Como se pontua por aí

Não seria barato


      Iam precisar de um revisor só para corrigir a pontuação: «Quando morreu, em 2013, os obituários publicados nos jornais sobre Ewald-Heinrich von Kleist, descreveram-no como o último dos oficiais alemães que estiveram envolvidos na conspiração para matar Adolf Hitler na fase final da Segunda Guerra Mundial» («O mundo visto de Munique», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 11.02.2026, p. 2). «A ministra não respeitou esse princípio, o que revelou um lamentável défice de autoconhecimento – como é que alguém que se revelou tão ridiculamente frágil, aceitou ser ministra e logo na pasta da Administração Interna?» («A pobre ministra não será salva por um príncipe», Luís Osório, Diário de Notícias, 11.02.2026, p. 4).

[Texto 22 404]

Como se pontua por aí

Nunca será diferente


      Enquanto tivermos — o que me parece que será sempre — jornalistas a pontuarem desta maneira, não vamos longe: «O neurocientista português, Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, alertou para a necessidade de reforçar a vigilância epidemiológica em Portugal face ao vírus Nipah (NiV), num contexto de surtos recentes na India e do aumento dos fluxos migratórios e turísticos provenientes de regiões endémicas» («Especialista pede maior vigilância ao vírus Nipah», Rui Farinha, Jornal de Notícias, 7.02.2026, p. 26).

[Texto 22 382]

Como se pontua por aí

Um mal ibérico


      «En una tertulia televisiva se burlan de Kiko Rivera porque le ha escrito a una mujer con la que mantiene una relación sentimental una carta sin faltas de ortografía, “incluso con tildes”, lo que atribuyen a que se ayudó de la inteligencia artificial. Mientras los ortógrafos del corazón charlan, en la parte inferior de la imagen aparece este rótulo: “Kiko Rivera, enamora con la IA”. La coma entre el sujeto y el verbo confirma la validez del dicho “No escupas hacia arriba, que te puede caer en la cara”. Y que tire la primera piedra el que nunca haya sido reo de cacografía» («La ortografía у el amor», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 24.01.2026, p. 18). 

      Como hoje mesmo já vi (e corrigi) este erro, tão frequente, num texto, nunca é em vão que aqui, e em português ou em castelhano, se fala nestes erros crassos. Eles são bons é em matérias complexas; em coisas assim comezinhas espalham-se com vergonhosa frequência.

[Texto 22 316]

Léxico: «legiferar»

A legífera

      «Como costumam dizer os vigaristas da nossa política, sou insuspeito nesta matéria: não gosto de gatos, nem de cães. Mas também não gosto que o Estado se intrometa na minha vida ou na vida dos portugueses. Descobri esta semana com espanto que a sra. Ministra da Agricultura resolveu legiferar sobre o número de animais que um cidadão pode ter em casa» («2 cães, 4 gatos e a loucura do Governo», Vasco Pulido Valente, Público, 1.11.2013, p. 52).
      Merece figurar aqui, porque raramente se usa o verbo legiferar. Mas, na primeira frase, a vírgula antes da conjunção é pura excrescência: não gosto de gatos nem de cães. Ele. Eu gosto de cães e de gatos.

[Texto 3455]

«Avante, Camarada»

Agora é assim

      «É uma espécie de “Avante, camarada”: um mero emblema. A meio da conversa, na conferência de imprensa que fechou o Congresso, Cunhal saiu-se de repente com uma extraordinária observação» (Retratos e Auto-Retratos, Vasco Pulido Valente. Lisboa: Assírio & Alvim, 1992, p. 122).
      Como sucede com o título Tanta Gente, Mariana, também neste caso omitem agora a vírgula antes do vocativo. Isso mesmo, tudo raso. Acabei de o comprovar.

[Texto 3358]

Ponto de exclamação invertido

Mas datável

      «¡A gente não mente na hora da morte de um filho único!» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, p. 109).
      Sem data, sim, mas antes de 1945, com certeza — ali está o ponto de exclamação invertido —, pois só o Acordo Ortográfico de 1945 é que veio abolir as formas invertidas do ponto de interrogação e do ponto de exclamação.
[Texto 3338]

Sobre pontuação

O cru e o cozido

      A frase era semelhante a esta — até o nome do autor tinha também hífen. «Tal como ressalta Lévi-Strauss (1964, 48), “le savant n’est pas l’homme qui fournit les vraies réponses, c’est celui qui pose les vraies questions”.» Esperem, está aqui um recado para mim: «Aqui não deve haver vírgula.» Como disse? Tem a certeza disso que está a afirmar? Não, não: trata-se de uma oração subordinada conformativa. O local normal desta oração seria após o verbo da oração principal; como está invertida, é necessária a vírgula. Aliás, pela sua natureza adjunta, é sempre necessário estar entre vírgulas.

[Texto 3304]

«À droite à gauche»

Numa rápida sucessão

      «On baise à droite à gauche», escreve Houellebecq: «fode-se a torto e a direito». Sem conjunção, ainda percebo; mas também sem vírgula? O Dicionário Francês-Português da Porto Editora regista «à doite et à gauche», à direita e à esquerda; de todos os lados; em todo o lado. No Diário de Maria: «Já não sou acompanhante, embora continue a foder a torto e a direito» (Lisboa: Oficina do Livro, 2013).

[Texto 3280]

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