Definição e etimologia: «Cortina de Ferro»
23.10.26
Omite-se o principal
Espera aí, mas a Porto Editora não está a definir nada bem a expressão «Cortina de Ferro». Se eu tivesse 14 anos e me deparasse com esta definição, ficaria com uma ideia muito imperfeita do que foi, afinal, a Cortina de Ferro. E não é precisamente para esclarecer quem não sabe que servem os dicionários? No Dicionário da Língua Portuguesa, lê-se: «separação política e militar que, na Europa, opôs os países comunistas aos países não comunistas». Ora, falta aqui quase tudo o que permitiria compreender o conceito: o contexto histórico, a identificação dos dois blocos em que a Europa ficou dividida e, sobretudo, o papel da União Soviética, que nem sequer é mencionada. E «países não comunistas» é uma designação tão vaga, que pouco ajuda a perceber de que países estamos a falar.
Assim, proponho ➠ Cortina de Ferro divisão política e ideológica da Europa, do fim da Segunda Guerra Mundial até 1989, entre os países do Leste, sob domínio da União Soviética, e os do Ocidente, alinhados sobretudo com os Estados Unidos, e que em certos troços correspondeu a fronteiras fortemente vigiadas e fortificadas; expressão popularizada por Winston Churchill num discurso de 1946, por alusão ao pano de ferro dos teatros, barreira metálica que desce entre o palco e a plateia para impedir a propagação de incêndios.
E, já agora, a propósito da própria expressão, recupero uma observação que fiz num texto de 2012. O linguista Manuel de Paiva Boléo afirmou que, «se se tivesse traduzido com espírito vernáculo a expressão, deveria dizer-se “pano de ferro”, que é o termo próprio da linguagem do teatro». Em inglês, iron curtain. De facto, «pano de ferro» teria sido uma tradução mais fiel à terminologia teatral portuguesa. A tradução «Cortina de Ferro» acabou, porém, por se impor.
[Texto 23 751]
edit
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