego excessivo do som i; 2. dificuldade na articulação do i ou do g doce». Aproximas-te, é certo, na 1.ª acepção de itacismo, mas não mais do que isso. Assim, proponho ➠ iotacismo 3. LINGUÍSTICA evolução fonética pela qual diferentes vogais ou ditongos passam a ser pronunciados como i, característica sobretudo do grego pós-clássico. 
      Também a segunda acepção de «iotacismo» merece a nossa atenção, pois foi claramente mal copiada de dicionários mais antigos. Ora vejamos. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define-a como «dificuldade na articulação do i ou do g doce». Cândido de Figueiredo, porém, registava: «Dificuldade na pronúncia do j ou do g, doce», e o Caldas Aulete: «Dificuldade na pronúncia do j ou do g doce.» A origem desta definição encontra-se na lexicografia francesa: Littré dava «Difficulté de prononcer le g doux ou j». Portanto, não é do i que se trata, mas do j. A acepção é antiga e designava, mais precisamente, uma perturbação da pronúncia em que o j ou o g suave eram realizados como i semivocálico. O CNRTL documenta este sentido já em 1803 e exemplifica-o com pronúncias do tipo Iules por Jules. Assim, há duas coisas a corrigir na entrada: acrescentar a acepção histórico-fonética de «iotacismo», hoje fundamental, e corrigir, na segunda acepção, i para j. Se se entender conservar esta última, talvez convenha ainda reformulá-la para tornar explícito em que consiste a perturbação articulatória.

[Texto 23 605]

Etiquetas ,
edit

Como se pensa que devemos falar

De imensa a nula


      Naquela já proverbial programática má vontade contra tudo o que diz respeito ao PS e à esquerda em geral, na edição de hoje do programa E o Vencedor É..., na Rádio Observador, tripudiaram — a citação foi trazida por Judite França — por José Luís Carneiro ter afirmado, em Cabeceiras de Basto, que, em relação ao novo regime de arrendamento urbano, o que «está em causa é a liberalização do desalojamento e que as medidas são desumanas». Ora, desalojamento é o acto ou efeito de desalojar(-se), lê-se nos dicionários. Ou temos de falar sempre e todos da mesma maneira? Em jornalês, talvez? Dou-lhes 6 valores.

[Texto 23 604]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Foi também Judite França que, na edição de sexta-feira, trouxe o magno caso de Pina Bausch ser bailarina ou dançarina. Entre uma bailarina e uma dançarina, afirmou categoricamente, «a diferença é imensa». Afinal, como vimos aqui, a diferença parece mais nula que imensa. Ou pelo menos nada que mereça o foguetório que se viu.


Etiquetas ,
edit

Definição: «tarologia»

É assim que elas entram


      No noticiário das 8 da manhã na Antena 1, Eduarda Maio (não confundir, como fazem alguns ouvintes nos fóruns, com a especialista em tarologia e carpetes vermelhas Maya), julgando estar a falar português, referiu-se à «acampada nas Portas do Sol». Porto Editora, acho que se promove muito mais o português definindo a tarologia como «estudo e prática da adivinhação através do tarô». Ou, seguindo a nossa meritória campanha contra o obscurantismo, assim, como fazem dicionários sérios ➠ tarologia prática divinatória que pretende conhecer ou prever acontecimentos por meio da interpretação das cartas do tarô.

[Texto 23 603]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «ensaio clínico»

Muito mais comum


      «Sem tratamentos ou vacinas aprovadas, a solução é procurar oferecer respostas em tempo real. Há uma vacina aprovada, a Ervebo, contra o vírus do Zaire que será testada agora contra o Bundibugyo – na semana passada foram distribuídas 20.000 doses de Ervebo. Estes tratamentos são testados em regime de ensaio clínico, com a sua segurança já demonstrada, mas com os dados de eficácia a ser avaliados em contexto real» («Empresa portuguesa quer um anticorpo contra o ébola até ao fim deste ano», Tiago Ramalho, Público, 27.09.2026, p. 27). 
      Se acolhes «ensaio balístico» e «ensaio nuclear», Porto Editora, não vejo motivo para não registares o muitíssimo mais comum «ensaio clínico». O falante comum até pode pensar que sabe o que é, mas apenas se não lhe perguntarem. Assim, proponho ➠ ensaio clínico MEDICINA estudo de investigação realizado em seres humanos, no qual estes são submetidos a uma intervenção relacionada com a saúde, com o objectivo de avaliar a sua segurança, eficácia ou outros efeitos.

[Texto 23 602]

Etiquetas ,
edit

Definição e etimologia: «croquete»

Perguntem a Escoffier


      «Esta y algunas otras voces españolas tienen su origen en el francés croquer (‘crujir’ y ‘esbozar’), procedente a su vez de croc, onomatopeya del sonido que produce algo al morderlo. De ahí salen croquette, que pasa al español como croqueta; croquis (‘esbozo esquemático’), que aquí se toma tal cual; croque (‘golpe que se da con la cabeza o en ella’ y ‘bichero’), y crocante (‘que cruje al mascarlo’). Tanto croqueta como croque y crocante son también palabras gallegas» («De croquetas y croques», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 27.09.2026, p. 14). 
      Exactamente. E, assim, bem podemos dizer mais do que «do francês croquette, «idem». E jamais definiria croquete como «bolo cilíndrico feito de picado de carne, peixe ou marisco, envolvido em pão ralado e frito», como faz a Porto Editora. Para ficarmos apenas pelas duas primeiras palavras, bolo não é de certeza; quanto a ser cilíndrico, é só o mais habitual, porque o que leio no Guide Culinaire de Escoffier (1903) é que a forma é facultativa: podem fazer-se em forma de rolha, quadrado, rectângulo, oval, disco, pêra ou ovo. Portanto, nem sequer historicamente a forma cilíndrica é constitutiva. Assim, proponho ➠ croquete CULINÁRIA pequena porção moldada de um preparado à base de carne, peixe, legumes ou outros alimentos, geralmente envolvida em pão ralado e frita ou levada ao forno. (Do francês croquette, «idem», derivado de croquer, «trincar; mastigar», de origem onomatopaica.)

[Texto 23 601]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «cupa»

Mais arqueologia


      Na página 102 da obra A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, está uma imagem de uma cupa funerária de Marco Clódio Avito, de 25 anos, de lioz. Antes dos 27 anos… Alguma estrela do saxum (agora conhecido por rock) de Cascais daquela época. Fora dos dicionários, pelo que proponho ➠ cupa ARQUEOLOGIA monumento funerário romano constituído por uma cobertura de forma aproximadamente semicilíndrica, semelhante a um tonel deitado, que assinalava uma sepultura, podendo apresentar uma inscrição. (Quanto à etimologia, vem do latim cūpa, «tonel; barril».)

