Léxico: «soalhento»
4.5.26
Todos, todos, todos
Não vamos é, nesta matéria, seguir a filosofia de Miguel Araújo no seu último disco, em que canta «Não há nada, nada/ Não há nada como não fazer nada/ Nada, não há nada/ Não há nada como não fazer nada». Aliás, ao repeti-lo está a contradizer-se, pois já está a esforçar-se. Tem de ser, pelo menos quanto à lexicografia, não há nada como fazer tudo. Tudo o que estiver ao nosso alcance, porque alguém o tem de fazer, porque é preciso ser feito, porque sabemos fazê-lo tão bem como os outros. Por exemplo, dicionarizar isto: «Pobre Fanny! A vida que a carochinha de sonhos cor-de-rosa levaria naquela casa soturna, bem se adivinha qual era: lágrimas, reprimidas revoltas, horas, muitas horas de janela para janela ou a fazer que cuidava dos dois pés de cravos e maravilhas que enlanguesciam no hortejo contra a empena soalhenta do edifício» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 185).
Se ao menos conseguíssemos, pelo simples facto de meter lá este, tirarmos da cabeça de toda a gente (autores, tradutores, jornalistas, todos) a falsa sinonímia «soalheiro = solarengo», o mundo, o mundo da língua, seria um pouco melhor. Utopias, pois.
[Texto 22 915]
edit
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