Léxico: «prisão-escola | prisão-hospital | prisão-oficina»

Do limbo das promessas


      «O EP de Odemira nasceu em 1995, com um infantário, para responder à demanda da população feminina do sul. O antigo sanatório-prisão da Guarda passou a EP feminino em 1998 para receber, sobretudo, mulheres originárias dos distritos da Guarda, de Castelo Branco, de Portalegre e de Viseu. As reclusas foram em 2017 transferidas dali para a extensão do Mondego, que antes servira de centro educativo» («Reclusas do Sul ficam concentradas em Tires e famílias pagam o preço», Ana Cristina Pereira, Público, 11.05.2026, 7h00). 

      O composto «sanatório-prisão» não figura actualmente no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, apesar de remeter para uma série histórica bem documentada na organização penitenciária portuguesa do século XX. Em documentação oficial do Estado Novo, surgem designações como «prisão-escola», «prisão-hospital», «prisão-sanatório», «prisão-asilo» e «prisão-oficina». Curiosamente, a jornalista emprega a forma «sanatório-prisão», e não a designação histórica oficial «prisão-sanatório», usada sistematicamente na classificação penitenciária da época. A inversão dos elementos parece reflectir uma reorganização espontânea da percepção lexical: em vez de uma prisão com funções sanatoriais, o composto passa hoje a sugerir antes um sanatório adaptado à função prisional. Ainda assim, a Porto Editora prepara — promete: «brevemente disponível» — o acolhimento das formas históricas «prisão-escola», «prisão-hospital» e «prisão-oficina», o que reforça a legitimidade lexical e documental de «prisão-sanatório» e «prisão-asilo», igualmente atestadas na terminologia penitenciária portuguesa.

[Texto 22 991]

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