30.10.26
São capazes de negar que Cristo é Cristo
Na CNN Portugal, estou a ver um debate entre Joana Mortágua e uma tal Rute Sousa, influenciadora e empresária, que nunca vi mais gorda. Pernóstica e enfática, defende que nas manifestações pelo direito à habitação não se registaram cargas policiais. Nada disso. Houve, e legitimamente, «vagas de dispersão». Confesso que nunca tinha ouvido tal expressão. Fui investigar e descobri, com alguma surpresa, que «vagas de dispersão» não é uma invenção da comentadora. A expressão encontra-se, efectivamente, na bibliografia especializada sobre a actividade policial. Mais interessante ainda: num trabalho académico do ISCTE, esclarece-se que as chamadas «vagas de dispersão» são «mais conhecidas por cargas policiais». Ora aí está. Afinal, não se trata de duas coisas diferentes, mas de dois nomes para a mesma coisa. E, se a distinção não existe na própria bibliografia especializada, dificilmente poderá servir para negar aquilo que pretende apenas designar de outra maneira. Quanto à legitimidade da intervenção, é outra questão, que não se resolve por uma simples substituição de palavras. Uma carga policial não se torna mais legítima por passar a chamar-se «vaga de dispersão». Nem, já agora, menos violenta. A língua tem destas coisas: muda-se o nome, mas as bastonadas continuam a fazer doer.
[Texto 23 791]
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