Como se traduz por aí

Com o complicómetro ligado


      «Olhou para o relógio quando parou na escada rolante da estação de Oxford Circus. Dez minutos para o comboio partir. Um artista de rua estava a cantar Driving Home for Christmas e Roz pensou na ideia de ver o rosto da neta que estava prestes a chegar. E no que o rosto de Heather faria se Roz perdesse o comboio» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa. Guerra & Paz, 2023, p. 21). 
      Quando ligam o complicómetro, o que temos? O original é lhano e simples: «A busker sang ‘Driving Home for Christmas’, and she thought of seeing her new granddaughter’s face. And what Heather’s face would do if Roz missed the train.» Ou seja: «Um músico de rua cantava Driving Home for Christmas, e Roz pensou em ver o rosto da sua nova neta. E na cara de Heather se perdesse o comboio.» 

[Texto 23 688]

Como se fala na rádio

Estamos tramados


      «João Pinheiro [presidente da Associação de Alojamento Local], boa tarde, bem-vindo ao Portugal em Directo. Desculpe-me a expressão popular, quase a roçar o grosseiro: está aqui um problema do arco-da-velha [disse o jornalista Nuno Amaral, da Antena 1].» Uns minutos antes já tinha falado na «caída a pique» no número de passageiros e de dormidas desde a saída da Ryanair dos Açores.

[Texto 23 648]

Como se escreve por aí

Apre!


      «Como sempre, o estacionamento estava descontrolado na escola de karaté, que fica num centro comercial partilhado por cerca de uma dúzia de outras lojas» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 16). 
      Nós falamos assim? Eu não falo. «Como sempre, o estacionamento era um caos na escola de karaté, que fica num pequeno complexo comercial com cerca de uma dúzia de outras lojas.»

[Texto 23 645]

Como se escreve por aí

A maldição do itálico


      «Sempre achei que foi o destino que me fez esquecer a carteira naquele dia no Starbucks e que ele me pagasse o café» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 24). «Li na Internet que saquetas de chá podem ajudar, por isso pus uma em cada olho, mas não ajudou e espalhei chá por todo o lado» (p. 32). «Olho para o Mastercard na minha mão, confusa» (p. 59). «Ao fim da noite, estávamos ambos sempre um pouco ébrios, razão pela qual apanhávamos um Uber em ambos os sentidos, e, na viagem de regresso, dávamos uns amassos no banco de trás como adolescentes» (p. 65). «Seja como for, ainda não são bem horas de sair para a reunião, por isso pego no telemóvel e pesquiso no Google pelo nome “Veronica Chesson”» (p. 134). «A minha melhor amiga está sentada num pufe junto à minha cama» (p. 240). 
      Já agora, porque não?, também os nomes da tradutora e da revisora em itálico, tão nomes próprios como Uber, Starbucks, Mastercard, etc. O itálico não nasceu para isso, coitado. Não é como revisor que abomino isto, é como leitor.

[Texto 23 608]

Como se traduz por aí

Mais simples e mais... português


      «Eu e a Cora decidimos ir de carro até um parque um pouco mais periférico para evitar que as outras mães oiçam a nossa conversa. Procuramos um banco com uma boa vista para a estrutura de jogo e deixamos os rapazes ir à sua vida» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 80). 
      É praticamente a play structure do original sem tirar nem pôr. O problema é que não o dizemos assim. Seria mais isto: «A Cora e eu decidimos ir de carro até um parque infantil um pouco mais afastado, para evitar que as outras mães escutem a nossa conversa. Encontramos um banco de onde se vê bem o equipamento do parque e soltamos os rapazes para irem à sua vida.» Sim, é mesmo «soltamos», release the boys, como se fossem cães. É a graça do original.

[Texto 23 587]

Como se escreve por aí

Veja os episódios passados


      «Mais de 540 mil proprietários já identificaram, delimitaram e registaram terrenos rústicos na plataforma BUPi (Balcão Único do Prédio). No entanto, ainda faltam georreferenciar mais de 4,8 milhões de matrizes das 8,45 milhões registadas na Autoridade Tributária» («Falta identificar 4,8 milhões de terrenos», Edgar Nascimento, Correio da Manhã, 22.09.2026, p. 8). 
      Numa só frase, dois erros graves. Bem, se quiser saber como devia ter escrito, Edgar Nascimento, veja para trás no blogue. Ainda um dia lançam uma petição para a gramática acomodar e permitir todos estes erros, sobretudo os que eles, jornalistas, dão, porque os erros dos outros não merecem tal contemplação.

[Texto 23 586]

Como se escreve por aí

Critério seguido? Nenhum


      Em que ficamos, com maiúscula ou com minúscula? «À nossa frente erguia-se a costa de um país imenso e estranho, povoado por milhões de infiéis, uns que adoravam ídolos masculinos e femininos de corpos poderosos, alguns com feições animais, e outros que rezavam ao Deus sem rosto do Islão» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 14). «Existem ainda nas imediações [de Peshawar] várias estupas e outros restos arquitetónicos mas a religião desapareceu, suplantada pelo islão» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 28). Quando designa a religião, inequivocamente o caso, é com minúscula, é a convenção. Mas, como já demonstrei, os autores supostamente mais esclarecidos — e ateus ou agnósticos — é com maiúscula que escrevem sempre os nomes das religiões. Não é curioso? (E para quê «estupas» em itálico?)

[Texto 23 572]

Como se escreve por aí

Afinal não podia ser


      «A CMTV entrevista André Ventura, na vigésima-oitava entrevista do líder do Chega a uma televisão portuguesa este ano» («E para beber, prefere branco ou extinto?», Miguel Somsen, «Versa»/Nascer do Sol, 18.09.2026, p. 47). Só parei nas páginas desta rubrica porque me parecia ver Luiz Pacheco na fotografia do autor. Sim, eu sei que ele morreu vai fazer vinte anos. Afinal, era Miguel Somsen. E Luiz Pacheco não dava estes erros. Até porque foi também revisor. Quando é que se aprende de uma vez por todas que os ordinais não levam hífen? É «vigésima oitava», como também é «centésima quarta», «milésima primeira» e assim todos sem excepção. O texto padece de muitos outros erros, sobretudo de ortografia («contra ataque», «pequeno almoço», «Belas Artes», «ideias-feitas», «mal-vistas») e de pontuação, mas nada que mais dez ou vinte anos de crónicas com algum estudo pelo meio não resolvam.

[Texto 23 552]

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P. S.: Detesto ver os nomes de televisões e de rádios em itálico. Isso não faz sentido. Claro que é imposição do livro de estilo da casa, de que o autor não tem culpa. Mas como é que lhe alteram isto no texto e não lhe corrigem os erros? Ah, pois.


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