[Texto 23 600]

Etiquetas ,
edit

Definição: «passador»

Isso e muito mais


      Partiu-se o passador da pulseira de um dos meus relógios. É pena, gostava muito dela. De pele genuína, macia, muito flexível, comprei-a a um artesão ucraniano. Mas agora vejo que a Porto Editora define assim «passador»: «tira de tecido presa a uma peça de vestuário, por onde passa um cinto, uma fita, etc.». Não me parece. É antes isto ➠ passador peça, geralmente em forma de tira ou argola, por onde passa um cinto, uma correia, uma fita ou elemento semelhante, para o manter preso.

[Texto 23 599]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «carena»

Os arqueólogos agradecerão


      Na página 66 da obra A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, está uma imagem uma taça com carena encontrada na villa romana de Freiria. Acepção em falta nos nossos dicionários, pelo que proponho ➠ carena ARQUEOLOGIA, CERÂMICA ponto ou zona angular de inflexão na parede de um recipiente, onde se verifica uma mudança acentuada na direcção do seu perfil.

[Texto 23 598]

Etiquetas ,
edit

«Questionado?» Há-de ser «perguntado»

É assim mesmo


      «O conhecimento médico facilita, mas não elimina a pesquisa. “Sinto mais segurança ao escrever sobre ferimentos e doenças, mas certamente não sei tudo sobre isso”, diz ela. O saber profissional tampouco restringe as liberdades que toma para fazer uma trama funcionar. “Nunca”, responde quando perguntada se já abandonou uma boa reviravolta por saber, como médica, que ela seria clinicamente impossível» («Tento não mentir, mas adoro manipular os meus leitores, afirma Freida McFadden», Ivan Finotti, Folha de S. Paulo, 12.09.2026, p. B7). 
      Quase todos os nossos escribas, incluindo gurus da escrita e linguistas autopromovidos, optariam ali por «questionada», quando não alguma coisa pior.

[Texto 23 597]

Etiquetas ,
edit

Definição: «desbaptizar | apostatar | apostasia»

Mais problemas


      «Há três anos que Eva Monteiro tenta desbatizar-se, mas ainda não conseguiu. Descreve o seu pedido de apostasia como uma “longa novela”. [...] Em 2023, ano da Jornada Mundial da Juventude, Eva, que continua à espera de resposta ao pedido de apostasia, aderiu ao ateísmo militante e é secretária da AAP, que tem dinamizado campanhas de informação e prestado apoio jurídico a quem pretende formalizar a apostasia. [...] Na adolescência, a ideia de se desbatizar começou a ganhar forma e fez um pedido, por carta, invocando o direito canónico relativo à apostasia. “O bispo de Santarém respondeu que sim, advertindo para que eu não esquecesse que o vínculo é inquebrável. Ao fim de uns tempos, no início de 2019, recebi uma carta que dizia que eu havia renegado o batismo e era declarado apóstata”, relata [João Sequeira]» («Eles querem deixar de ser batizados», Sónia Bento, Sábado, 23.09.2026, pp. 65-66). 
      Ora bem, vejamos os equívocos à volta desta questão e as falhas no dicionário. Apostasia e desbaptização estão estreitamente relacionadas, mas não são a mesma coisa. Apostatar é abandonar ou renunciar à fé anteriormente professada. Para isso, não é preciso apresentar requerimento, escrever ao bispo ou sequer abrir a boca: alguém pode abandonar a fé sem o comunicar a quem quer que seja. Por isso, expressões como «pedido de apostasia» ou «estar à espera de resposta ao pedido de apostasia» são, no mínimo, impróprias. Não se pede à Igreja autorização para apostatar; o que se lhe comunica é a decisão tomada e, eventualmente, pede-se-lhe que dela tome conhecimento formal e a faça constar do registo correspondente. Também a definição de «apostasia» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora precisa de ser corrigida. É actualmente «abandono público da fé da Igreja a que se pertence; abjuração». Ora, a apostasia não tem de ser pública, nem sequer conhecida de terceiros. Bastaria, com maior rigor, «abandono ou renúncia da fé anteriormente professada». Por consequência, apostatar poderá definir-se como «abandonar ou renunciar à fé anteriormente professada». Outro problema, e talvez mais interessante, está em «desbaptizar». O próprio verbo induz em erro, mas quanto a isso nada podemos fazer: o prefixo des- sugere que se desfaz aquilo que o baptismo fez, como se desfaz um nó ou se desmonta uma máquina. Não é isso que acontece. Quem se pretende desbaptizar comunica à Igreja que renuncia à sua pertença a ela e pretende que essa renúncia seja formalmente reconhecida. O baptismo, porém, não desaparece. É por isso incorrecta a 4.ª acepção de «desbaptizar» no mesmo dicionário: «RELIGIÃO anular o sacramento do baptismo». O baptismo não é anulável segundo o Direito Canónico e, independentemente de qualquer doutrina religiosa, há uma impossibilidade ainda mais elementar: é um facto ocorrido e não se pode fazer com que aquilo que aconteceu deixe de ter acontecido. Proponho, pois, para essa acepção: «RELIGIÃO reconhecer formalmente a renúncia declarada de alguém à pertença à Igreja em que foi baptizado». Poderá acrescentar-se uma nota: «A desbaptização não anula nem elimina o baptismo, que não pode ser anulado segundo o Direito Canónico nem, enquanto facto ocorrido, ser retroactivamente suprimido. A declaração de abandono da Igreja pode ser anotada no respectivo assento de baptismo, sem que este seja apagado ou alterado.» 
      Fica assim clara a diferença: apostatar é abandonar a fé; desbaptizar-se é comunicar à Igreja essa ruptura e procurar obter o seu reconhecimento formal. Uma pessoa pode apostatar sem nunca se desbaptizar; quem pretende desbaptizar-se, pelo contrário, exterioriza necessariamente a sua apostasia.

[Texto 23 596]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «mesa»

Só na aparência


      Na página 131 da obra A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, está uma imagem de um anel de mesa quadrada, decorado, de liga de cobre. A 5.ª acepção do dicionário da Porto Editora não cobre este sentido: «parte superior de um diamante quando lapidado». Aliás, mesmo essa definição tem de ser corrigida, já que em gemologia table não é simplesmente toda a «parte superior»: é a principal faceta da coroa, isto é, a grande faceta superior da gema lapidada. É a CIBJO (Confédération Internationale de la Bijouterie, Joaillerie, Orfèvrerie des Diamants, Perles et Pierres), que fixa nomenclatura internacional para o sector, que o diz, não é capricho meu. Além disso, não é conceito exclusivo do diamante. Assim, proponho ➠ mesa 5. GEMOLOGIA faceta geralmente plana e de maior dimensão, situada na parte superior da coroa de uma gema lapidada; 6. JOALHARIA parte superior alargada de um anel, que pode apresentar decoração, inscrição ou engaste de gema.

