Como se escreve por aí

Afinal não podia ser


      «A CMTV entrevista André Ventura, na vigésima-oitava entrevista do líder do Chega a uma televisão portuguesa este ano» («E para beber, prefere branco ou extinto?», Miguel Somsen, «Versa»/Nascer do Sol, 18.09.2026, p. 47). Só parei nas páginas desta rubrica porque me parecia ver Luiz Pacheco na fotografia do autor. Sim, eu sei que ele morreu vai fazer vinte anos. Afinal, era Miguel Somsen. E Luiz Pacheco não dava estes erros. Até porque foi também revisor. Quando é que se aprende de uma vez por todas que os ordinais não levam hífen? É «vigésima oitava», como também é «centésima quarta», «milésima primeira» e assim todos sem excepção. O texto padece de muitos outros erros, sobretudo de ortografia («contra ataque», «pequeno almoço», «Belas Artes», «ideias-feitas», «mal-vistas») e de pontuação, mas nada que mais dez ou vinte anos de crónicas com algum estudo pelo meio não resolvam.

[Texto 23 552]

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P. S.: Detesto ver os nomes de televisões e de rádios em itálico. Isso não faz sentido. Claro que é imposição do livro de estilo da casa, de que o autor não tem culpa. Mas como é que lhe alteram isto no texto e não lhe corrigem os erros? Ah, pois.


Como se escreve nos jornais

Não se faz assim


      «Paralelamente a estas, existe uma variada comunidade de passeriformes, como o rouxinol-dos-caniços-comum ou o rouxinol-grande-dos-caniços durante a época de reprodução, ou o rouxinol-de-garganta-azul durante o período de Inverno» («Nenúfar-mexicano esverdece o Guadiana entre Badajoz e fronteira portuguesa», Carlos Dias, Público, 5.09.2026, p. 18). 
      A fonte espanhola do jornalista poderá ter sido o «Estudio de viabilidad de métodos para el control y eliminación del nenúfar mejicano (Nymphaea mexicana Zucc.) en el río Guadiana a su paso por Badajoz», elaborado para a Confederación Hidrográfica del Guadiana. Só que os dois nomes assinalados terão sido criados na tradução/adaptação para o artigo do jornal, e não retirados da nomenclatura ornitológica portuguesa, como devia ter sido. Era assim: «Paralelamente a estas, existe uma variada comunidade de passeriformes, como o rouxinol-dos-caniços ou o rouxinol-grande-dos-caniços durante a época de reprodução, ou o pisco-de-peito-azul durante o período de Inverno.»

[Texto 23 482]

Fim de século, fim-de-século, finissecular...

Em suma, ficamos a perder


      «Atrás do monumento, flutuando no ar cálido, via-se a silhueta do hotel Taj Mahal, enorme pastel, delírio de um Oriente fim-de-século, que como uma gigantesca bola não de sabão mas de pedra tivesse ido parar a um recanto de Bombaim» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 15). 
      Ai sim? Mas na ficha técnica juraram que «esta tradução segue o novo Acordo Ortográfico». A propósito, o dicionário da Porto Editora não o regista, mas tem (e temos) o adjectivo «finissecular», sempre preferível, e que é o termo usado por Octavio Paz. O Houaiss, contudo, regista-o como locução (que é) e o VOLP da Academia Brasileira de Letras como adjectivo de 2 géneros e 2 números, mas isso é porque os académicos estavam a dormir, ou então foi o informático que decidiu mostrar que também tem opinião, que, sabemos agora, mais valia guardar para si e para sempre. 
      Mas nem tudo são ganhos: o Houaiss distingue três acepções em «fim de século», ao passo que a Porto Editora só regista uma em «finissecular».

[Texto 23 439]

Léxico: «siflante»

Devem pensar que é só francês


      «Não te vaes d’aqui, não te has-de ir d’aqui, murmurava-lhe ao ouvido. Todo o seu esforço era para apanhar-lhe a cara; tinha a respiração sifflante, e um tumulto de sangue turgecera-lhe as cordovêas do pescoço» (A Ruiva, Fialho de Almeida. Porto: Ernesto Chardron, 1881, p. 48). 
      O que é de morrer a rir é, em reedições modernas, aparecer «sifflante», com a grafia de então — e grafado em itálico. Mas também vejo aqui outros culpados, pois o termo não aparece nos nossos dicionários. Ora esta...

[Texto 23 406]

Têm nome específico

Que são quatro


      «Só numa semana, até chegarmos ao atrelado, ficámos a saber que Luís Neves contratou um empreiteiro que faz obras em edifícios da PJ para obras particulares; que esse empreiteiro vive a 550 quilómetros e tem um longo historial de falências; que não há comprovativo dos únicos cinco mil euros que alegadamente pagou após dois anos de obras; que não tinha contrato, nem orçamento; que chamou tanque a uma piscina que nunca licenciou; que as obras não são apenas num monte, mas em dois; que incumpriu o dever de exclusividade enquanto director da PJ e não declarou a empresa da mulher; que as contas dessa empresa têm contabilidade criativa e que uns barrotes das Infra-Estruturas de Portugal acabaram no seu monte transformados em mesa e bancos» («Crime? Mas como, se o monte é tão pindérico?», João Miguel Tavares, Público, 19.07.2026, p. 48).
      Barrotes? Noutros jornais, são «vigas de comboios», «traves», «madeira», «placas de madeira»... Têm pelo menos quatro nomes: travessas, dormentes, sulipas, chulipas.

[Texto 23 309]

Como se pontua por aí

São melhores a fazer almôndegas


      «Nem tudo o que parece caro, é», anuncia aí pelos múpis a IKEA. Ai, IKEA, valha-me Deus, essa pontuação... Åh, IKEA, gode Gud, den där interpunktionen... Oh mulher, então tu não sabes que não se pode separar com vírgula o sujeito do predicado se a frase estiver na ordem directa e não houver complementos pelo meio? Men snälla du, vet du inte att man inte får sätta ett komma mellan subjekt och predikat när meningen står i rak ordföljd och inget skiljer dem åt? Não despeças ninguém. Aprende gramática. Sparka ingen. Lär dig grammatik.

[Texto 23 303]

Como se reedita por aí

Eu não agradeço


      Então, vamos lá a ver: se na lista dos nomes femininos admitidos ainda hoje, Julho de 2026, encontramos Lauriana, por que motivo nas edições modernas da obra A Ruiva, de Fialho de Almeida, o transmutam para Laureana?

[Texto 23 282]


Como se escreve por aí

Descontraia, relaxe


      «Se era normal o choro dos congressistas sociais-democratas em transe pelo Chega ter votado contra depois da “negociação”, já totalmente absurda foi a intervenção da ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho» («Em Sangalhos, um PSD em frangalhos», Ana Sá Lopes, Público, 22.06.2026, p. 40). Descontraia, Ana Sá Lopes, não fique tensa: «em transe por o Chega». Assim é que é. Miguel Relvas diria o mesmo de mim: devem ver as minhas críticas como uma assessoria gratuita.

[Texto 23 192]

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