Definição: «antiteatro | teatro do absurdo»

Um erro absurdo


      No domingo, vi na RTP2 um filme italiano, Obrigado, Rapazes, do cineasta Riccardo Milani, de que gostei molto e tanto. Do que já não gostei nem um pouco foi dos erros na tradução. Ah, già, e come posso astrarre da ciò che sono, dalla mia natura e attività? Antonio Cerami, um actor na casa dos 60, não pisa o palco há mais de três anos. Vive do seu trabalho de locução de filmes porno. («Te piace, porcellona.») Um amigo da onça convida-o para ir dar uma oficina de teatro a uma penitenciária (Casa Circondariale – Nuovo Complesso – Velletri). E ele aceita. Aquilo corre bem, pelo que se oferece para dar uma formação mais longa e muito mais ambiciosa: escolhe À Espera de Godot, que fora precisamente a primeira peça em que ele entrara quando se tornou actor e na qual contracenara com o tal amigo. Ao apresentar a peça ao grupo de reclusos, diz, segundo as legendas: «À Espera de Godot é uma obra-prima do teatro absurdista.» E isto repete-se, outra personagem, um dos reclusos, fala também em «teatro absurdista». Que está errado em português, porque é teatro do absurdo, e em italiano, língua em que se diz teatro dell’assurdo. O termo «absurdista» existe em português, sim senhor, mas pertence ao domínio da Filosofia. Desta vez nem sabemos o nome do legendador/tradutor.

      Na Infopédia, encontramos «teatro do absurdo», mas logo por azar com um erro ortográfico («anti-teatro») e outro, mais grave, conceptual, que é o de apresentar o teatro do absurdo como sinónimo de antiteatro, quando aquele é somente uma das formas de antiteatro. Eu definiria assim ➜ antiteatro TEATRO conjunto de práticas e propostas cénicas que rejeitam ou subvertem deliberadamente as convenções estruturais e estéticas do teatro tradicional, como a intriga coerente, a progressão narrativa, a construção psicológica das personagens ou a ilusão de realidade, privilegiando formas fragmentárias, repetitivas ou não lineares e uma relação crítica com o próprio acto teatral; inclui diversas correntes e experiências do século XX, entre as quais o chamado teatro do absurdo.

      Quanto a ➜ teatro do absurdo TEATRO corrente dramática do século XX que, partindo de uma visão da existência humana como desprovida de sentido ou finalidade, recorre a estruturas não lineares, situações repetitivas, diálogos ilógicos ou circulares e personagens despojadas de profundidade psicológica, frequentemente colocadas em contextos estáticos ou absurdos; desenvolveu-se sobretudo na Europa do pós-guerra, em autores como Samuel Beckett, Eugène Ionesco ou Jean Genet, podendo ser entendido como uma das formas de antiteatro, mas não se confundindo com este.

[Texto 22 678]

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