[Texto 23 595]

Etiquetas ,
edit

Definição: «divorciado»

Divorciado, mas não separado


      Na Suíça discute-se actualmente se a menção «divorciado» deve desaparecer do estado civil acessível ao público. A questão é jurídica e social, mas tem também algum interesse linguístico: afinal, que significa exactamente estar divorciado? A proposta partiu da advogada Anaïs Brodard, especialista em direito da família, que considera desnecessário que o divórcio acompanhe indefinidamente, qual labéu, a identificação civil de uma pessoa. Dissolvido o vínculo conjugal, entende que deveria bastar a distinção entre «casado» e «não casado». Ter-se divorciado pertence à história pessoal de cada um, não à sua situação conjugal presente. É justamente esta distinção que se perde na definição de «divorciado» do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Como nome, o vocábulo é definido como «indivíduo separado por divórcio». Ora, o divórcio não é uma modalidade de separação: é a dissolução do casamento. E, dissolvido este, nada obriga sequer os ex-cônjuges a estarem separados de facto. Podem continuar a viver na mesma casa e até, por insólito que seja o caso, a fazer vida em comum. Divorciado é, pois, simplesmente o indivíduo que se divorciou ou, numa formulação mais jurídica, cujo casamento foi dissolvido por divórcio. A referência à separação, além de desnecessária, introduz na definição uma condição que o vocábulo não contém. Também a segunda acepção do adjectivo, «que obteve a dissolução legal do casamento; separado», acumula dois problemas. Separado não é sinónimo de divorciado: pode estar separado quem continua juridicamente casado, assim como pode não estar separado de facto quem já se divorciou. Mas também «obteve» é inadequado. Quem está divorciado não foi necessariamente quem requereu ou promoveu o divórcio; este pode ter resultado da iniciativa do outro cônjuge ou da vontade de ambos. A definição deve descrever o estado resultante, não sugerir quem o provocou. 
      Bastaria, portanto, e para terminar, definir o adjectivo como «cujo casamento foi dissolvido por divórcio» e o nome como «indivíduo cujo casamento foi dissolvido por divórcio», ou, mais simplesmente, «indivíduo que se divorciou».

[Texto 23 594]

Etiquetas ,
edit

Definição: «kamikaze»

Pensemos noutros casos


      «Uma das suas [de George Orwell, quando, entre 1941 e 1943, trabalhou para o Serviço Oriental da BBC] tarefas era justamente ler e analisar a propaganda do Eixo, nomeadamente do regime japonês. Acredito que o autor possa ter bebido aí bastante material para o seu romance. Quando refere a doutrina da ‘Adoração da Morte’ na Lestásia, por exemplo, é difícil não nos lembrarmos dos kamikazes, pilotos de aviões ou de submarinos rudimentares que davam a vida para atingir um alvo inimigo» («Orwell nipónico», José Cabrita Saraiva, «Versa»/Nascer do Sol, 25.09.2026, p. 42). 
      Nome, logo, com marca do plural: kamikazes. Aqui não há dúvidas. Algumas editoras até podem deixar passar outras coisas, mas, como adjectivo, nunca deixam passar o adjectivo kamikaze com marca de plural. E que faz a Porto Editora? Apesar de marcar kamikaze como palavra estrangeira, classifica-o como «adjectivo de 2 géneros», admitindo, por conseguinte, a flexão em número. Curiosamente, e só para citar dois entre muitos outros exemplos, não deixa de considerar invariáveis adjectivos estrangeiros como standard e vintage. No primeiro caso, a distinção é particularmente elucidativa: standards é plural do nome, ao passo que o adjectivo standard é expressamente classificado como invariável. Parece, pois, que é essa mesma distinção que falta fazer em kamikaze: kamikazes como plural do nome; kamikaze, invariável, como adjectivo.

[Texto 23 593]

Etiquetas ,
edit

Bailarinas, dançarinas e jornalistas

Foguetório

     
      «A Câmara Municipal de Lisboa decidiu homenagear Pina Bausch (1940-2009), bailarina e coreógrafa alemã, figura revolucionária da dança, com uma rua na freguesia do Lumiar. Só que poucas horas depois de divulgar nas redes sociais a homenagem, o município liderado por Carlos Moedas foi alertado para o facto de ter designado a artista alemã como “dançarina”, em vez de “bailarina”» («Câmara Municipal de Lisboa assume erro em placa de homenagem a bailarina Pina Bausch», Joana Moreira, Observador, 25.09.2026, 12h18). Ai as redes sociais, que medo! E a historieta teve direito a ampla divulgação: só hoje ouvi-a duas vezes na Rádio Observador. A jornalista cita depois Bruno Cochat, bailarino, coreógrafo, ex-coordenador dos Estúdios Victor Cordon, na publicação da autarquia no Facebook: «Eu sei que é confuso, em português, os bailarinos dançam e os dançarinos bailam mas, na dúvida, era só perguntar… Até dói!» Em tom complacente, como se estivesse a explicar uma subtileza da língua que escapasse ao comum dos mortais. Mas será mesmo assim tão simples? 
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define bailarino como «pessoa que tem como profissão dançar; dançarino» e dançarino como «o que tem como profissão dançar; bailarino». (E digo «bailarino» e «dançarino» porque a Porto Editora se esqueceu de registar «dançarina».) Isto é, não só os apresenta como sinónimos, como recorre exactamente ao mesmo verbo, «dançar», para definir ambos. Segundo o dicionário, portanto, os bailarinos dançam e os dançarinos também. Claro que os dicionários não são infalíveis, eu que o diga, nem ditam o uso: podem não registar uma distinção que os falantes fazem ou, pelo contrário, manter como sinónimas palavras que entretanto se especializaram. É, pois, ao uso que temos de perguntar.
      E aqui acontece uma coisa deliciosa. Nem sequer precisamos de sair do Observador. Em 31 de Janeiro deste ano, Maria Ramos Silva escrevia ali, a propósito da criadora de moda Maria Carlos Baptista: «Falamos com Maria Carlos Baptista, outrora bailarina [...] inspirada por duetos artísticos como o que uniu Yohji Yamamoto e a dançarina Pina Bausch». Bailarina e dançarina, portanto, no mesmo trecho — e dançarina aplicado precisamente a Pina Bausch. Oito meses depois, hoje, o mesmíssimo Observador noticia que a Câmara de Lisboa foi alertada para o «facto» de ter designado Pina Bausch como «dançarina», «em vez de bailarina». Afinal, em Janeiro, ninguém parece ter dado pelo erro. Nem doeu.
      Mas há melhor. Bruno Cochat foi coordenador dos Estúdios Victor Cordon. Pois são os próprios Estúdios Victor Cordon que apresentam Lewis Seivwright como «Bailarino, Professor», informam que «foi bailarino» na companhia alemã Tanzmainz e, logo na frase seguinte, escrevem: «Desde 2016, atua como dançarino freelancer». E, noutra página, apresentam Connor Scott, formado na Rambert School of Ballet and Contemporary Dance e vencedor do BBC Young Dancer Award, como «um dançarino e coreógrafo britânico».
     Não são casos isolados. O LEFFEST, por exemplo, encabeça a ficha biográfica do português Paulo Ribeiro com uma única palavra: «Dançarino». Logo a seguir, porém, informa-nos de que «foi em várias companhias belgas e francesas que fez carreira como bailarino». Pelos vistos, pode fazer-se carreira como bailarino e acabar numa ficha biográfica como dançarino sem que a língua portuguesa sofra dano de maior.
      Tudo isto não significa que bailarino e dançarino sejam sempre perfeitamente permutáveis. É bem possível — e a minha própria intuição de falante vai nesse sentido — que bailarino seja hoje, em Portugal, a designação profissional mais corrente e mais prestigiante, sobretudo em determinados meios da dança. Se o uso estabeleceu ou está a estabelecer alguma especialização entre os dois vocábulos, os dicionários deverão registá-la.
      O que os factos não permitem, pelo menos por enquanto, é proclamar que chamar «dançarina» a Pina Bausch constitui um erro clamoroso, muito menos uma daquelas subtilezas apenas reservadas aos iniciados. Os dicionários apresentam «bailarino» e «dançarino» como sinónimos; o uso acolhe ambas as designações, chegando a aplicá-las à mesma pessoa no mesmo texto; o próprio Observador chamou «dançarina» a Pina Bausch; e até os Estúdios Victor Cordon, que Bruno Cochat coordenou («liderou», escreveria Joana Moreira), empregam «bailarino» e «dançarino» para designar o mesmo profissional.
      A Câmara tinha, aliás, uma razão muito simples para corrigir a placa: segundo esclareceu, a Comissão Municipal de Toponímia aprovara «Bailarina e Coreógrafa», e foi «Dançarina e Coreógrafa» que acabou por ser gravado. Houve, portanto, um erro. Mas talvez não tenha sido o erro que as redes sociais julgaram descobrir.

