Cunhas, calços e rípio

Não só verso

      Está bem, pronto, eu digo: zeppa é a cunha, a «palavra meramente acessória para completar a medida de um verso ou tornar mais eufónico o seu ritmo» (cito do Dicionário Houaiss). No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não encontramos esta acepção no verbete «cunha». Já vi a palavra traduzida por «calço», mas neste caso talvez nenhum dicionário registe este sentido. Já aqui usámos duas vezes rípio nesta acepção — palavra usada num verso só para lhe completar a medida —, que também existe em castelhano: «Palabra o frase inútil o superflua que se emplea viciosamente con el solo objeto de completar el verso, o de darle la consonancia o asonancia requerida.» No Hoepli, diz-se que, neste sentido figurado, zeppa é a «parola o frase messa come riempitivo in un verso, in un periodo, senza vera necessità logica o estetica». Em verso ou prosa. Eco dá como exemplo a analepse complementar, que, afirma, por vezes não é técnica calculada, mas cunha, como acontecia a muitos folhetinistas do século XIX, que, forçados a aumentar desmedidamente o seu romance em episódios, se viam constrangidos a remediar esquecimentos ou a justificar, com bruscas explicações retrodatadas, acontecimentos que eram obrigados a pôr em cena. Ainda não havia processadores de texto para prevenir estes casos.
[Texto 3049]
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