Como se escreve por aí

Valha-nos Deus...


      Ao que isto chegou, esta forma de escrever: «Justiça coloca à solta cabecilha do PCC e a mulher» (Magali Pinto, Correio da Manhã, 28.05.2026, p. 14).

[Texto 23 132]

Chega de inglês

Assim está bem

      «Putin, que está a ser pressionado para entregar Edward Snowden, lembrou que o seu país não tem acordo de extradição com os EUA e disse que “quanto mais cedo” o delator escolher o seu destino, melhor» («Putin afasta expulsão mas quer Snowden fora do país», Susana Salvador, Diário de Notícias, 26.06.2013, p. 24).
      Assim está bem, e não, como preferem (!) no Público, ou pelo menos escreveram uma vez, whistleblower. Até parece mentira como se escreve assim em jornais portugueses.
[Texto 3023]

Galochas para morrer

Calçado para a morte

     «Do Reino Unido vêm também as galochas Hunter. Criadas em 1856 por Lee Norris, um empresário do ramo da borracha que prosperou com a venda destas galochas aos soldados que morriam nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial» («Ferramentas de trabalho que se tornaram marcas de luxo», Joana Emídio Marques, Diário de Notícias, 24.06.2013, p. 48).
      Apenas os que prometessem morrer nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial é que podiam comprar estas galochas, é isso?
[Texto 3021]

Outra na moda: «icónico»

Mas há alternativas

     «Só o logótipo [da Hèrmes] evoca essas origens humildes da marca que mais tarde criou objetos icónicos como as malas Birkin e Kelly» («Ferramentas de trabalho que se tornaram marcas de luxo», Joana Emídio Marques, Diário de Notícias, 24.06.2013, p. 48).
      «Esta fatalidade [morte do piloto dinamarquês Allan Simonsen [1978-2013)] veio ensombrar a 81.ª edição desta prova emblemática» («Perder a vida em Le Mans na sua corrida favorita», Diário de Notícias, 24.06.2013, p. 43).
[Texto 3020]

Inglês, sempre que podem

Já a minha avó dizia

 

      «A Corticeira Amorim e a vidreira americana Owens-Illinois (O-I), líderes mundiais nos respectivos sectores, acabam de apresentar ao mercado global uma solução com a qual pensam acabar com a discussão entre a utilização da tradicional rolha de cortiça ou, em alternativa, das modernas tampas de rosca metálicas (popularizadas pelo termo inglês screwcap) no engarrafamento de vinhos» («Amorim cria rolha com rosca para ganhar mercado às tampas metálicas», José Augusto Moreira, Público, 18.06.2013, p. 21).
      A propósito ou a despropósito, os jornalistas gostam de enfiar um ou dois termos ingleses no meio da prosa que vão produzindo. Salvo melhor opinião, ao leitor não interessa que tampa de rosca se diga screwcap em inglês. Ou é só porque está envolvida uma empresa norte-americana, a Owens-Illinois, aliás, a O-I? Popularizadas, francamente.

[Texto 2985]

Depois do «ayatollah» o «hodjatolislam»

Quase um curso de Teologia

      «Nascido numa família de opositores ao Xá, Rouhani estudou Teologia em Qom, mas fez o doutoramento em Direito na universidade de Glasgow, na Escócia. Grande apoiante do ayatollah Khomeini, o hodjatolislam – abaixo de ayatollah na hierarquia do clero xiita – chegou a ser preso por criticar o xá e defender os ideias da Revolução Islâmica em 1979» («Um ‘xeque diplomata’ para levar moderação ao Irão», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 16.06.2013, p. 33).
      Hodjatolislam. Esta é nova, pelo menos para mim. Quanto ao mais, a jornalista não sabe bem onde há-de usar as maiúsculas, e por isso nem sempre acerta.
[Texto 2979]

«Sobre/sob»

Do lado contrário

      «E uma das formas de perpetuar as pequenas e grandes histórias surge quase sempre sobre o manto de uma lenda» (Histórias Assim Mesmo, Mafalda Lopes da Costa. Antena 1, 7.06.2011).
      Mais um erro lamentável e, para agravar, desses em que só os mais descuidados incorrem. Na rádio não se usará, mas Mafalda Lopes da Costa precisa de dar a ler a alguém — o ideal seria um revisor — os textos que escreve. Revelaria, porque decerto já por aqui passou e está ciente dos erros que dá, inteligência e respeito pelo ouvinte.
     «Duvide-se emb’ora da conveniência de facultar assim, a anónymos, a calúmnia, sob o manto da irresponsabilidade; de incutir no ânimo dos povos que o rei constitucional não depositasse plena fé na lealdade de ministros a quem taes investigações competiam: de lançar na mente régia indevidos germes de suspeitas» (Tributo á Memória de Sua Majestade Fidelissima o Senhor Dom Pedro Quinto, o Muito Amado, António e José Feliciano de Castilho. Rio de Janeiro: Eduardo & Henrique Laemmert, 1862, p. 47).

[Texto 131]

Notas de rodapé

Critérios mais que discutíveis


      «Não foram encontrados danos cerebrais, nem foi detectada nenhuma doença do sistema nervoso central ou alguma anomalia ao nível do estatuto dos cromossomas» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 141).
      Acharam imprescindível uma nota ao nome do poeta «Archilochos» (não, não me parece necessário consultar os Índices de Nomes Próprios Gregos e Latinos para acertar), mas já quanto a «estatuto dos cromossomas», julgam que todos os leitores conhecem. Estão bem enganados.

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