Género: «chiclete»

No lado errado do Atlântico


      «Catei por aí incontáveis referências elogiosas ao espectáculo que Bad Bunny apresentou no intervalo do Super Bowl. Tinha uma ideia de que o Super Bowl é a final do campeonato de futebol americano. Não tinha ideia de quem, ou do quê, é Bad Bunny. Dado que as referências falavam do tal espectáculo como um “momento histórico”, uma “revolução” e quiçá o ápice da humanidade desde a invenção do chiclete, resolvi investigar» («Bad Bunny, o fundo da toca», Alberto Gonçalves, Observador, 14.02.2026, 00h21).

      Julga, só por ter ouvidos, perceber de música. Já quanto à língua, é o que se vê: «chiclete» é do género feminino, «a chiclete». Portanto, devia ter investigado também os dicionários. Os demais erros («narco-tráfico»?!) ficam para outra ocasião.

[Texto 22 439]

«Ênfase» é feminino

Eu tenho um sonho

      A 28 de Agosto de 1963, faz hoje precisamente cinquenta anos, em Washington, Martin Luther King falava sobre o sonho americano e a igualdade de direitos dos negros. O Jornal da Tarde de hoje foi ouvir um jornalista, José Alberto Lemos, a propósito deste discurso: «Aquilo que se tornou célebre, que é a parte do “eu tenho um sonho, eu tenho um sonho”, são apenas os últimos quatro ou cinco minutos de discurso de 17 minutos em que Luther King improvisou. Portanto, isto não estava preparado, ele decidiu dar, digamos, um ênfase mais importante ao seu discurso no final justamente para sublinhar que aquilo que ele sonha é aquilo que a América ainda não concretizou.»
      Eu tenho um sonho: que um dia, em vez de nove em cada dez falantes que erram no género de «ênfase», ninguém erre ou erre apenas um em cada dez.
[Texto 3247]

«O Opus Dei»

É obra

      «Na comissão de oito sábios nomeada em Julho pelo Papa Francisco para limpar a estrutura económica e administrativa do Vaticano há apenas um italiano. Na verdade, uma italiana, uma jovem laica de 30 anos, especialista em relações públicas e ligada à Opus Dei, bonita e, surpreendentemente, com um historial de declarações bombásticas no Twitter sobre a política do Vaticano, até sobre o próprio secretário de Estado, que estão a causar escândalo na Santa Sé» («A conselheira do Papa Francisco que falava de mais no Twitter», Clara Barata, Público, 24.08.2013, p. 24).
      Há livros de estilo de certas publicações que lembram — e lembram muito bem — que Opus Dei é do género masculino. E a fala-barato (ou escreve-barato, o que sempre é melhor, porque basta não a lermos) da ítalo-marroquina não é assim tão bonita, cara Clara Barata. Enfim, depende da perspectiva. Do perfil. Ao longe, talvez. Karima El Mahroug, a Rubyzinha, que ia atirando Berlusconi para a prisão, é mais bonita. E não escreve.
[Texto 3231]

A dengue

Não quis saber

      Hoje ofereceram-me o Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo (Lisboa: Livraria Bertrand, 1945, 10.ª ed.). Lá está «dengue» (p. 434) registada como sendo do género feminino. O tal «sábio» estava mesmo enganado. Não se quis dar ao trabalho de pesquisar, foi o que foi.

[Texto 2197]

«Dengue», mais uma vez

Esqueçam isso

      «“O vírus tem quatro serotipos identificados. No caso da Madeira, revelou fortes semelhanças com o serotipo um que circula na Colômbia e na Venezuela. Todos os serotipos provocam febre do dengue, mas este aparentemente está associado a quadros mais benignos e ao surgimento de mais casos em menos tempo”, explicou ao DN Maria João Alves, responsável pelo Centro de Estudos de Vetores e Doenças Infecciosas do INSA» («Dengue na Madeira menos grave mas mais contagioso», Ana Maia, Diário de Notícias, 10.10.2012, p. 17).
      O tal «sábio» é que escrevia que só tinha encontrado o género feminino para a doença na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Já não seria pouco, mas não: Rebelo Gonçalves, na página 319 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista-o como feminino.
[Texto 2191]

«Dengue», de novo

Tudo na mesma

      Virgílio Nóbrega, jornalista da RTP Madeira, no Jornal da Tarde de ontem: «A população de mosquitos transmissores do dengue tem alastrado, mas, de acordo com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical, está controlada e monitorizada.»
      E se os jornalistas consultassem mais amiúde os dicionários, não seria bom? A palavra «dengue», na acepção da doença infecciosa, é do género feminino. Só do género feminino. Espera aí... eu já tinha escrito isto! Os jornalistas repetem os mesmos erros.
[Texto 2187]

«Dengue» é do género feminino

Dêem-lhes uso


      Jornalista Filipe Gonçalves, no Telejornal de ontem: «A noite cai em Santa Luzia e a calma contrasta com a agitação causada pelo mosquito. Foi nesta zona que em 2005 apareceram os primeiros casos. Agora é o dengue que tira o sono a muitos residentes.»
      E se os jornalistas consultassem mais amiúde os dicionários, não seria bom? A palavra «dengue», na acepção da doença infecciosa, é do género feminino. Só do género feminino.
[Texto 2183]

Género de «pitão»

Erro recorrente

      «No início dos anos 1970, os habitantes de Miami, na Florida, convenceram-se de que era muito cool ter uma pitão birmanesa em casa. Só que elas crescem...» («Maior pitão da Florida com 5,35 metros», Filomena Naves, Diário de Notícias, 15.08.2012, p. 27). 
      Já vimos mais de uma vez que «pitão» (ou píton), a serpente constritora, é do género masculino. Nem é preciso ser especialista em herpetologia — basta consultar um dicionário. Rebelo Gonçalves, na página 797 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista: «pitão, s. m.: género de répteis.» Aliás, seja qual for a acepção, é sempre do género masculino.
      Mas a jornalista continua: «Hoje haverá entre dezenas de milhar e centenas de milhar naquela região — ninguém sabe muito bem.»
[Texto 1975]

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