Como se fala por aí

Basta(va) pensar


      Há minutos, na Rádio Observador, ouvi na previsão meteorológica que o tempo de hoje vai estar «muito idêntico» ao de ontem. Não é, evidentemente, um exclusivo daquela rádio nem daquele jornalista. «Muito idêntico» ouve-se com enorme frequência, tanta que já aqui tratei do assunto há uns bons anos. Não posso, aliás, esperar que toda a gente tenha lido o que então escrevi: o jornalista que hoje me fez voltar ao tema talvez ainda frequentasse a escola primária. 
      O problema está no significado de «idêntico». Duas coisas são idênticas quando são exactamente iguais, quando não diferem uma da outra naquilo que se está a comparar. A identidade, ao contrário da semelhança, não admite graus: duas coisas ou são idênticas ou não são. E não se trata de uma particularidade do português. O mesmo sucede, por exemplo, com os equivalentes identical, em inglês, identique, em francês, e idéntico, em castelhano. A razão é a mesma em qualquer destas línguas: identidade e semelhança são conceitos diferentes. A identidade não é um grau muito elevado de semelhança. Podemos, naturalmente, dizer que duas coisas são «muito semelhantes», «bastante semelhantes» ou «pouco semelhantes». A semelhança admite gradação; a identidade, não. 
      E «quase idêntico»? A expressão é perfeitamente legítima. «Quase» não estabelece um grau de identidade: indica, precisamente, que a identidade não chega a verificar-se. Duas coisas quase idênticas não são idênticas; são muito semelhantes. Por isso, se o tempo de hoje não vai ser exactamente igual ao de ontem, mas apenas parecido, o que se deveria ter dito era muito simplesmente que vai estar «muito semelhante» ao de ontem. Fica para a próxima.

[Texto 23 637]

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