«Aporte», um galicismo

Seria menos um

      Já que andamos, nos últimos tempos, a falar tanto de termos médicos, não podemos substituir o galicismo aporte, em frases como «o aporte de oxigénio às células cerebrais», por termo genuinamente português?
[Texto 3308]

Demasiado francês

Quase nos enganavam

      «E com uma característica que importa salientar: foi dada primazia à reutilização de materiais. Há pupitres (peças em madeira usadas para fazer a remuage do espumante) que foram transformadas em mesas, paletes que serviram de base para sofás, caixas individuais de vinho que resultaram em óptimos e originais suportes de papel higiénico» («Noites com uma pitada de sal e champanhe», Maria José Santana, «Fugas»/Público, 24.08.2013, p. 28).
       Embora o Público seja parquíssimo em itálico — mas faz mal —, como vi a remuage em itálico, ainda pensei que «pupitre», que conheço bem do castelhano, fosse português. Nada disso: a palavra é francesa, como remuage. Vejam aqui uma imagem. É acepção que não está, por exemplo, no Dicionário Francês-Português da Porto Editora, que apenas regista: «carteira; escrivaninha; estante de música; estante de coro». Para o dicionário da Real Academia Espanhola, é o «mueble de madera, con tapa en forma de plano inclinado, para escribir sobre él». («De madera», cara Maria José Santana, repare bem.) No Trésor, lemos: «ŒNOL. Pupitre (à bouteilles, de cave). Meuble de cave constitué par deux panneaux de bois inclinés, percés de trous, dans lesquels on introduit le col des bouteilles et qui sert à les maintenir en position inclinée, en particulier dans la fabrication du champagne».

[Texto 3233]

Tradução: «à l’abri de»

Evite-se a cópia

      «Que êxito, quando (muitas vezes graças a uma hábil dissimulação) eu me sentia ao abrigo de toda a curiosidade» (Silbermann, Jacques de Lacretelle. Tradução de Ersílio Cardoso. Lisboa: Edição Livros do Brasil, «Colecção Miniatura», s/d, p. 15).
      Tem a desculpa, acho eu, de estar a traduzir do francês, no qual se lê: «Quel succès, lorsque (souvent grâce à une habile dissimulation) je me sentais à l’abri de toute curiosité!» Sem o galicismo e dislate anfibológico da locução prepositiva, como disse Mário Barreto, seria protegido contra, protegido de.
      Vasco Botelho de Amaral no Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português (Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 17): «Abrigo. Evite-se a cópia do francês à l’abri de. Em vez de “ao abrigo dessa disposição”, por exemplo, dir-se-á: graças a essa disposição, por meio dessa disposição. (D. D.). Aliás, ao abrigo da lei (e ditos semelhantes) veio do italiano, por via francesa. A dição está muito vulgarizada.»
[Texto 2650]

Léxico: «rendoso»

Podemos pois

      «Além desta fonte de receita, criou logo outras, que eram não menos rendosas do que ela» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, pp. 93-94).
      Então se este e outros autores, no seu tempo, puderam escrever sem usar o antipático «rentável», nós não podemos? (E, é claro, também não precisou de escrever «para além». Pois nós também não.)

[Texto 2536]

Sobre «impasse»

Se são meramente descritivos

      «Encontro», escreve a autora sobre Lisboa, «ruas que vão dar a impasses e escadas que acabam de repente.» Sempre achei muito curioso este galicismo. Impasse é o mesmo que beco sem saída. O termo, que talvez tenha sido introduzido na língua na década de 1940, já está nos dicionários, mas há imprecisões que é necessário corrigir. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, estão registadas duas acepções — e nenhuma é esta. No Dicionário Priberam da Língua Portuguesa aparece como terceira acepção, mas com esta particularidade: «[Portugal: Madeira] Rua sem saída». Ai sim? Experimentem pesquisar no sítio Lisboa Interactiva e verão quantos impasses por ali estão. Se acolheram o galicismo, têm de registar todas as acepções usadas na nossa língua, que são precisamente as do étimo, como se pode comprovar no Le Trésor de la Langue Française Informatisé: «Rue sans issue. Synon. cul-de-sac» e «position ou situation qui ne présente pas d’issue favorable».
[Texto 2382]

Deixem-se de «detalhes»

Pois é

      «(Que pena esta ocupação francesista da nossa língua que nos obriga a ver “detalhes” onde mais bem ficam “pormenores”. Qualquer dia, ainda germanizamos a língua, de tão colonizados que nos resignamos! Achtung!, compatriotas!)» («Tem de haver limites ao direito de o público escrutinar os políticos», Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 10.11.2012, p. 47).
[Texto 2306]

Mais português

Acertam quando erram

      «Gordon Ramsay, chef de cozinha britânico e apresentador de reality shows como Hell’’s [sic] Kitchen, Kitchen Nightmares e MasterChef, terá voltado a “ferver em pouca água”. O cozinheiro, conhecido no meio televisivo pelo feitio difícil, é agora acusado de ter ofendido um colega de profissão ao dirigir-lhe palavras racistas. [...] O mediático apresentador de televisão, segundo revela Marcus Samuelsson em declarações ao jornal britânico Daily Mail, terá explodido de raiva porque Samuelsson não o elegeu como um dos chefes de cozinha de referência de Inglaterra» («Famoso ‘chef’ da TV acusado de racismo por um colega», Irina Fernandes, Diário de Notícias, 16.07.2012, p. 47).
      O plural de chef é então «chefes»? Se metessem na cabeça que têm obrigação de escrever em português, isto já não acontecia.
[Texto 1836]

Um galicismo nada subtil

Vão desaparecendo

      Este, leio aqui, não viverá até ao fim da pena. «Não sabe conduzir-se.» Por acaso, em francês, está «ne sait pas se tenir». «Conduzir-se», que é raríssimo encontrar na acepção de portar-se, comportar-se ou saber comportar-se, é tão galicismo como «conduta». No frasear clássico, usava-se também haver-se neste sentido de portar-se, comportar-se, proceder, obrar. Nas cantigas de escarnho (mais uma que desapareceu) e de maldizer, usava-se igualmente, neste sentido, baratar: tenho que baratei ben, pois me dela quitei.
[Texto 1528]

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