Léxico: «letra»
19.10.26
Mais um pontapé
No programa Jogo de Palavra, da Rádio Renascença, Rui Miguel Tovar entrevistou o antigo futebolista Paulo Padinha, capitão da equipa do Alverca que se sagrou campeã nacional de juniores em 2002. A certa altura, a conversa incidiu sobre as qualidades técnicas de Ricardo Quaresma, de quem Padinha afirmou que «fazia tudo». «Mas tudo é o quê?», perguntou o entrevistador. «Fazia letras, fazia trivelas...», respondeu o antigo jogador. Ora, este uso de «letra», como substantivo feminino autónomo, não está registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que apenas acolhe a locução «de letra». O Houaiss, por seu lado, regista-o, mas considera-o um brasileirismo e remete para «chute de letra». Como se vê, porém, não se trata de um uso exclusivo do português do Brasil, nem a palavra designa necessariamente um remate: uma letra também pode ser executada para fazer um passe ou um cruzamento. O testemunho de Paulo Padinha é particularmente elucidativo: «letras» surge no plural, em paralelo com «trivelas», designando, em ambos os casos, recursos técnicos do futebol. Justifica-se, portanto, o registo de uma acepção autónoma, que poderíamos definir assim: letra FUTEBOL toque dado na bola com um pé, fazendo-o passar por trás da perna de apoio.
[Texto 23 722]
edit
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