«Apanhar/levar um bigode»

O diabo está nos pormenores

      «Mas todas as tapeçarias da série são um desafio à concentração do visitante do século XXI. O diabo está nos pormenores: cada tapeçaria [de Pastrana] é um amontoado de figuras humanas, lanças, armas, armaduras, embarcações, sem um centro aparente. Um bigode a quem pensa que vive numa era de excesso de informação» («O esplendor de Portugal para tempos de crise», Kathleen Gomes, «P2»/Público, 19.09.2011, p. 5).
      «O diabo está nos pormenores», admito, é um achado. Já quanto ao «bigode», muita coisa ficou no tinteiro: então não é apanhar ou levar um bigode, isto é, ficar derrotado, humilhado, que se diz?

[Texto 495]

«Mau como as cobras»

É sempre bom ver

      Mais uma daquelas expressões que se repetem em diversas línguas: «He was brilliant in battle and mean as a snake to everyone around him.» «Era um guerreiro brilhante, e mau como as cobras para todos os que o rodeavam.»
      «Fartavam-se, por exemplo, de esperar aqueles monarcas antigos, maus como as cobras, mas que deixaram tantas rasas de dobrões à Igreja que fechar-lhes a porta equivaleria a deitar abaixo todos os estatutos do penitológio romano» (Humildade Gloriosa, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, 1954, p. 307). (Ah, sim, e «penitológio», que os dicionários também não registam, é termo muito da predilecção de mestre Aquilino, ou não fosse ele ex-seminarista.)

[Texto 377]

«Deduzir acusação»

Induzir o parto

      «Resta ao Ministério Público “valorizar esses mesmos indícios e induzir a acusação ou, então, optar por arquivar o processo”. A actriz, que “não deverá ser ouvida pela PJ mais nenhuma vez”, vai agora ter de esperar “poucas semanas até que o processo esteja totalmente concluído”» («Sónia Brazão foi constituída arguida por crime de explosão», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 48).
      Então não é deduzir acusação, isto é, propor em juízo, que se diz? Quem sabe se a «fonte da PJ» não foi um porteiro. A locução de uso jurídico fez-me lembrar o comentário do leitor C. Ferreira a propósito do espúrio «colocar em perigo»: «Esta última locução tem, aliás, consagração normativa, v.g. no Código Penal, pelo que o seu uso pelo advogado referido não será despropositado.» Talvez tenha razão neste ponto, mas não apenas a lei «consagra» outras formas espúrias, como «implementação» e quejandos, como quem diz «colocar em perigo» também dirá «colocar o dedo no nariz», «colocar em fuga» e mais algumas dezenas de idiomatismos assim barbaramente desfigurados.
[Texto 350]

«Às mil maravilhas»

Mais um holicismo?

      «Elles riaient et visiblement s’entendaient à merveille.» O tradutor verteu como seria de esperar e está correcto: «Riam-se e era visível que se entendiam às mil maravilhas.» Em francês é, como se vê, à merveille; em castelhano, a maravilla. Escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Esquece-se, às vezes, que a correspondência formal não acompanha a correspondência semântica. Direi, pois, em parêntese, que o castelhano a maravilla traduz o francês à merveille, enquanto à las mil maravillas traduz em bom castelhano o fr. à ravir, em bom português às mil maravilhas» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 26). À maravilha, em português, é arcaísmo que não valerá a pena fazer revivescer.
[Texto 300]

«Tirar prazos»

Justiça medieval

      Nos tribunais brasileiros também se tiram prazos, sabiam? Ah, não sabem o que é tirar prazos... Estes métodos de trabalho irracionais, ineficazes, deixámo-los nós lá. Em alguns tribunais, cá e lá, de vez em quando, os funcionários judiciais retiram todos os processos pendentes — que estavam a aguardar o decurso de certo prazo, por exemplo, ou a acumular actos praticados pelos diferentes intervenientes — das estantes e armários para analisar o que é necessário fazer neles. E lá vão os processos em massa da sec­ção para o gabinete do juiz, onde ficam a aguardar despacho. É a esta actividade, que não se extinguiu com o advento da informática, que se dá o nome de tirar prazos.
[Texto 184]

«Ao deus-dará»

Não irá esquecer-se

      «O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) considerou ontem, em Fátima, que a lei que despenaliza a interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas tem sido administrada ao “Deus dará”» («Lei do aborto ao “Deus dará”, critica Igreja», Metro, 16.06.2011, p. 5).
      Até parece que D. José Policarpo invocou em vão o santo nome de Deus — mas não, a culpa é da revisora, Catarina Poderoso, que não sabe que se escreve «ao deus-dará». Agora já não vai esquecer-se.
      «A lei que despenaliza a interrupção da gravidez volta a ser alvo de críticas da Igreja Católica. “A lei não tem sido cumprida, tem sido facilitada, tem sido administrada um bocado ao deus-dará”, defendeu o cardeal-patriarca de Lisboa no final da Conferência Episcopal de três dias em Fátima» («Lei do aborto é aplicada “ao deus-dará”», Paula Carmo, Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 17).

[Texto 171]

Como se fala na televisão

É da emoção

      Bin Laden lá pagou o tributo à Natureza, e a jornalista Márcia Rodrigues, em directo da zona de embate nas Torres Gémeas para o Telejornal, viu pessoas que «foram pagar um tributo às vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001». Imagino que só os sobreviventes dos atentados tenham recebido o tributo... Cara Márcia Rodrigues, não confunda as coisas: pagar um tributo é pagar uma taxa ou imposto; prestar tributo é prestar homenagem.
[Post 4739]

Tradução: «by heart»

De cor

      Assim, humildemente, cumprem-se logo de uma assentada três das sete obras espirituais de misericórdia: dar bom conselho; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram. «Gael», lia-se no original, «knows these hypocrites off by heart.» Como era previsível, o tradutor verteu desta maneira: «Gael conhece estes hipócritas de cor.» Pergunto: alguém alguma vez ouviu ou leu a expressão referida a pessoas? Sim, by heart é habitualmente traduzido por de cor, mas decerto que é preciso pensar. De qualquer modo, de maneira geral, os falantes confundem de cor com de cor e salteado. Na tradução, não seria melhor usar a expressão de ginjeira? Coloquial também, significa conhecer muito bem e já há muito tempo. De cor conhecer-se-ão poemas, uma oração, uma carta recebida da nossa namorada (quando ainda se escreviam cartas), a primeira crítica num jornal, etc. De ginjeira conhecemos alguns dos nossos amigos, parte da nossa família, o fideputa do vizinho de cima, etc.
[Post 4708]

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