Como se traduz por aí

Uma espécie de fatalidade


      «— Eu não sou muito boa nessas coisas. — Estava agarrada às cavilhas do casaco, com o rosto mais pálido do que o costume» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 73). No original: «She was gripping the toggles of her coat, her face extra pale.» 
      Cavilhas do casaco... Algum casaco de madeira, talvez. Temos de mandar o tradutor fazer um estágio na Ralph Lauren, na Mango ou na Zara, onde podemos ver — e lhe ensinarão — que se chamam fechos de alamar. Como eu costumo dizer, quanto mais concreto o referente, mais os tradutores se espalham, o que não deixa de ser paradoxal. Estamos, pois, em condições de formular a lei da vulnerabilidade tradutória à concretude: a probabilidade de erro tradutório aumenta em proporção directa com o grau de concretude e especificidade material do referente, mormente quando a competência lexical do tradutor excede a sua capacidade de identificação extralinguística. Veremos mais casos.

[Texto 23 662]

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