Definição: «acampada», de novo
23.10.26
Pois, não me palpita
O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista, como terceira acepção de «acampada», assinalada como brasileira, «acto ou efeito de permanecer temporariamente em tendas num lugar ao ar livre; acampamento». Ora, não encontrei até agora, repito, nenhuma fonte lexicográfica brasileira que confirme semelhante uso. É particularmente revelador o artigo «Geração Z ocupa praça em Lisboa contra crise da moradia e enfrenta polícia», de João Gabriel de Lima, publicado na Folha de S. Paulo de 21 de Outubro de 2026 (p. A38). Nele, o jornalista emprega três vezes a palavra «acampada», sempre entre aspas. Chega mesmo a escrever: «A “acampada” deu-se em torno da estátua de dom Pedro 4º». Em contrapartida, escreve sem nenhuma ressalva «estavam acampados na praça». Se «acampada» fosse efectivamente um substantivo corrente no português do Brasil, por que razão um jornalista brasileiro sentiria necessidade de o grafar sistematicamente entre aspas? Tudo indica que está a reproduzir uma designação usada pelos manifestantes portugueses, e não a empregar um vocábulo familiar aos leitores brasileiros. Este testemunho não demonstra, por si só, a inexistência da acepção, mas reforça as dúvidas quanto à pertinência da sua inclusão no dicionário, pelo menos sem documentação que a sustente.
[Texto 23 752]
edit
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