Ensino

Sabe ele o seu português?

      Se bem que afirme que os professores são «sobretudo vítimas e não tanto responsáveis», Carlos Reis não deixa de fazer a pergunta retórica: «Quando isso acontecer, talvez se atente na relevância de componentes tão decisivos como os professores e a sua formação — uma outra formação, aliviada do peso atrofiante das ciências da educação, que disso temos que sobre. Com o devido respeito, formulo uma pergunta que talvez pareça provocatória: os professores de Português sabem português com a profundidade que se exige a quem ensina? Estudaram devidamente o idioma, a sua história, os seus cambiantes socioletais e as suas variações geolinguísticas? Dominam a gramática da língua e a sua terminologia? Conhecem os escritores que têm feito do português um grande idioma de cultura? Leram Sá de Miranda, Herculano, Camilo, Cesário Verde, Machado de Assis, Carlos de Oliveira, Agustina ou Luandino Vieira? Distinguem-nos dos pífios escritores da moda “consagrados” em livros escolares pouco criteriosos? Dispõem de instrumentos e de disposição para indagações linguísticas e literárias que vão além das banais ferramentas da Internet? As perguntas são embaraçosas, mas têm que ser feitas, mesmo sabendo-se que há exceções ao que temo seja a regra» («Sabe ele o seu português?», Carlos Reis, Público, 12.08.2011, p. 30).
[Texto 390]

Ensino

O sujeito foi-se

      «O grupo cicatrizava-se depressa, mas o garoto, com a alma pesada, andava quilómetros para tornar a ver os seus amigos, os lugares felizes, e de cada vez era mais difícil reconstituir a antiga comunhão, até que vinham a indiferença e a hostilidade e o rapaz desaparecia definitivamente, talvez ajudado por amizades novas e novas terras.»
      É um excerto da obra A Bagagem do Viajante, de José Saramago (Lisboa: Editorial Caminho, 2.ª ed., 1986). Constava na prova escrita de Português do 12.º ano realizada em Junho. À pergunta em que se pedia que se identificasse a função sintáctica desempenhada pela expressão «a indiferença e a hostilidade», só 20 % dos alunos responderam bem. Para João Costa, um dos autores da revisão da TLEBS, este descalabro veio precisamente mostrar que não é a mudança da terminologia que está em causa pois o termo «sujeito» «está inalterado desde Aristóteles e devia ser conhecido dos alunos desde o 3.º ou 4.º ano de escolaridade». Eu vejo as coisas de forma diferente: se os alunos não dominam matéria tão elementar agora, muito pior será com a alteração da terminologia. Só numa frase como «O sujeito foi-se» é que a situação se invertia. Invertia, reparem: ainda assim, 20 % dos alunos não saberiam que «sujeito» era sujeito.
[Texto 380]

Ensino e literatura

Uma barbaridade

      «Um dos primeiros comentários foi o que a presidente da Associação de Professores de Português entendeu fazer, salvo erro no dia seguinte a serem conhecidos os resultados. Comentário a todos os títulos lamentável, porque uma classe (a de professores de Português – a nossa língua!) não pode rever-se nas observações quase indigentes que foram feitas sobre o facto de os professores continuarem a “perder” muito tempo a dar textos literários (que, subentende-se, não serviriam para nada – quando servem para aprender a pensar, senhora presidente da associação, e aprender a sentir, e a saber o que tem sido e é a cultura portuguesa!) como, entre outros, O Auto da Alma, de Gil Vicente, ou Padre António Vieira» («Há que deixar de manipular os resultado e os factos», Helena Carvalhão Buescu, Público, 31.07.2011, p. 54).
       O excerto é suficiente para mostrar, mais uma infausta vez, a que estado chegou o ensino. Como se pode prescindir da literatura no ensino e aprendizagem da língua? Já vêem a gravidade da afirmação, mormente vinda de quem vem, nada mais que a presidente da Associação de Professores de Português.

[Texto 361]

Português arcaico

Quamdo foi sabudo pello reino

      Hans Christian Andersen também era «moço de corda» (sem ser títere...). Por causa do medo de incêndios, andava sempre com uma grande corda na mala. A ideia era, ao mínimo sinal de fogo, poder descer por uma janela. Só falo em cordas, porém, por propósitos suicidas ou homicidas. Vejam: no laboratório, foi apresentado um texto eciano e uma professora, que aparenta ter saído há menos de dez anos da faculdade, considerou-o «fácil, porque apresenta um Português arcaico fácil de identificar». Eça de Queirós, português arcaico... Que dizem os meus leitores destes sólidos conhecimentos de parte do nosso professorado?
[Post 4550]

Ensino

Bom por tradição


      Professor universitário muito considerado, mas, pelo que se via, só queria chamar a atenção para pretensas singularidades da língua. A locução «pôr-do-sol» com hífen? «Mas, quando o pastor chegou à beira-mar, o pássaro voou por sobre a água, em direcção ao pôr-do-sol.» As formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hás de, hão de, etc. (antes da Base XVII, 2.º, do AO90, naturalmente) sem o hífen nas ligações da preposição «de»? «Onde as câmaras mais profundas são reservadas para o que há de mais trivial.» (Uma frase de Walter Benjamin, hem?) Genial...

