Avaliação dos professores

Zeros na composição

      «Aquela é também a posição do presidente da Associação Nacional dos Professores Contratados (ANVPC), César Israel Paulo. Diz que é uma prova que consta de “rasteiras”, “baseada numa lógica matemática que não é dominada por excelentes professores”. Também teme que a obrigatoriedade de respeitar o novo acordo ortográfico resulte em zeros na composição» («Modelo da prova de avaliação para professores causa indignação», Bárbara Wong e Graça Barbosa Ribeiro, Público, 23.11.2013, p. 7).
      É também a minha previsão. Mas Paulo Guinote tem uma estratégia: «“Um conselho: na composição não usem palavras difíceis, nada que levante dúvidas em relação à forma como se escreve segundo o Acordo”, oferece Paulo Guinote, autor do blogue Educação do Meu Umbigo e professor de História. Diz que aquela é a única dificuldade que a prova, “completamente apatetada”, pode levantar. Sobre o exemplo da composição, garante que já pediu “coisas mais difíceis aos alunos do 9.º ano”; em relação a algumas questões de escolha múltipla afirma que está em causa “um nível de literacia funcional exigível a crianças do 6.º ano”.» Não usar palavras difíceis... Isso é se os professores soubessem quais são essas palavras difíceis. Aquela professora, com vinte anos de ensino, que numa acção de formação sobre o novo acordo ortográfico escreveu, segura de si, «adatando-os», não superaria essa prova elementar.
[Texto 3573]

90 mil livros por dia

Impressionante

      Viram o Sexta às 9 de ontem? Foram visitar a gráfica da Porto Editora. «É um dos maiores grupos editoriais nacionais. Da gráfica da Porto Editora saem, em média, 90 mil livros por dia, 12 milhões por ano.» Boa parte escolares, podemos supor. Nunca se publicou tanto, nunca se leu tão pouco.
[Texto 3428]

Prova de avaliação de conhecimentos

E cá, será melhor?

      «O caracol “é um crustáceo”. E “escrúpulo” significa “pôr-do-sol”. Estes foram alguns dos erros cometidos por candidatos a professores primários, em Madrid, num exame realizado em Março, no âmbito de um concurso de professores. No total, 86% dos candidatos chumbaram num teste com perguntas a que é suposto um aluno de 12 anos saber responder» («“Será esta a melhor maneira de seleccionar professores?”», Andreia Sanches, Público, 27.07.2013, p. 8).
      Ah, está bem, agora os dicionários já registam o verbo «chumbar» como intransitivo... Quanto a é suposto + infinitivo, macaqueado do inglês, já se vê menos, felizmente.
[Texto 3117]

Exame de Português

As piores de sempre

      Mais de metade (38 785) dos alunos do 12.º ano (70 807) tiveram negativa no exame nacional de Português. Uma razia (sem metáfora). A média nacional foi de 8,9 valores, inferior à média do ano passado, que tinha sido a miséria de 9,5. A explicação (que também se transformará, a seu tempo, em desculpa) é que as perguntas de gramática deixaram de ser de escolha múltipla. A Latim também houve descida de nota. Dos pouco mais de cem alunos que fizeram a prova, 48 foram chumbados.
[Texto 3076]

Como escrevem os catedráticos

Alguns, pelo menos

      Escreve Maria José Azevedo Santos, catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e especialista em Paleografia Medieval e Moderna, bem como História da Escrita, no suplemento «Q», do Diário de Notícias: «Não tenho qualquer pudor em dizer que sou leitora diária e consultora de dicionários. Para além da língua sou uma apaixonada pelo interior da palavra e sou mesmo dependente para a minha escrita de trabalho de investigação. O dicionário, ou melhor, os dicionários são um conjunto de ferramentas para dar uso ao rigor da palavra. Uma pessoa como eu, no magistério há mais de três décadas, tem por obrigação dar boa palavra oral e escrita. Falar melhor e escrever melhor só ‘lendo’ os dicionários tal como este [Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora]. Poderá parecer estranho para algumas pessoas mas eu leio dicionários. Não os consulto, apenas. Aprecio, de sobremaneira, a forma como a palavra se cruza com os seus significados. As milhares de entradas lexicais que os dicionários vão recebendo são um desafio para quem tem a escrita como ferramenta» (Maria José Azevedo Santos, «Q»/Diário de Notícias, 6.07.2013, p. 5).
      Ah, sim há ali muito para despiorar, mas o que mais me surpreendeu, vindo de quem vem, é aquela afirmação inicial: pudor em dizer que se consultam dicionários!
[Texto 3057]

Como escrevem os professores

Assim tão más?

      «Desde a crónica da semana passada, recebi por vias diversas algumas cartas de pessoas que se intitulam professores a insultar-me com toda a consideração. As minhas dúvidas sobre a real profissão dessa gente prendem-se com o domínio da língua portuguesa evidenciado nas ditas cartas, manifestamente incompatível com a sabedoria de quem, nos dias em que não faz greve, assegura a prodigiosa educação das crianças deste país» («Ordem, mentiras e progresso», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 23.06.2013, p. 55).
[Texto 3012]

De envergonhar

Não são conjecturas, não

      «Como queremos que funcione o sistema universitário em 2020 numa conjectura em mudança?», perguntam os organizadores do 1.º Curso de Transição Universitária em Portugal, que decorrerá na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no Campo Grande, nos dias 28 e 29 de Abril e terá como «facilitadores» Amandine Gameiro, André Vizinho e Gil Penha Lopes. O curso começa com as «boas vindas» e acaba, como se podia ver no programa, com uma festa. E assim vai o ensino em Portugal.

[Texto 1398]

Rabo sem cauda

Ah, senhora professora...

      «Que lhe exibisse a miséria das placas dentárias, vá, mas agora as podridões do rabistel?...» (Tubarões e Peixe Miúdo, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, p. 78).
      Mero pretexto para contar o que me contaram: uma professora de Português convenceu os alunos a consultarem um dicionário para verem que, como ela afirmava, «rabo» é apenas «cauda» e nada mais. Não significa, argumenta ela, «nádegas» ou «ânus». Ainda estou para ver que dicionário usaram que não registasse a sinonímia.
[Texto 1385]

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