«À última (da) hora»

«O uso é soberano senhor»

      «1. “Dizer que...” “Lembrar que...” “Acrescentar que...” A epidemia começou com os comentadores de futebol e foi tomando conta de muitos repórteres e jornalistas: já não há tempos de verbos, a não ser o infinito. Claro que o erro na fala, em particular na sempre difícil tarefa que é o direto televisivo, é coisa normal e perfeitamente compreensível. Mas não é isso que está em causa. É, isso sim, o horror da norma a consagrar o desconchavo gramatical. Afinal de contas, vivemos no país em que já quase ninguém sabe dizer “à última hora”, consagrado que está o macabro “à última da hora”. Dúvida pedagógica: qual o papel (e o efetivo poder) dos responsáveis editoriais face à degradação da língua?» («Falar mal e não pensar», João Lopes, Notícias TV, n.º 252, p. 72).
      Já tratámos desta questão no Assim Mesmo, tendo então lembrado o que, a propósito das expressões à última hora e à própria hora, escreveu Vasco Botelho de Amaral no Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português (Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 236): «Não resta dúvida que estas formas (sem da) são mais correctas, porém menos correntes. Inclusivamente os que prezam a gramática deixam fugir a dição preposicionada.» Terminava, contudo, afirmando que «quanto à sua correcção ou incorrecção, não se aflijam os gramáticos, não se impacientem os curiosos, nem se precipitem os indisciplinados: — o uso é soberano senhor que vai fazendo e desfazendo leis».
[Texto 2332]
Etiquetas
edit

Sem comentários:

Arquivo do blogue