[Texto 23 592]


Etiquetas ,
edit

Definição: «Sírio»

Assim não


      Porto Editora: não deves continuar a grafar Sirius/Sírius, a estrela da constelação do Cão Maior, nos artigos enciclopédicos e Sírio nos dicionários. A grafia é só uma, a que Rebelo Gonçalves indica na página 946 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa. Toda a definição merece ser actualizada, assim ➠ Sírio ASTRONOMIA sistema estelar binário da constelação do Cão Maior, situado a cerca de 8,6 anos-luz da Terra, cuja componente principal, de cor branco-azulada e cerca de 25 vezes mais luminosa que o Sol, apresenta magnitude aparente de −1,46, sendo a estrela de maior brilho aparente do céu nocturno; também conhecido por Canícula.

[Texto 23 591]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: E por falar em Sírio, lembrei-me disto: «Por fim, 15 dias depois do Círio, chega o Recírio, a procissão de despedida que encerra oficialmente a festividade nazarena» («Fé e ecologia na metrópole da Amazónia», Fernando Félix, Além-Mar, Outubro de 2026, pp. 52-53). E nós aqui na ignorância. Proponho ➠ recírio Brasil RELIGIÃO procissão de encerramento de uma festividade religiosa, geralmente com o regresso da imagem do santo venerado.


Etiquetas ,
edit

Definição: «mónada»

Dois terços evolaram-se


      «Ninguém melhor do que a burguesia foi capaz de forjar uma história à altura das suas aspirações: uma história de grandes feitos e eventos. E, no entanto, como nos ensinou uma certa historiografia, talvez seja nos pequenos acontecimentos que cada época chega a revelar qualquer coisa de si mesma. Estes acontecimentos são simultaneamente fragmentos (ou estilhaços) e mónadas que parecem reflectir e guardar a totalidade de um universo histórico sempre inapreensível» («A praia: último destino da social-democracia», Pedro Levi Bismarck, «Ípsilon»/Público, 14.08.2026, p. 29). 
      A Porto Editora parece ter perdido pelo caminho cerca de dois terços do verbete «mónada», incluindo a acepção química — «átomo ou radical univalente» —, que já Cândido de Figueiredo registava há mais de um século e que hoje continua no Houaiss. Sendo assim, e tendo em consideração o que outros dicionários também registam, proponho ➠ mónada 1. FILOSOFIA entidade metafísica concebida como unidade simples e indivisível; 2. FILOSOFIA na filosofia antiga, especialmente na tradição pitagórica, unidade indivisível considerada princípio dos números e, em certas doutrinas, de toda a realidade; 3. FILOSOFIA na filosofia de Giordano Bruno, unidade metafísica indivisível, constitutiva de todas as coisas; 4. FILOSOFIA na filosofia de Leibniz, substância simples, inextensa e indivisível, dotada de percepção e actividade próprias, que constitui elemento fundamental da realidade e reflecte, segundo a sua perspectiva particular, a totalidade do Universo; 5. BIOLOGIA organismo unicelular diminuto e simples, especialmente um organismo flagelado; 6. BIOLOGIA, HISTÓRIA organismo primitivo ou unidade orgânica elementar hipotética; 7. GENÉTICA cromátide individual resultante da separação das cromátides de uma díade durante a meiose; 8. QUÍMICA átomo, ião ou radical de valência um. (Quanto à etimologia, vem do latim tardio monăde-, do grego monás, monádos, «unidade», de mónos, «só; único».)

