A propósito de «Celtic»

Sabido, mas esquecido


      No sentido de «celta» ou «céltico», a pronúncia actualmente corrente é /ˈkeltɪk/. A pronúncia /ˈseltɪk/, historicamente anterior em inglês e hoje pouco usada nestas acepções, conserva-se sobretudo em nomes próprios, como Celtic Football Club. A pronúncia com /k/, difundida a partir do século XVIII e consolidada no século XIX por historiadores e linguistas, foi resultado da aproximação às formas antigas (grego Keltoí e latim Celtae), em que a consoante inicial se pronunciava /k/. isto mesmo, ou abreviado, se devia dizer no verbete Celtic do Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora. A apresentação actual, ao enumerar /ˈkeltɪk/ e /ˈseltɪk/ sem nenhuma indicação de uso, leva a supor que ambas são hoje igualmente correntes nas acepções «celta, céltico» e «ramo de línguas celta», o que não corresponde ao uso predominante. Seria conveniente manter ambas, mas distinguir a pronúncia moderna geral da variante histórica, actualmente conservada sobretudo em nomes próprios.

[Texto 23 381]

Pronúncia e etimologia: «horda»

Na verdade, acampamento


      Recomendo-te, Porto Editora, tendo em conta até o que ouvi hoje de manhã, que indiques a pronúncia da palavra «horda», que tem a vogal tónica aberta, como «corda». É uma indicação útil, já que não são raros os falantes que tendem a fechar o o por analogia com outras palavras. Vejo também que a nota etimológica pode ser melhorada: a glosa «guarda militar» é pouco rigorosa, pois orda significava antes «acampamento militar» ou «exército»; a origem é hoje geralmente enquadrada no domínio turco-mongol, e não apenas tártaro; a forma horda na língua de origem é discutível, uma vez que a proveniência do h- inicial permanece incerta; além disso, a nota omite a evolução semântica que conduziu do sentido original ao actual. 
      Assim, proponho ➠ do francês horde, «idem», do turco-mongol orda, «acampamento militar; exército», aparentado com o turco ordu, «exército».

[Texto 23 358]

Pronúncia: «chanceler»

Mas que raio...


      Então, lá vou ter de dizer isto mais uma vez: o que se passa para que muitos dos nossos jornalistas não saibam pronunciar correctamente a palavra «chanceler»? A última vez que sofreu uma sonora silabada foi pela boca da jornalista Sandra Sousa, no Jornal 2, da RTP2, na segunda-feira da semana passada. Mas qual é a dificuldade? E não ouvem os outros falantes?

[Texto 22 338]

Uma «direcção» esquisita

Vamos silenciá-la

     Para descansar da questão galega, fui à Decathlon, em Alfragide. Embora conheça o caminho de olhos fechados, liguei o GPS, um TomTom, porque a última vez que o usara não funcionava bem. A própria palavra «Decathlon» não sai muito escorreita da voz clara e bem audível de Joana, uma das vozes por que podemos optar, mas isso é o menos, desculpável até, pois trata-se de uma indicação secundária. Muito pior é não abrir a vogal de «direcção», muito longe de /dirɛsɐ̃w/, conforme transcrição fonética do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa. Faz impressão. A viagem já não corre bem. Não serão (diabos os levem) estragos causados pelo Acordo Ortográfico de 1990?

[Texto 3466]

Pronúncia: «Garrett»

Ninguém se mete com Garrett

      Na Antena 1, estão hoje a recordar o incêndio do Chiado, ocorrido em 1988. E como pronunciam o nome Garrett? Pois *Garré. Já aqui lembrámos que Garrett dizia que escrevia com dois tt para pelo menos lhe lerem um, mas a ironia não chegou a todos os ouvidos modernos.
      Escreveu Gonçalves Viana: «Se o nome fosse francês, que não é, nenhum francês, ao vê-lo escrito com dois tt finais, deixaria de pronunciá-lo gàréte [garréte]. A extravagante pronunciação garré é que não pertence a língua nenhuma conhecida, e só prima pelo ridícula que é.» E mais, acrescenta Gonçalves Viana, «o próprio poeta sempre pronunciou o seu apelido como se em português se escrevesse garréte, com a surdo na primeira sílaba, o acento tónico na 2.ª, e o t perfeitamente proferido. Assim lho ouvi eu várias vezes, assim o pronunciavam todos os seus contemporâneos».
[Texto 3204]

Ortografia: «taleigo»

Sem nenhum cuidado

      A repórter Teresa Marques, no Jornal da Tarde de ontem, esteve em Montemor-o-Novo para nos revelar mais um exagero em que somos pródigos: «O talego desceu e voltou a subir para se estudar a melhor forma de o apresentar ao mundo. [...] Gertrudes e Rosinda dedicaram mais de trezentas horas a este talego. [...] É provavelmente o maior talego do mundo e vai ser apresentado oficialmente a todos os que o quiserem ver no próximo sábado à noite no Largo de São Cristóvão.» No sítio da RTP, lá estava o título da notícia: «Montemor-o-Novo faz o maior talego do mundo.»
      A obrigação da jornalista era consultar um dicionário — e então ia ver que se escreve e diz «taleigo». A involuntária homenagem à pronúncia alentejana — a monotongação do ditongo ei em ê — ninguém lha agradece.

[Texto 3051]

Nada de Badajoz: Internet

¡Quítate de aquí!

      As autoridades do Equador descobriram um microfone escondido no gabinete da embaixadora em Londres, que funciona no edifício onde vive actualmente Julian Assange, o fundador da WikiLeaks. A repórter Marta Jorge disse no Jornal da Tarde de hoje: «Assange negou sempre as acusações, e alega que são uma desculpa para o extraditarem para outro país, para os Estados Unidos, onde é procurado por ter divulgado milhares de documentos confidenciais. Apesar da protecção de Assange ter ensombrado as relações do Equador com o Reino Unido, o Quito pede agora a cooperação britânica nas investigações.»
      Não se vê erro nenhum — nem, valha a verdade, acerto estrondoso que me forçasse a trazer a frase para aqui —­, não é assim? É porque não ouviram a repórter. Para Marta Jorge, o u articula-se, como se articula em «quacre», por exemplo. Podíamos fazer uma vaquinha para a repórter ir à capital do Equador e perceber como se pronuncia. Em tempos de crise, porém, uma bolsa de estudo de um dia em Badajoz já é suficiente. Lá, poderá comprar em qualquer loja uma embalagem de Detersolín, um bom quitamanchas.

[Texto 3050]

Pronúncia de «intoxicação»

Pronúncia intoxicada

      «O restaurante espanhol El Celler de Can Roca, de Girona, foi eleito o melhor do mundo. O restaurante catalão é gerido na sala e na cozinha por três irmãos e tem três estrelas no Guia Michelin. Foi premiado numa selecção dos 50 melhores restaurantes a nível internacional realizada pela conceituada revista britânica Restaurant. Nos últimos dois anos, ocupou a segunda posição. O restaurante Noma, da Dinamarca, que liderou a classificação nos últimos três anos, perdeu o lugar em Fevereiro quando 63 clientes sofreram uma intoxicação alimentar» (Carla Trafaria, Bom Dia Portugal, 30.04.2013).
      Já todos ouvimos a palavra «intoxicação» ser erradamente pronunciada, como se o x valesse ch e não ks (como em anexo, crucifixo, maxilar, prolixo...). Ora, desta vez, a jornalista optou por uma terceira forma: /intossicação/. Se a conhecerem pessoalmente, digam-lhe.
[Texto 2795]

Arquivo do blogue