Etimologia: «acampada», de novo

Porque continua na ordem do dia

      A Porto Editora eliminou do seu Dicionário da Língua Portuguesa a acepção que atribuía a «acampada», com a marca «Brasil», o sentido de «acto ou efeito de permanecer temporariamente em tendas num lugar ao ar livre; acampamento». Folgo com isso. A acepção não encontrava apoio em nenhuma fonte brasileira. A melhor prova veio do próprio Brasil. Ao noticiar os protestos da geração Z no Rossio, a Folha de S. Paulo escreveu a palavra sempre entre aspas: «A “acampada” deu-se em torno da estátua de dom Pedro 4º». Noutra peça, o mesmo jornalista foi mais longe e explicou-a aos leitores: «Neste sábado (24), milhares de estudantes portugueses desafiaram as autoridades e desceram a avenida da Liberdade em direção ao Rossio com o objetivo de fazer mais uma “acampada” —montagem de tendas onde os estudantes passam a noite em protesto contra os alugueis altos» («Geração Z de Portugal e Espanha tenta articular greve geral conjunta», João Gabriel de Lima, Folha de S. Paulo, 25.10.2026, p. A40). Pena é que, ao corrigir aqui, a Porto Editora tenha errado ali. A etimologia dizia antes «feminino substantivado de acampado, segundo o espanhol acampada, “idem”»; agora fica-se por «feminino substantivado de acampado». Quanto à forma, nada a objectar. O que está em causa, porém, é a semântica: «acampada» como forma de protesto é decalque do castelhano, das acampadas do movimento 15-M, em 2011. É a própria Folha a lembrar que os jovens portugueses se inspiraram na Porta do Sol. Sem a referência ao castelhano, a etimologia explica a palavra e deixa por explicar o sentido, que é afinal o que justifica a entrada. Espero que a reponham.
[Texto 23 768]
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