[Texto 23 590]

Etiquetas ,
edit

Definição: «sanhaço | assanhaço | saí-açu»

Falemos disto


      «O sufixo já é interessante. Primeiro porque pode ser enganador. Nem toda palavra que termina com “aço” é parte da mesma família, digamos. Em algumas (como “sanhaço”) o que aparece é uma versão do tupi “açu”, que quer dizer “grande” e pode até ter tido um papel na popularização brasileira do uso do outro “aço”, derivado do latim “aceus”. (Aliás, é essa raiz latina que explica que a grafia “correta” do sufixo seja com cedilha.)» («Língua não respeita nenhuma fronteira», Caetano W. Galindo, Folha de S. Paulo, 24.09.2026, p. A50). 
      Vejamos: a Porto Editora regista «sanhaço», «assanhaço» e «saí-açu», mas com vários problemas: 1. «sanhaço» não está marcado como brasileirismo; 2. «assanhaço» recebe apenas a marca genérica «Brasil, regionalismo», sem a localização mais precisa em Sergipe; 3. «saí-açu» reúne numa única definição usos que o Houaiss distingue: duas denominações específicas e, na Amazónia, o emprego como sinónimo de «sanhaço»; 4. o tratamento etimológico é incompleto: «saí-açu» não tem etimologia e «sanhaço/assanhaço» apresentam-na sem análise dos constituintes; 5. «assanhaço» mantém a classificação taxonómica ultrapassada nos Emberizídeos. 
      Sendo assim, proponho ➠ sanhaço Brasil ORNITOLOGIA designação comum a diversas aves passeriformes da família dos Traupídeos, especialmente dos géneros Thraupis e Stephanophorus, de plumagem geralmente cinzento-azulada ou esverdeada | assanhaço Brasil Sergipe, ORNITOLOGIA o mesmo que sanhaço | saí-açu Brasil ORNITOLOGIA 1. o mesmo que saíra-sapucaia (Tangara peruviana); 2. o mesmo que saíra-negaça (Tangara punctata); 3. Amazónia o mesmo que sanhaço. (Quanto à etimologia, comum aos três, é do tupi antigo as’iûasu, «saí grande», de sa’i, «saí» + ûasu, «grande».)

[Texto 23 589]

Etiquetas ,
edit

Definição: «mosquito-tigre-asiático»

Ah, as fêmeas, as fêmeas...


      «Trinta mil mosquitos machos estéreis vão ser libertados esta quinta-feira na freguesia lisboeta de Alvalade, numa primeira fase de um projeto experimental que tem como objetivo final reduzir a população do mosquito-tigre-asiático, explicou à agência Lusa um dos responsáveis. [...] O responsável explicou que os mosquitos libertados pertencem à espécie “Aedes albopictus”, conhecida como mosquito-tigre-asiático, e que, “por serem machos”, não picam, uma vez que só as fêmeas precisam de sangue» («Trinta mil mosquitos estéreis à solta em Lisboa. Objetivo: reduzir população do mosquito-tigre-asiático», Rádio Renascença, 24.09.2026, 10h14). 
      Se assim é, e é, e dado que a definição da Porto Editora salienta a importância do mosquito para a saúde pública e a transmissão de doenças, não vejo razão para omitir que só as fêmeas são hematófagas e, portanto, só elas picam e podem transmitir os agentes patogénicos. Por outro lado, ao contrário do que a definição diz, a espécie é nativa de regiões tropicais e subtropicais do Sudeste Asiático, mas hoje encontra-se largamente disseminada. Tudo visto, proponho ➠ mosquito-tigre-asiático ZOOLOGIA (Aedes albopictus) mosquito da família dos Culicídeos, originário da Ásia, actualmente disseminado por regiões tropicais, subtropicais e temperadas, de coloração negra com marcas brancas e uma característica faixa longitudinal branca no tórax; as fêmeas são hematófagas e podem actuar como vectores de vírus causadores de doenças como a dengue, a chicungunha, a febre-amarela e a zica. (De mosquito + tigre + asiático, sendo tigre alusivo às marcas brancas sobre o corpo negro do insecto e asiático à sua região de origem.)

[Texto 23 588]

Etiquetas ,
edit

Como se traduz por aí

Mais simples e mais... português


      «Eu e a Cora decidimos ir de carro até um parque um pouco mais periférico para evitar que as outras mães oiçam a nossa conversa. Procuramos um banco com uma boa vista para a estrutura de jogo e deixamos os rapazes ir à sua vida» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 80). 
      É praticamente a play structure do original sem tirar nem pôr. O problema é que não o dizemos assim. Seria mais isto: «A Cora e eu decidimos ir de carro até um parque infantil um pouco mais afastado, para evitar que as outras mães escutem a nossa conversa. Encontramos um banco de onde se vê bem o equipamento do parque e soltamos os rapazes para irem à sua vida.» Sim, é mesmo «soltamos», release the boys, como se fossem cães. É a graça do original.

[Texto 23 587]

Etiquetas ,
edit

Como se escreve por aí

Veja os episódios passados


      «Mais de 540 mil proprietários já identificaram, delimitaram e registaram terrenos rústicos na plataforma BUPi (Balcão Único do Prédio). No entanto, ainda faltam georreferenciar mais de 4,8 milhões de matrizes das 8,45 milhões registadas na Autoridade Tributária» («Falta identificar 4,8 milhões de terrenos», Edgar Nascimento, Correio da Manhã, 22.09.2026, p. 8). 
      Numa só frase, dois erros graves. Bem, se quiser saber como devia ter escrito, Edgar Nascimento, veja para trás no blogue. Ainda um dia lançam uma petição para a gramática acomodar e permitir todos estes erros, sobretudo os que eles, jornalistas, dão, porque os erros dos outros não merecem tal contemplação.

[Texto 23 586]

Etiquetas ,
edit

Definição: «zooterapia | zooterapêutica»

Ordem na casa


      «Malgré un tel bénéfice souligné par les professionnels, en dépit de son essor ces dernières années et bien qu'elle touche des domaines importants comme la thérapie, le confort des seniors ou le bien-être animal, la zoothérapie n’est pas réglementée en France – elle l’est par exemple en Italie et en Allemagne» («Grand âge: La zoothérapie pour reprendre du poil de la bête», Guillaume Tion, Libération, 22.09.2026, p. 19). 
      Quando desembocamos no verbete «zooterapia» do dicionário da Porto Editora, contudo, somos remetidos directamente para «zooterapêutica», e aqui deparamo-nos com esta definição, por assim dizer: «terapêutica dos animais; zooterapia; veterinária». Se não é, parece uma salgalhada. 
      Tratemos primeiro de ➠ zooterapia 1. tratamento das doenças dos animais; zooterapêutica; 2. utilização de animais como auxiliares num processo terapêutico destinado a promover ou melhorar a saúde física, psicológica ou social de uma pessoa; terapia assistida por animais; 3. ETNOZOOLOGIA utilização de animais, de partes do seu corpo ou de produtos deles provenientes para fins medicinais. Estes são os usos comprovadamente atestados em Portugal. 
      E definiria assim ➠ zooterapêutica ramo da terapêutica que se ocupa do tratamento das doenças dos animais.

