Definição: «capa de honras»

Falta a honra


      Na semana passada, vi uma reportagem do Conta Lá sobre a capa de honras. A artesã ouvida afirmou mais de uma vez que só gente abastada podia possuir uma capa como as que ela fabrica e que uma peça tão pesada e ornamentada nunca serviria para trabalhar. (Num texto da «Revista E», do Expresso, de Julho de este ano, também se afirmava: «A capa de honras foi, em tempos, uma representação de estatuto social» («A honra de uma capa», Margarida Nogueira, p. 66.) Ao descrevê-la, mencionou ainda a honra, o rabo da capa, que, muito estranhamente, nem sequer aparece nas definições dos dicionários. Ora, a Porto Editora diz precisamente o contrário: «peça de indumentária masculina, típica de Miranda do Douro, onde era tradicionalmente utilizada por pastores e guardadores de vacas, consiste num capote de burel, pesado e quente, com corte característico, pala, cabeção, racha e abas orladas; honricas». 
      Por uma vez, todos têm razão, mas só parcialmente: havia capas do mesmo tipo com diferentes graus de riqueza e destinadas a usos distintos. Um documento da Câmara Municipal de Miranda do Douro, de 1819, fixava em quinhentos réis o trabalho de fazer uma «capa de onras» bem executada, mas em apenas cento e sessenta réis o de uma capa «lisa ou de pastor». Ao lado da capa trabalhada e dispendiosa, existia, portanto, uma versão simples, adequada ao uso quotidiano dos pastores. O Inquérito Industrial de 1881 descreve, por sua vez, capas de burel «notáveis pelo seu feitio especial e pelos muitos ornatos», acrescentando que apareciam geralmente nas grandes festividades, «e por isso são denominadas capas de honras». A ornamentação e a utilização solene eram, pois, características essenciais das capas mais ricas. A própria reportagem acaba por distinguir, embora pouco claramente, estas duas realidades. Primeiro afirma que «a capa de honras foi, em tempos, uma representação de estatuto social»; depois explica que o clima da região levou os pastores a usar uma peça de vestuário que os protegesse dos Invernos longos e frios. Não diz inequivocamente que essa peça pastoril fosse a mesma capa profusamente ornamentada que vemos nas imagens e que hoje custa entre mil e 1200 euros. O peso, por si só, não excluiria o uso no campo: uma capa de burel devia ser espessa, quente e resistente. O que torna improvável que os exemplares ricos fossem vestuário de trabalho é sobretudo o custo e a abundância de aplicações, recortes, pespontos, bordados e franjas. Entre a capa lisa do pastor e a capa solene dos homens abastados haveria, decerto, exemplares intermédios, simultaneamente úteis como agasalho e suficientemente cuidados para serem usados em dias festivos.
      Também a estrutura da peça merece ser esclarecida. A capa de honras é formada pela capa propriamente dita, pela sobrecapa e pelo capuz. Deste pende pelas costas uma aba comprida, ornamentada e franjada, denominada honra. A racha referida pela Porto Editora é outra coisa: trata-se da abertura existente na parte inferior das costas, que permitia acomodar melhor a capa quando o portador seguia montado. A definição da Porto Editora não é, portanto, inteiramente falsa, mas generaliza o uso da variante mais simples e omite justamente a parte mais singular da capa. 
      Seria preferível assim ➠ capa de honras peça tradicional da indumentária masculina da Terra de Miranda, comprida e ampla, confeccionada em burel ou saragoça, constituída por capa, sobrecapa e capuz, deste pendendo pelas costas uma faixa ornamentada e franjada denominada honra; usada como agasalho contra o frio e a chuva, apresentava diferentes graus de ornamentação, sendo os exemplares mais ricos próprios de festividades e ocasiões solenes; actualmente, tem sobretudo utilização cerimonial e protocolar; honricas.

[Texto 23 493]

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