Prefixo «contra»

Está na hora

      «Alega José Rocha Quintal que “não seria de bom senso avançar para o julgamento sem esses elementos”. Mas há outras questões a ter em conta, até porque o advogado de defesa do jovem admite pedir “contra-perícias”. E se se esgotar o prazo de prisão preventiva? “Haverá essa possibilidade. O Luís teria de ser colocado em liberdade para enfrentar o julgamento”» («Atraso de exame pára julgamento», Paula Carmo, Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 16).
      A lógica deve ser esta: como é demasiado simples, deixam isso para os leitores. Não me parece bem, pois eu paguei o jornal — façam favor de escrever bem. Nos compostos formados com o prefixo «contra», só se emprega o hífen quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por vogal, h, r ou s.

[Texto 488]

Ortografia: «casa de banho»

Agora e sempre

      «Os motoristas da Carris enfrentam diariamente dificuldades para irem à casa-de-banho porque não existem instalações próprias nos terminais. Para contornar esta situação, a empresa estabeleceu protocolos com alguns cafés em troca de passes gratuitos» («Carris dá passes em troca de casas-de-banho», Marina Almeida, Diário de Notícias, 22.07.2011, p. 21).
      Há quem pense que é preciso aderir às novas normas ortográficas para nos vermos livres desta palermice (só de pensar que têm o aval de pares meus me arrepia) dos hífenes em vocábulos como este. Ora, isto nunca teve pés nem cabeça.
[Texto 340]

Prefixo «anti-»

Tudo de uma vez

      Há anos que ando a avisar que o prefixo anti- é seguido de hífen somente se o elemento seguinte começar por h, i, r ou s. Salvo em relação a nomes próprios, um caso que também já tratei, não há excepções. Só é de espantar quando o erro aparece em livros revistos (mal, claro). Nos jornais, só vai sendo de admirar quando acertam. No exemplo, triplamente: «Newt Gingrich: “A Administração Obama é antiemprego, antiempresas, antienergia americana”» («Barack Obama foi o alvo e Portugal entrou no debate dos candidatos republicanos», Kathleen Gomes, Público, 15.06.2011, p. 14).

[Texto 177]

Prefixo «co-» e hífen

Caos

      «A co-evolução do parasita e do hospedeiro, cada um dos quais fornece um ambiente em rápida mudança para a evolução do outro, requer um tipo de resposta especial e rápida, que o sexo pode proporcionar» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 51).
      Coevolução ou co-evolução? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não quer comprometer-se, e por isso, se regista «coeducação», não regista «coevolução». Depois do novo acordo ortográfico será mais simples. Antes, ou seja, agora e até 2016 (Maio ou Setembro, Fernando?), se o prefixo significa «a par», «juntamente», exige hífen — co-eleitor, co-esposa, co-eterno —, como se lê no sítio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde se previne: «A regra, no entanto, não se aplica facilmente e de forma coerente, razão por que, em caso de dúvida, é sempre melhor consultar um dicionário.» Consultemos então a edição portuguesa do Dicionário Houaiss, porque regista ambos os vocábulos. Lá está: «co-educação» mas «coevolução». Pergunto: não significa o prefixo, em ambos, «a par», «juntamente»?

(Já aqui tínhamos visto cogeração/co-geração.)
[Post 4755]

«Beira-»

Por corgos e alcantis

      Beira-mar, beira-campo, beira-rio. Não conheciam a segunda, «beira-campo»? Ficam a conhecer. E «beira-corgo»? Corgo ou córrego, o caminho apertado entre montes. Não, não: beira-corgo é o homem rural, rude, sem instrução. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que ainda não esgotou os lusismos, já chegou a este brasileirismo: «indivíduo atrasado, inculto; caipira». «Homem atrasado»… é forte.
      Eu nem queria estas divagações. Beira-mar, beira-campo, beira-rio… mas beira Tejo? O Acordo Ortográfico de 1990 não sistematizou o uso do hífen.
      Não temos «beira-corgo», mas temos beira Corgo, o afluente do Douro que nasce na serra da Padrela: «Não há dúvida: — a prosa de Camilo, opulenta e vigorosa, simples e fraterna, tu cá tu lá com o trágico e o idílico, é a expressão natural da voz do seu sangue — pelo sangue paterno, voz da montanha, ora arrogante como se rompesse do seio dos alcantis, ora terna, como se viesse das belgas da beira Corgo; pelo sangue materno, voz do mar — bramido de vaga, no tumulto do desafio ou da peleja; ciciar de espuma, brando roçagar de cetim aos pés de Ângela ou de Raquel…» (Camilo no Drama da Sua Vida, Alberto de Sousa Costa. Lisboa: Livraria Civilização, 1959, p. 60).
[Post 4731]

«Dívidas recorde»

Isso passa

      Ontem, num comentário ao texto «É brasileirismo?» de um anónimo que começava por me increpar por dizer mal dos revisores da imprensa diária e acabava com calúnias dirigidas à honra de minha mãe, pelo meio, e tudo numa escassa linha, ainda se me aconselhava a ir trabalhar. Em compensação, por assim dizer, no Público, onde anteontem se podia ler «número-recorde» e «taxa-recorde», o que condenei aqui asperamente, ontem já se escrevia assim: «Cortes cegos, dívidas recorde e reformas que ficaram a meio» (João D’Espiney e Alexandra Campos, Público, 25.04.2011, p. 10).

[Post 4726]

«Call center/call-center»

Perguntemos a quem sabe

      «Mande fazer uma son­dagem aí a umas 200 pessoas com o nosso call‑center a ver o que dá.» Sigo o que se recomenda no Livro de Estilo do The Times: «Call centre noun, two words; hyphen as adjective, eg, call-centre manager». O mesmo se recomenda, já aqui o vimos, em relação a fast food/fast-food.

[Post 4723]

Léxico

O tamanho conta?

      Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico. Saibam que designa aquele que padece de uma doença causada pela aspiração de cinzas vulcânicas. É a maior palavra portuguesa, com 46 letras. A pseudopalavra anticonstitucionalissimamente tem 29 letras. Está registada no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.
      Não venho, contudo, aqui por isso, mas por isto: «Mostra como se pode ser humilde e audaz ao mesmo tempo. Eleger ou quase-eleger um deputado do PAN bastará para ajudar um bocadinho os animais tão maltratados e tão cruelmente assassinados deste país» («O meu voto», Miguel Esteves Cardoso, Público, 22.04.2011, p. 37).
      Com verbo nunca tínhamos visto, apenas com adjectivos e substantivos.

[Post 4719]

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