[Texto 23 585]

Etiquetas ,
edit

Definição: «bateia»

Não é preciso exagerar


      «“Cada domingo subimos al río, ponemos los pies en el agua y desde el primer momento en que coges la cubeta, la llenas de grava y la agitas con agua, sientes unas cosquillas maravillosas por dentro”. Así es Carles, un abogado de 54 años que los fines de semana sube a la comarca de la Noguera, en Lérida, a buscar oro. [...] No ocurre así en Francia, donde la práctica está muy controlada para no dar paso a abusos. Según los expertos, si esta práctica se extendiese y se removiese masivamente los sedimentos de los ríos se acabaría por destruir los ecosistemas fluviales de forma permanente. En nuestro país, los practicantes de esta técnica de extracción todavía son escasos. En realidad, la razón para batear en busca de oro es una excusa para disfrutar de la naturaleza» («Buscadores de oro, de obsesión desesperada a una terapia antiestrés», Carlos Sala, ABC, 9.08.2026, p. 47).
      Em português, como sabem, o recipiente é bateia (tal como em castelhano é batea, mas o que temos ali é um advogado que faz disto o seu passatempo, não conhece a terminologia; mas também a não conhece o jornalista, que na legenda a uma imagem lhe chama tamiz) e o verbo também é batear. Na definição de «bateia», a Porto Editora não soube usar os travões: «recipiente de madeira ou outro material, geralmente redondo e de fundo cónico, utilizado em mineração de pequena escala, em que se lavam meticulosamente as areias sedimentares de cursos de água, agitando-as em repetidos movimentos circulares, de forma a obter, pela diferença de densidade entre os minérios metálicos e os restantes sedimentos, a separação de concentrados de metais preciosos como o ouro». Com tão extensa explicação, só faltou incluir as botas de borracha necessárias para entrar no rio. Assim, proponho ➠ bateia MINERAÇÃO recipiente largo e pouco fundo, usado na lavagem de sedimentos para separar e concentrar ouro ou outros minerais pesados.

[Texto 23 583]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «enócoa»

Não têm matéria-prima nacional


      Na página 11 da obra A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, está uma imagem de um fragmento de asa de jarro ou oenochoe de liga de cobre. Oenochoe é a forma erudita/internacional empregada na bibliografia arqueológica, mas em português, e também fora dos nossos dicionários, é ➠ enócoa ARQUEOLOGIA jarro de uma asa, usado na Antiguidade clássica, especialmente entre os Gregos, para verter e servir vinho. (Do grego oinokhóē, «jarro para vinho», de oînos, «vinho», + khéein, «verter».)

[Texto 23 582]

Etiquetas ,
edit

Definição: «escape»

Impulsos de energia


       Num excelente artigo do Instituto Português de Relojoaria, dou-me conta do muito que falta à definição de escape no dicionário da Porto Editora para se considerar esclarecedora e completa. Está assim: «num relógio mecânico, mecanismo que regula o movimento das engrenagens que definem a velocidade a que se movem os ponteiros». Dito assim, até faz parecer que a função essencial do escape é simplesmente regular as engrenagens e, indirectamente, a velocidade dos ponteiros. Na realidade, o escape tem duas funções estreitamente ligadas: transmite ao oscilador impulsos de energia para manter a sua oscilação e, comandado por esse oscilador, liberta periodicamente o movimento do trem de engrenagens. Assim, proponho ➠ escape num relógio mecânico, mecanismo que transmite impulsos de energia ao oscilador e permite o avanço periódico das engrenagens ao ritmo por este determinado.

[Texto 23 580]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «missionologia | missionológico»

Outro par acabado de desenfornar


      «A missão, que nasce em Deus, pertence, portanto, à natureza da Igreja. Permanecer em Cristo é participar no seu envio do anúncio do Reino, testemunhando o Evangelho na nossa terra e até aos confins do mundo. E, na actualidade, neste mundo complexo, a questão missionológica assume especial relevância, porque a geografia missionária mudou» («Com Cristo, unidos na missão», Bernardino Frutuoso, editorial, Além-Mar, Outubro de 2026, p. 5). 
      Fora dos dicionários; assim, proponho ➠ missionologia nome feminino RELIGIÃO disciplina que estuda as missões cristãs e a actividade missionária da Igreja, designadamente os seus fundamentos teológicos, história, princípios, métodos e formas de evangelização. | missionológico adjectivo RELIGIÃO relativo ou pertencente à missionologia ou à actividade missionária da Igreja.

[Texto 23 579]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «tirador»

Vamos resolver isto


      Coitados, mal pagos e fora dos dicionários: «Tiradores de cortiça começam a descascar sobreiros cada vez mais cedo para os proteger do calor» (O Mirante, 21.09.2026, 15h00). Mas podemos fazer alguma coisa, como isto ➠ tirador trabalhador especializado que extrai a cortiça dos sobreiros com uma machada própria.

[Texto 23 578]

Etiquetas ,
edit

Definição: «escorpião»

Máquina de guerra


      Nas Questões Naturais, Séneca, ao falar dos relâmpagos, compara as nuvens a máquinas de guerra, pois também as balistas e os escorpiões lançam os seus projécteis com estrondo. Ora, o dicionário da Porto Editora sobre estes escorpiões só diz que é a «antiga máquina de guerra que servia para atirar pedras». Dito assim, não parece diferir em nada de uma simples fisga. Tanta sucintez não pode nunca contribuir para deixar as coisas claras. Dependendo de como se encara, tanto pode estar errado como certo. Logo, é melhor definir-se assim ➠ escorpião HISTÓRIA MILITAR antiga máquina de guerra, usada sobretudo pelos Romanos, que utilizava a força de torsão de feixes de fibras para lançar projécteis; primitivamente, designava uma pequena peça de artilharia de dois braços, destinada sobretudo ao disparo de grandes setas ou virotes; na Antiguidade tardia, o nome foi também aplicado ao ónagro, máquina de um só braço destinada ao lançamento de pedras. 
      [Simile quiddam et illic fieri puta: nubium inter se compressarum angustiae medium spiritum eiciunt et hoc ipso inflammant ac tormenti modo emittunt; nam ballistae quoque scorpionesque tela cum sono expellunt.]

[Texto 23 577]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «missão reversa»

A propósito


      Quase o único uso do adjectivo «reverso» que vejo com alguma frequência está integrado na expressão «missão reversa». Com 240 clérigos estrangeiros de 37 nacionalidades convidados a preencher um vazio agravado por uma crise de vocações, não faltam ocasiões para falar em missão reversa. Assim, proponho ➠ missão reversa RELIGIÃO actividade missionária desenvolvida por igrejas ou missionários de regiões anteriormente evangelizadas, sobretudo de África, da Ásia e da América Latina, com o objectivo de evangelizar ou reevangelizar as populações de regiões tradicionalmente evangelizadoras, sobretudo da Europa e da América do Norte.

