Uma palavra desnecessária

Que também as temos


      No jornal espanhol La Voz de Galicia do dia 29 de Agosto, li um artigo sobre as medidas que podem tornar as habitações mais resistentes aos incêndios florestais. Um infográfico que o acompanha enumera algumas das características construtivas aconselháveis: caleiras metálicas e sem folhas, cobertura e paredes ignífugas, faixa igualmente ignífuga em redor da casa e protecção exterior das janelas — «contraventanas». É precisamente nesta última palavra que começa o problema. A tentação de um falante de português será talvez traduzir contraventanas por «contrajanelas»: a formação parece tão transparente, que quase se faz sozinha. Mas logo deverá ocorrer-nos uma palavra portuguesa bem conhecida, portadas. Qual delas corresponde, afinal, às contraventanas espanholas? Em dois dicionários bilingues da Porto Editora, desta luta parece ter saído vencedora «contrajanela». No francês-português, contrefenêtre é traduzido por «contrajanela, janela dupla»; no português-francês, encontramos mesmo uma entrada autónoma «contrajanela», remetendo para contrefenêtre. Sucede que «contrajanela» é uma palavra que nunca encontrei em português e que não encontro registada nem no próprio Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem, até onde pude apurar, nos dicionários e glossários portugueses de arquitectura. Teremos, então, uma lacuna nos dicionários gerais? Ou será «contrajanela» um daqueles vocábulos que existem sobretudo porque um dicionário bilingue precisava deles?

[Texto 23 460]

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