A propósito de «talvez»

Se calhar

      E a propósito. Ontem perguntaram-me a que classe gramatical pertence a palavra «talvez». «É um advérbio», respondi prontamente. Grande espanto: «Advérbio?! De quê?» «É um advérbio de dúvida.» Novo espanto. Pertence, suspeito, à geração que, na faculdade, andou vários anos a aprender as teorias de Chomsky. No início, «talvez» era advérbio de tempo, equivalente a «certa vez». «Tal vez se viu uma criança ainda viva puxar pela teta da mãe já morta» (Nova Floresta, Manuel Bernardes, com actualização ortográfica minha). Se antes indicava uma incerteza de tempo, como escreve Said Ali, passou depois a indicar uma incerteza de facto.
[Texto 2344]
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