[Texto 23 576]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «pesquisa inversa»

Diz o janado do Clay


      «— Fiz uma pesquisa reversa de imagens — explicou o Clay. — Levou-me ao site da sua mulher» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 330). Tudo bem, no original está «reverse image search», mas a própria Google em português de Portugal explica que se pode «pesquisar no Google com uma imagem» e chama a isso «pesquisa inversa de imagens». Assim, proponho ➠ pesquisa inversa de imagens INFORMÁTICA pesquisa inversa efectuada a partir de uma imagem, para localizar na Internet ocorrências dessa imagem ou imagens semelhantes. Mas também há, e recorremos diariamente a ela, a mera ➠ pesquisa inversa INFORMÁTICA pesquisa em que se parte de um dado normalmente obtido como resultado para procurar a informação que lhe está associada.

[Texto 23 575]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «porta-garrafas»

Em muitas casas


      «Há cerca de uma dúzia de porta-garrafas encostados às paredes, a maioria cerca de três quartos cheios» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 215).

[Texto 23 574]

Etiquetas ,
edit

Definição: «histamina»

Por acaso não é


      «Chama-se histamina e é uma substância natural do corpo que actua como um neurotransmissor e neuromodulador no cérebro, estando envolvida em numerosos processos biológicos e fisiológicos. Agora, um estudo com mão portuguesa conclui que a histamina, habitualmente associada a alergias e ao sono, poderá desempenhar uma acção fulcral na regulação do estado cerebral, na saúde mental e no bom funcionamento emocional e cognitivo» («Cientistas criam o primeiro mapa integrado das histaminas no cérebro», Filipa Almeida Mendes, Público, 21.09.2026, p. 29). 

      Que a Porto Editora define assim: «QUÍMICA composto orgânico de carácter alcalino existente no corpo humano e nos tecidos animais, relacionado com algumas manifestações alérgicas, de aplicação terapêutica». Hum... «composto orgânico de carácter alcalino» é uma caracterização química excessivamente vaga. A histamina é, mais precisamente, uma amina biogénica, de fórmula C₅H₉N₃, formada no organismo por descarboxilação enzimática da histidina. E como é, tem de se dizer. Não é segredo. Não é o único problema, pelo que proponho ➠ histamina QUÍMICA, BIOQUÍMICA amina biogénica (C₅H₉N₃), formada no organismo por descarboxilação enzimática da histidina, que actua como mediador de diversos processos fisiológicos e patológicos, nomeadamente das respostas inflamatórias e alérgicas e da secreção gástrica, e como neurotransmissor no sistema nervoso central.

[Texto 23 573]

Etiquetas ,
edit

Como se escreve por aí

Critério seguido? Nenhum


      Em que ficamos, com maiúscula ou com minúscula? «À nossa frente erguia-se a costa de um país imenso e estranho, povoado por milhões de infiéis, uns que adoravam ídolos masculinos e femininos de corpos poderosos, alguns com feições animais, e outros que rezavam ao Deus sem rosto do Islão» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 14). «Existem ainda nas imediações [de Peshawar] várias estupas e outros restos arquitetónicos mas a religião desapareceu, suplantada pelo islão» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 28). Quando designa a religião, inequivocamente o caso, é com minúscula, é a convenção. Mas, como já demonstrei, os autores supostamente mais esclarecidos — e ateus ou agnósticos — é com maiúscula que escrevem sempre os nomes das religiões. Não é curioso? (E para quê «estupas» em itálico?)

[Texto 23 572]

Etiquetas ,
edit

Definição: «eclipse do Sol | eclipse da Lua»

Cá está o sagrado paralelismo


      «Um eclipse da Lua ocorre quando a Terra se encontra directamente entre o Sol e a Lua, projectando a sua sombra na superfície lunar. Este fenómeno ocorre apenas durante a fase de lua cheia e pode ser observado em segurança a olho nu, destaca uma publicação do Centro Ciência Viva de Constância, acrescentando que a Terra vai projectar uma sombra com duas zonas: a umbra (mais escura) e a penumbra (mais clara)» («Depois do Sol, vem aí um eclipse da Lua: a festa dos astros continua», Filipa Almeida Mendes, Público, 22.08.2026, p. 38). 
      Sendo assim, e tal como para a definição de eclipse do Sol não há razão, Porto Editora, para tanta sucintez. Assim, proponho ➠ eclipse do Sol ASTRONOMIA fenómeno em que a Lua se interpõe entre a Terra e o Sol, provocando a ocultação total ou parcial do disco solar para os observadores situados na zona de visibilidade do eclipse, e que só pode ocorrer durante a fase de lua nova | eclipse da Lua ASTRONOMIA fenómeno em que a Lua atravessa a sombra projectada pela Terra, ficando total ou parcialmente privada da luz directa do Sol, e que só pode ocorrer durante a fase de lua cheia.

[Texto 23 571]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Enquanto estavas de férias, Porto Editora, não faltaram artigos na imprensa da Península Ibérica sobre as condições em que ocorrem os eclipses da Lua e do Sol, pelo que não sei como não se mencionam nas definições.


Etiquetas ,
edit

Como se traduz por aí

Nem sequer parecia boa ideia


      «Para Nietzsche e Edward, é “fazer o que pensa” e não “pensar o que faz”. Um moto bastante perigoso, não acha, Julian?» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 157). No original, porém, a palavra é dictum, que não se traduz por «moto» (sentido, aliás, que em português não tem), mas por máxima. Logo: «Uma máxima perigosíssima, não acha, Julian?»

[Texto 23 570]

Etiquetas ,
edit

Definição: «disbiose»

Essa é só uma delas


      «A disbiose vaginal, foco principal das pesquisas sobre microbioma reprodutivo nos últimos anos, não mostrou associação consistente com nenhum dos desfechos avaliados» («Desequilíbrio de bactérias no sêmen está ligado a mais perdas gestacionais», Luana Lisboa, Folha de S. Paulo, 5.08.2026, p. A40). 
      Mas a Porto Editora acha que é só intestinal: «MEDICINA perturbação do equilíbrio da flora intestinal». O que defines, Porto Editora, é apenas a disbiose intestinal, não a disbiose em geral. Assim, proponho ➠ disbiose MEDICINA alteração desfavorável da composição, diversidade ou actividade funcional da comunidade microbiana presente num organismo ou em determinado local deste, relativamente ao estado considerado saudável ou equilibrado; desequilíbrio microbiano.

