Ortografia: «contracorrente»

Assim não vão lá

      Aproveitando a benevolência da Rádio Observador, porque sei que me ouvem (e até queriam ouvir mais), não posso calar a irritação que sinto ao ver que também contribui tão activamente para propalar erros. Já tinha dado por este, mas, ao vê-lo ali, em pleno ecrã do sistema de info-entretenimento do carro, foi a gota de água. Refiro-me ao programa «Contra-Corrente», que assim aparece identificado tanto na grelha de programação da estação como no referido ecrã, quando está no ar. O erro, pelos vistos, também viaja nas ondas hertzianas. 
      Ora, «contracorrente» escreve-se numa só palavra, sem hífen. Tal como «contracapa», «contracultura», «contracampo» ou «contracurva». Não se trata sequer de uma novidade introduzida pelo Acordo Ortográfico de 1990: já antes era assim. Também não há aqui a escapatória de invocar razões estéticas para esquartejar palavras, tão do agrado de certos capistas (embora aposte que nos cartões-de-visita se apresentam como designers). Não: a Rádio Observador escreve «Contra-Corrente» numa única linha, com espaço de sobra. E não se diga que é licença criativa: a maiúscula em «Corrente» denuncia que alguém julgou estar perante duas palavras. O hífen está lá porque alguém decidiu pô-lo e ninguém se deu ao trabalho de verificar se devia lá estar. 
      Não peço à Rádio Observador que deixe de apontar erros, denunciar disparates ou tentar melhorar o mundo. Pelo contrário: não queremos todos o mesmo? Mas quem se propõe corrigir os outros devia, pelo menos, mostrar alguma disposição para se corrigir a si próprio. E, neste caso, nem sequer seria preciso um grande esforço: bastava eliminar um hífen e unir duas palavras. Afinal, para remar contra a corrente não é preciso remar contra a ortografia.
[Texto 23 755]
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