[Post 4400]

Anedota

Se calhar foste tu

— Diz-me lá quem escreveu Os Lusíadas.
— Não sei, Sra. Professora, mas eu não fui — responde o aluno a gaguejar. E começa a chorar.
— Pois então, de tarde — diz-lhe a professora — quero falar com o teu pai.
Em conversa com o pai, a professora faz-lhe queixa:
— Não percebo o seu filho. Perguntei-lhe quem escreveu Os Lusíadas e ele respondeu-me que não sabia, que não foi ele...
— Bem — diz o pai —, ele não costuma ser mentiroso, se diz que não foi ele, é porque não foi. Já se fosse o irmão...
Irritada com tanta ignorância, a professora resolve ir para casa e, ao passar em frente do posto da GNR, diz-lhe o comandante:
— Parece que o dia não lhe correu muito bem...
— Pois não. Imagine que perguntei a um aluno quem escreveu Os Lusíadas e respondeu-me que não sabia, que não foi ele, e começou a chorar.
O comandante do posto:
— Não se preocupe. Chamamos cá o miúdo, damos-lhe um aperto, vai ver que ele confessa tudo!
Com os cabelos em pé, a professora chega a casa e encontra o marido sentado no sofá, a ler o jornal.
— Então, querida, o dia correu bem?
— Ora, deixa-me cá ver. Hoje perguntei a um aluno quem escreveu Os Lusíadas. Começou a gaguejar, que não sabia, que não tinha sido ele, e pôs-se a chorar. O pai diz-me que ele não costuma ser mentiroso. O comandante da GNR quer chamá-lo e obrigá-lo a confessar. Que hei-de fazer a isto?
O marido, confortando-a:
— Olha, esquece. Janta, dorme e amanhã tudo se resolve. Vais ver que se calhar foste tu e já não te lembras...!

[Post 4134]

Ensino

Preocupem-se

      «Quatro em cada dez alunos do 6.º ano não foram além de duas respostas totalmente correctas em nove no domínio do Conhecimento Explícito da Língua na prova de aferição de Português, o que fica “aquém do desejável”», noticia hoje o Público. E mais: «Segundo o relatório nacional do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) do Ministério da Educação sobre a prova do 6.º ano, ontem divulgado, 42 por cento dos alunos tiveram um máximo de duas respostas totalmente certas e 10 por cento não tiveram qualquer resposta integralmente certa. “Os alunos evidenciam um bom desempenho ao nível da Compreensão da Leitura e da Expressão Escrita, mas permanecem aquém de que é desejável no que respeita ao Conhecimento Explícito da Língua”, lê-se no relatório. Desagregando os dados, 38 por cento por cento dos alunos obtiveram uma classificação correspondente a “Não Satisfaz”» («Maus resultados na prova de aferição de Português», 10.11.2010, p. 9).
      O conhecimento explícito da língua é o conhecimento reflectido e sistematizado das unidades, regras e processos gramaticais da língua (ver mais aqui). Se os alunos são maus nisto, quer dizer que detêm somente um conhecimento implícito da língua — não se distinguindo assim muito de analfabetos.

[Post 4064]

Aprendizagem

De pequenino


      «Mas há um outro desafio, o da passagem da perspectiva do utilizador para a do criador, do produtor de nova informação. Só assim poderá haver utilidade social e valor acrescentado. A informação, por si só, não passa de uma matéria-prima. Acrescentar-lhe valor implica processá-la e torná-la socialmente reconhecida. Como lá chegar através da educação? Começando, desde os primeiros anos de escolaridade, com as coisas mais simples: a leitura, análise e interpretação de textos, por exemplo, ou da prática de análise de fontes históricas, das operações mais simples de raciocínio lógico associados aos primeiros exercícios de estatística ou ao hábito de medida, registo, leitura e interpretação de observações de fenómenos quotidianos (temperatura do ar, humidade, tensão arterial, entre tantos outros exemplos possíveis)» (Difícil É Educá-los, David Justino. Revisão de Helder Guégués. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010, pp. 96–97). O ensaio deste ex-ministro da Educação (2002–2004) pode comprar-se por 3,15 euros em qualquer loja Pingo Doce, por exemplo. E vale a pena lê-lo.


[Post 4017]

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