[Texto 23 569]

Etiquetas ,
edit

Definição: «falo»

Como uma pata de coelho


      Na página 99 da obra A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, está uma imagem de um phallus de liga de cobre. (Com apenas 33 mm, não temos aqui concorrência que se veja.) A primeira acepção de «falo» no dicionário da Porto Editora, com umas alterações, servirá: «representação do pénis em erecção como símbolo de fecundidade». Dois problemas: «em erecção» como condição absoluta não corresponde à realidade, pois há representações arqueologicamente classificadas como fálicas cuja morfologia não justifica que façamos da erecção um requisito lexicográfico. Por outro lado, «como símbolo de fecundidade» é demasiado restritivo, já que no mundo greco-romano, e particularmente entre os Romanos, o falo tinha frequentemente função apotropaica: protecção contra o mau-olhado, a inveja e outras influências maléficas. Assim, proponho ➠ falo 1. representação do pénis, geralmente em erecção, com valor simbólico, nomeadamente associada à fecundidade ou à protecção contra influências maléficas.

[Texto 23 568]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «descodificador»

Que ou aquele


      «Nasce em 1986 em Boone, na Carolina do Norte, filho de um militar que serviu no Exército durante a Guerra do Vietname e neto de um descodificador da Marinha durante a II Guerra Mundial. Nasce em 1986 em Boone, na Carolina do Norte, filho de um militar que serviu no Exército durante a Guerra do Vietname e neto de um descodificador da Marinha durante a II Guerra Mundial» («Dan Driscoll», Maria João Bourbon, «Revista E»/Expresso, 11.09.2026, p. 8). 
      Formalmente, fica abrangida pela primeira acepção de «descodificador» no dicionário da Porto Editora: «que ou aquele que descodifica». É, contudo, demasiado genérica para dar conta de um uso técnico e historicamente bem estabelecido: a pessoa que, em contexto militar ou de informações, decifra mensagens codificadas ou cifradas. Assim, proponho ➠ descodificador pessoa especializada em decifrar mensagens ou comunicações codificadas ou cifradas.

[Texto 23 567]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «massa puba»

De novo no Brasil


      «Dos indígenas, herdamos a mandioca e seus derivados: a tapioca, o beiju, a massa puba. Dos povos africanos, nos apropriamos de ingredientes como o leite de coco e o azeite de dendê. Já a matriz portuguesa nos trouxe o hábito de comer pão de trigo, laticínios e ovos» («Por que chamamos a 1ª refeição de café da manhã?», David Lucena, Folha de S. Paulo, 18.09.2026, p. C11). 
      Os nossos dicionários não a registam, pelo que proponho ➠ massa puba Brasil CULINÁRIA massa de mandioca obtida pela fermentação das raízes em água, usada na preparação de bolos e outros alimentos; o m. q. puba, carimã.

[Texto 23 566]

Etiquetas ,
edit

Léxico: «orgonite»

Porque nem tudo está mal


«— Então e o meu cristal de orgonite? — A minha pirâmide de orgonite é um gerador de energia positiva que mantenho na mesa de cabeceira. — Guardaste isso?» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 24). 
      Não vamos deixar desamparados os leitores desta obra, pois não, Porto Editora? Coitados, são todos tão boas pessoas. Pelo menos vistos daqui. Assim, proponho ➠ orgonite nome feminino material composto geralmente por resina e partículas metálicas, muitas vezes com cristais de quartzo ou outros minerais incorporados, ao qual, segundo uma crença sem fundamento científico, se atribui a capacidade de captar e transformar a chamada energia orgónica. (Do inglês orgonite, termo criado no início da década de 1990 pelo austríaco Karl Hans Welz, de orgone, «orgone; energia orgónica».)

[Texto 23 565]

Etiquetas ,
edit

Definição: «sinópia»

Já se sabe mais


      «É com estes três ingredientes que se faz uma pintura mural a fresco. Primeiro, pica-se a estrutura inicial para ter aderência, mistura-se duas porções de areia e uma de cal, aplica-se na área que se quer pintar, e faz-se um primeiro esboço com sinópia, um pigmento avermelhado (arriccio). No dia seguinte, é feita uma nova mistura, com uma porção de areia para duas de cal, aplicada apenas na área a concluir no próprio dia. É nessa segunda camada de reboco (intonaco) que é feito o desenho preparatório, mais minucioso, assim como a aplicação dos pigmentos, através de velaturas, como uma aguarela. Tudo enquanto o reboco ainda está fresco, daí o nome da técnica» («Nas igrejas do Alentejo, estamos ao fresco entre frescos», Mara Gonçalves, «Fugas»/Público, 15.08.2026, p. 9). 
      Isso mesmo, sinópia, que a Porto Editora define assim: «1. PINTURA pigmento de tom avermelhado, obtido a partir de um tipo de argila oriundo da região de Sinope (Turquia), usado no passado sobretudo para delinear o esboço preparatório de um fresco directamente na primeira camada do suporte a decorar; 2. PINTURA esboço preparatório de um fresco, feito directamente na primeira camada do suporte a decorar». Não me perguntem porque está «fresco» em itálico. A definição contém erros, como os contém o texto do jornal. Como o jornal é incorrigível, concentremo-nos no dicionário. Ora, já Teofrasto situava na Capadócia a extracção desta terra vermelha, sendo Sinope apenas o entreposto por onde era comercializada, facto corroborado recentemente pela arqueóloga Dominique Kassab Tezgör no estudo «From the Miltos / Sinopis of Ancient Sinope to the Yoşa of Modern Cappadocia» (2022). 
      Tudo ponderado, e há muito para ponderar, proponho ➠ sinópia 1. PINTURA terra vermelha rica em óxidos de ferro, usada como pigmento desde a Antiguidade, originalmente proveniente da Capadócia e comercializada através de Sinope, cidade do mar Negro, cujo nome passou posteriormente a designar pigmentos semelhantes de outras proveniências; 2. PINTURA desenho preparatório de uma pintura a fresco, geralmente executado com esse pigmento sobre o emboço, antes da aplicação do reboco destinado a receber a pintura.

[Texto 23 564]

Etiquetas ,
edit

Etimologia: «almôndega»

Ainda no domínio da comezaina


      «Aquella primera edición, la conocida como Diccionario de autoridades, indicaba varias posibles etimologías de albóndiga. Con el tiempo, la RAE se ha quedado con albúnduga, del árabe hispánico, procedente a su vez del árabe clásico bundugah, y este del griego (káryon) pontikón ‘(nuez) póntica’, por similitud en la forma» («Ojo con las almóndigas», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 19.09.2026, p. 14).
      Ora, o dicionário da Porto Editora, tal como outros, indica que a etimologia de «almôndega» é «do árabe al-bundqâ, “bola; bolinha”». Ou seja, dá como significado próprio do étimo aquilo que parece ser já um desenvolvimento semântico. Assim, proponho ➠ do árabe al-bunduqa, «avelã; bolinha», do árabe clássico bunduqah, «avelã», por sua vez do grego [káryon] pontikón, «[noz] pôntica».

[Texto 23 563]

Etiquetas ,
edit

Arquivo do blogue