Definição: «audiodescrição»
3.10.26
Cegos, pretos e a doentia normalidade
«Yusuf Ali Osman voulait lui aussi découvrir la Tapisserie de Bayeux. Cet habitant de la banlieue de Londres a saisi un cabinet d’avocats pour contester l’absence d’un service d’audiodescription, jugeant que le célèbre musée londonien enfreignait la loi sur l’égalité (Equality Act), ont rapporté plusieurs médias britanniques. Le British Museum a annoncé mercredi la mise en place d’une visite guidée en audiodescription. Dans ces visites, le guide ne se contente pas de commenter l’histoire ou le contexte de l’œuvre, mais il la décrit de manière très précise» («Un visiteur fait plier le British Museum», Le Temps, 2.10.2026, p. 20).
Caído do céu, este artigo, que é quase uma abonação perfeita para mostrar o problema da divisão em duas acepções do vocábulo «audiodescrição» no dicionário da Porto Editora: «1. descrição verbal do conteúdo visual de uma obra de arte, de uma manifestação cultural (filme, peça de teatro, etc.) ou outra, feita com o objectivo de o tornar acessível a pessoas invisuais ou com sensibilidade visual diminuída; 2. descrição verbal de elementos visuais (gráficos, mapas, etc.) apresentados em aula, palestra, conferência, etc., feita com o objectivo de tornar o seu conteúdo acessível a pessoas invisuais ou com sensibilidade visual diminuída».
No artigo, audiodescription refere-se à descrição minuciosa da Tapeçaria de Bayeux durante uma visita guiada ao Museu Britânico. Pela redacção actual do dicionário, onde a encaixaríamos? A primeira acepção, por mencionar «obra de arte» e «manifestação cultural», ainda poderia acolhê-la, embora esteja claramente concebida sobretudo a pensar no cinema, no teatro e em manifestações afins; a segunda circunscreve-se a elementos visuais apresentados «em aula, palestra, conferência, etc.». Uma visita a um museu fica, pois, mal acomodada nestes compartimentos — e, levada às últimas consequências esta maneira de definir, justificaria uma terceira acepção. Amanhã, outro contexto justificaria uma quarta.
O que importa é identificar o núcleo semântico comum, não multiplicar acepções conforme se multiplicam os contextos de uso. O próprio artigo, sem o pretender, quase nos oferece esse núcleo ao explicar em que consiste a audiodescrição: «le guide ne se contente pas de commenter l’histoire ou le contexte de l’œuvre, mais il la décrit de manière très précise». Ou seja, o que define audiodescrição não é onde ocorre nem que espécie de objecto está a ser descrito, mas a conversão de informação visual em informação verbal para a tornar acessível a quem não a pode apreender visualmente.
Tudo visto, proponho ➠
audiodescrição descrição verbal de informação visual, destinada a torná-la acessível a pessoas cegas ou com baixa visão.
Para me antecipar a objecções e melindres, devo dizer por que opto intencionalmente por «pessoas cegas ou com baixa visão». É esta a terminologia usada pela própria ACAPO, que considera «invisual» um eufemismo desnecessário e desaconselha o seu uso. É um daqueles casos em que o escrúpulo de quem nomeia acaba por se afastar da preferência de quem é nomeado. Faz-me lembrar o nosso cuidado em evitar «preto» em favor de «negro», quando ainda há dias a própria Blaya perguntou sem rodeios, a propósito dos Globos de Ouro: «Não há pretos? Em 200 e 500 pessoas, há para aí três pretos?»
[Texto 23 633]
edit
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