Definição: «intersexualidade»

Mais comum do que se pensa


      Num artigo recente no La Razón sobre um documentário dedicado à intersexualidade, lê-se que se trata de indivíduos «que nascem com características biológicas que não encaixam nas categorias tradicionais de masculino ou feminino», formulação que corresponde ao entendimento científico actual da questão e contrasta — chega a chocar, na verdade — com a definição de «intersexualidade» do dicionário da Porto Editora. No mesmo artigo, estima-se que cerca de 1 em cada 2000 nascimentos apresente variações das características sexuais, o que evidencia que não se trata de um fenómeno marginal, mas de uma realidade biológica com expressão mensurável. A definição da Porto Editora divide-se em duas acepções, ambas problemáticas. A primeira descreve a «qualidade do indivíduo de um sexo com características […] que o faz parecer do outro», o que reduz o fenómeno a uma questão de aparência ou de percepção externa, ignorando a sua base biológica. A segunda afirma que o indivíduo «inicia o seu desenvolvimento com um sexo e termina com outro», ideia que não encontra apoio na biologia contemporânea e reflecte antes concepções antigas, entretanto abandonadas e denunciadas no documentário (The Secret of Me) realizado por Grace Hughes-Hallett. Não há aqui duas acepções legítimas, mas duas tentativas de apreender um mesmo fenómeno. A própria estrutura da definição parece ainda ecoar concepções hoje ultrapassadas, associadas a uma visão desenvolvimentista e normalizadora do sexo — como a que foi defendida pelo psicólogo neozelandês John Money —, e que esteve na origem de práticas médicas hoje amplamente criticadas. 

      Impõe-se, por isso, uma reformulação que tenha em conta o conhecimento científico actual. Assim, proponho ➜ intersexualidade BIOLOGIA, MEDICINA condição caracterizada pela presença de variações nas características sexuais (cromossómicas, gonadais, hormonais ou anatómicas) que não correspondem às definições típicas de masculino ou feminino, podendo manifestar-se de diversas formas ao nascimento ou ao longo do desenvolvimento. 

      A questão é referida na literatura médica e em dicionários recentes com diferentes formulações («variações», «diferenças» ou «perturbações do desenvolvimento sexual»), correspondendo, em geral, ao inglês differences/disorders of sex development (DSD), e nunca aí se fala em aparência.

[Texto 22 687]

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P. S.: Já se deixa adivinhar que também a definição de «intersexo» padece dos mesmos problemas. E a solução é simples: alinhar a sua definição com a de «intersexualidade», descrevendo-a em termos de variações das características sexuais, e não como mera combinação de traços masculinos e femininos.


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