Uma acepção que fazia falta: «águia-marinha»
2.9.26
A genealogia do erro
«Jackie, que tinha 14 anos, era, e é, uma águia-de-cabeça-branca, ou águia-careca, ou águia-calva ou, se quisermos, um pigargo-americano» («Uma águia que é metáfora», António Araújo, «P2»/Público, 23.08.2026, p. 23). Está certo, todos esses nomes comuns são os da espécie Haliaeetus leucocephalus. Umas linhas mais à frente, porém: «Não é caso para menos: Jackie era uma das mais populares águias-pesqueiras da América, talvez a mais popular, celebridade que advinha da circunstância de todos os momentos da sua existência, tal qual os influencers de agora, terem sido acompanhados ao minuto desde Outubro de 2015, quando colocaram uma câmara no ninho dos seus pais, o Ricky e a Lucy.» Aqui, já está errado: a águia-pesqueira designa outra espécie: Pandion haliaetus, da família Pandionidae.
Suspeito, aliás, da origem do erro. A águia-de-cabeça-branca (Haliaeetus leucocephalus) é uma das aves a que em inglês se chama sea eagles, literalmente «águias-marinhas», grandes rapinas associadas aos meios aquáticos e em cuja alimentação o peixe tem particular importância. Daqui a chamar-lhe «águia-pesqueira» vai um passo — compreensível, mas errado, pois este nome designa em português outra espécie, como vimos. O erro deixa, contudo, no ar uma questão: se dispomos de «águia-marinha-de-rabo-branco», «águia-marinha-gigante», «águia-marinha-de-barriga-branca» e outras denominações correspondentes às sea eagles, não haverá fundamento para que «águia-marinha» designe também, genericamente, estas aves? É matéria que merece investigação, tanto mais que os nossos dicionários reservam hoje a designação simples «águia-marinha» justamente para Pandion haliaetus, a águia-pesqueira.
[Texto 23 448]
edit
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