Léxico: «ir no encalço de»

Mais uma


      «Mandou-o entregar o relógio – e à pessoa que estava com ele também – e um fio em ouro. Preparava-se para fugir e o empresário arrancou no seu encalce» («Empunha arma para carro antes de atropelamento mortal», Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 27.08.2026, p. 12). 
      Outra especialista em língua portuguesa... Que alguém lhe diga que a expressão é ir no encalço de.

[Texto 23 478]


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P. S.: Porto Editora, quando puderes, regista o plural Catostilídeos. E apaga «contrajanela» dos dois bilingues, isso não existe.


«Perder os nortes»

No plural, não conhecia

      «— Compreende... Estive fora uns pares de anos... Desgarrei-me, ou antes, perdi os nortes ao convívio...» (Um Minuto de Silêncio, João da Silva Correia. Lisboa: Publicações Europa-América, 1962, p. 263).
[Texto 3433]

«Ao fim e ao cabo»

Confundem tudo (porra?)

      Ora aqui temos nós um grande escritor a escrever «ao fim ao cabo», castelhanismo (boa noite, Fernando) agora já irremediavelmente enraizado. Mas espera: não é «ao fim ao cabo», é ao fim e ao cabo. Tresleram Vasco Botelho de Amaral, que recomendava que em vez desta expressão se usassem outras equivalentes em português, como ao fim, ao cabo, finalmente, por fim... Mas tem graça.
[Texto 3345]

«Idem, aspas»

Em toda a parte, pelo menos

      «Onde se levantasse arraial, era sabido, aparecia padre; onde cheirasse a desgraça idem, aspas. E assim é que devia ser porque a palavra de Deus tem de estar em toda a parte, pelo menos» (O Burro-em-Pé, José Cardoso Pires. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 2011, p. 65).
      É expressão que devia estar registada em todos os dicionários gerais da língua. Provavelmente, porém, não está em nenhum.
[Texto 3342]

«Devolver o bote»

Há sempre novidades

      «Foi bem ela, desta vez, quem falou: era a Teresa pronta a devolver o bote, a que esse imprudente acabara de despertar» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 152).
      Não conhecia. Devolver o bote é devolver a censura de que se foi alvo. Já ir no bote é deixar-se enganar.
[Texto 3325]

«Contradição em/nos termos»

Em termos linguísticos

      O autor terminou o raciocínio a pedir: «desculpem a contradição em termos». Já todos lemos dezenas de vezes a expressão «contradição em termos». E outras tantas «contradição nos termos», que me parece mais conforme à nossa língua. Aquela está mais colada ao inglês contradiction in terms. Sinónima é a expressão latina contradictio in adjecto. Literalmente, contradição no que se acrescenta.
      «Esta ideia é de tal forma inovadora que a primeira reacção é pensar que “verdade empírica necessária” é uma contradição nos termos» (Essencialismo Naturalizado: Aspectos da Metafísica da Modalidade, Desidério Murcho. Lisboa: Angelus Novus, 2002, p. 13).
[Texto 3255]

«Está bem, abelha»

Como quem manda à merda

      Acabei de ler a expressão, que não ouvia nem lia há muito, e lembrei-me que Cardoso Pires a usou várias vezes nas suas obras. «Sorriso maldoso do inspector. Óculos escuros é com ele, mas em tecnicolor polaroid. No entanto faz-se desentendido; pensa: Está bem, abelha. E recosta-se na cadeira. Tem a ordem de captura à mão de assinar mas quer ouvir primeiro, saber opiniões. Opiniões? Elias não há meio de entender por que diabo aparece o mangas da secretaria metido naqueles expedientes. Conselheiro chamado de aflição para os devidos efeitos?» (Balada da Praia dos Cães, José Cardoso Pires. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, 17.ª ed., p. 136).
[Texto 3171]

«A páginas tantas»

É uma condição

      O escritor Manuel Jorge Marmelo tem dois novos livros, ambos vendidos somente através da Internet. Porquê? O escritor explicou no Bom Dia Portugal de ontem: «Primeiro, por uma tentativa de chegar a novos públicos, uma vez que o livro, estando na Amazon, pode ser comprado por pessoas em qualquer parte do mundo, desde que falem português e leiam português.» E se só falarem e só lerem tagalo, por exemplo, não podem comprá-los? Claro, não era isto que queria dizer.
      A entrevistadora, que confunde escritor com narrador, perguntou-lhe: «Às páginas tantas, tu dizes que “ser um zero à esquerda, ter disso consciência, viver plenamente com essa circunstância é decerto o mais venturoso dos estados de alma”. Porquê?» Prefiro a páginas tantas, até porque também não digo «às páginas vinte e uma».
[Texto 3147]

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