Léxico: «pipolização»

Ah...

      Quase todos os dias sou surpreendido por neologismos — alguns, concluo depois, já com alguns anos de curso... Não se riam. Já conhecem o vocábulo «pipolização», por exemplo? Cá está. Há leitores, bem sei, que não conhecem nem querem conhecer, mas nós é que não podemos ter essa atitude assim tão descomprometida e alheada. É mera cópia, parece, do neologismo francês pipolization — que é a idolatria de celebridades ligadas à televisão, à música, ao futebol e mesmo à política, termo forjado a partir do nome da revista People.
[Texto 286]

Léxico: «gestionário»

Da gestão

      «Mais recentemente, salientam‑se as re­formas gestionárias e de informatização, propondo‑se, etc.» Nunca antes tinha lido tal palavra. Não está registada em nenhum dos dicionários que consultei. Só no Dicionário Houaiss, no verbete relativo ao elemento de composição «gest-», é que é referida. Parece ser um termo da gíria da economia, do economês, apropriada pela gíria jurídica. Não está mal formada e, como não tínhamos adjectivo relativo a «gestão», não é de rejeitar liminarmente. Ainda assim, não recomendo nem condeno: use-se quando for estritamente necessário.
[Texto 183]

Léxico: «recência»

Coisa de académicos

      Só recentemente a Antena 1 passou a disponibilizar os ficheiros áudio do programa Jogo da Língua. Por sorte, corta a primeira e penosa parte do diálogo entre a locutora e o concorrente. Ou seja, a parte lúdica é aspada. De maneira geral, o concorrente é tão experimentado nestas questões da língua, que nem se atreve a repetir a hipótese que considera certa, optando por dizer que é a primeira ou a última — o que serviria para aprender o que são os efeitos de primazia (recordar-se melhor das primeiras palavras) ou de recência (recordar-se das últimas palavras), bem estudados no respeitante às sondagens (polls, em inglês) ou inquéritos amostrais (surveys, em inglês). Pois claro, os dicionários não registam o neologismo «recência». O mais próximo que registam é «decência». São decentes.
[Post 4697]


Tradução: «fish fingers»

Hum... não temos

      «[…] and takes out a box of fish fingers.» «[…]e tira uma caixa de dedinhos de peixe.» Eu até pensava que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa já registava o vocábulo... Andam desatentos. Não estou a ver ninguém dizer que quer uma caixa de «dedinhos de peixe». Pode ser sugestivo, um achado magnífico, mas cada língua tenta encontrar a sua forma de expressar as coisas. «Douradinhos», pode ser? Obrigado, capitão Iglo.

[Post 4691]



Léxico: «idadista»

Antes assim

      «Os portugueses são muito idadistas. Até os velhos mais malandros, mais magros e atilados do que eu, como o Marcelo Rebelo de Sousa, sempre que me vêem perguntam-me, cruel e gulosamente, com que idade é que estou. Logo de seguida informam-me que são (mas não estão, dizem eles) mais velhos do que eu. Mas estão. Estão porque são. Nunca a confusão portuguesa do ser e do estar foi mais acintosamente aproveitada» («Gostei de te ver», Miguel Esteves Cardoso, Público, 14.04.2011, p. 39).
      Ora, decerto que se lembram de eu aqui ter revelado que o neologismo «idadismo» já por aí corre. Talvez Miguel Esteves Cardoso se tenha lembrado.

[Post 4688]

Léxico: «twitteresfera»

Mais uma esfera

      «Em relação ao português, a Time escreve que “José Afonso Furtado é o Borges do Twitter”, comparando-o com o escritor argentino Jorge Luís Borges. “É um bibliotecário português que transporta a sua paixão não adulterada pelos livros e o universo editorial para a Twitteresfera”, acrescenta» («Bibliotecário português no top 50 do Twitter», Cláudia Carvalho, Público, 1.04.2011, p. 15).
      É a primeira vez que os meus olhos pousam em tal palavra. Twitteresfera. Aqui pelo menos não haverá hesitações, como aconteceu com bloguesfera/blogosfera. Ou sim: porque está grafada com maiúscula inicial?
      (Isto dos nomes próprios tem muito que se lhe diga, mas, em espanhol, Luis não tem acento, porque é monossilábico. Logo, Jorge Luis Borges.)

[Post 4640]

«Carro eléctrico», de novo

Vacilações

      Isabel Gaspar Dias, na apresentação dos principais temas do Portugal em Directo: «Lisboa já tem mais de 50 postos de abastecimento de carros eléctricos, e por agora são à borla.» E na abertura do tema: «Por agora, já são mais de 50 postos de abastecimento de viaturas eléctricas em Lisboa. Depois do Parque das Nações, agora também o centro da cidade tem pontos de abastecimento de viaturas.» Já aqui tínhamos falado desta questão. E reparem na hesitação «pontos/postos de abastecimento».

[Post 4507]




Léxico: «aerocologia»

Algo de novo

      «Os radares são uma janela para o espaço aéreo. Enviam ondas rádio que se reflectem nas gotas de chuva ou aviões, mas também nas aves, morcegos ou até insectos. Para prever as tempestades, os meteorologistas têm de filtrar a informação e os dados emitidos pelos organismos vivos. Informação que, por outro lado, pode ser essencial para cientistas como Winifred Frick, que a usa para seguir morcegos, numa nova ciência conhecida como “aeroecologia”. […] A expressão “aeroecologia” foi inventada há dois anos por Thomas H. Kunz, da Universidade de Boston, para descrever a interacção dos organismos vivos (aves, morcegos e insectos) na baixa atmosfera» («Radar meteorológico para seguir morcegos», Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 39).


[Post 4469]

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