Clássicos

O português que não se usa

      «O português sem gramática que se usa na televisão e nos jornais desceu à “língua de pau”. A “língua de pau” costumava ser um exclusivo do Partido Comunista, agora é a língua quase oficial da política, uma pasta mastigada e remastigada, que não exprime nada e não convence ninguém. [...] Do século XVI para a frente não faltava um único autor dos que mudaram e moldaram o português que hoje se usa ou, mais precisamente, não se usa. Para medir bem a nossa pobreza literária os “clássicos Sá da Costa” foram um instrumento único» («Os clássicos Sá da Costa», Vasco Pulido Valente, Público, 18.10.2013, p. 52).

[Texto 3411]

Ardeatinas

Depende de quem o diz

      Na pequena cidade de Albano Laziale, a 30 quilómetros de Roma, milhares de pessoas impediram que o ex-comandante nazi Erich Priebke fosse ali enterrado. «Priebke», disseram no Telejornal de ontem, «foi extraditado para Itália, condenado em 1998 a prisão perpétua pelo massacre das grutas Ardeatinas.» Ora dizem que são fossas, ora grutas, ora cavernas... É tudo o mesmo, querem ver? Bem, em italiano sabemos como é: fosse Ardeatine.
[Texto 3410]

«Gramática do Português»

Com 16 mil exemplos

      Acabam de me chamar a atenção para uma notícia do Diário Digital: é publicada hoje a Gramática do Português, «resultado de 13 anos de trabalho coordenado pelo Centro de Linguística da Universidade de Lisboa», com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. «“É uma gramática descritiva e explicativa acessível que responde a dúvidas que não são esclarecidas nas atuais gramáticas”, afirmou a investigadora Maria Bacelar do Nascimento, num encontro esta semana com jornalistas. A obra, que faz a ponte “entre a tradição gramatical” dos séculos XIX e XX e “os resultados da investigação linguística contemporânea”, destina-se “a um público com nível de instrução acima da média”, mas com explicações “tão simples quanto possível”.»
[Texto 3409]

«Cartola», uma acepção

A propósito de futebol

      «A presidente da República, Dilma Rousseff, sancionou a Medida Provisória 620, que inclui alterações na Lei Pelé e fixa, entre outros, a limitação dos mandatos e reeleições de dirigentes de entidades esportivas, a exigência de transparência financeira e administrativa e a participação de atletas e ex-atletas em conselhos e órgãos técnicos das instituições» («Dilma aprova lei contra a reeleição dos cartolas», F. S. P., Agora, 17.10.2013, p. B8).
      Para nós, coloquialmente, cartolas eram os indivíduos importantes. No Brasil, cartola é termo popular e pejorativo para designar os dirigentes de clubes desportivos.
[Texto 3408]

«Rádio de palavra»

Talvez seja melhor de música

      «Entre as rádios de palavra, a Antena 1, do Estado, e a TSF, da Controlinveste (grupo a que pertence o DN), mantiveram as suas posições relativas e comportamentos semelhantes, ambas subindo em relação ao período homólogo (+1,1 pontos percentuais) e caindo na comparação com vaga anterior (-0,3 pp, a TSF, e -0,4, a Antena 1)» («Comercial reforça liderança e TSF cresce no verão», N. A., Diário de Notícias, 16.10.2013, p. 51).
      Rádios de palavra, pois é — só é pena que na maioria do tempo sejam palavras sobre o futebol, essa doença nacional.
[Texto 3407]

Preferem «tournée»

Mais artístico talvez

      «Aos 66 anos, Elton dividiu seu tempo nos últimos meses entre a turnê de comemoração dos 40 anos de seu maior hit, “Rocket Man”, a recuperação de uma extração de apêndice, os cuidados com os filhos que ele e seu companheiro adotaram e a gravação deste “The Diving Board”» («Elton John grava canções desleixadas em álbum que não faz justiça a seu talento», Thales de Menezes, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E5).
      Este aportuguesamento — turné, aliás — ainda não entrou nos nossos hábitos. Ainda achamos (acham os jornalistas) que tournée diz mais. É mais artístico.
[Texto 3406]

«Amicus curiae»

Conhecíamos os da onça

      «O Procure Saber [grupo composto por Roberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, entre outros] deve entrar no processo como “amicus curiae” (parte interessada). O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a ONG Artigo 19 já atuam na ação por meio do mesmo dispositivo» («Direito à privacidade divide advogados», Juliana Gragnani, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E3).
      No glossário jurídico do sítio do Supremo Tribunal Federal (STF), lá está a definição: «Intervenção assistencial em processos de controle de constitucionalidade por parte de entidades que tenham representatividade adequada para se manifestar nos autos sobre questão de direito pertinente à controvérsia constitucional. Não são partes dos processos; atuam apenas como interessados na causa. Plural: Amici curiae (amigos da Corte).»
[Texto 3405]

Léxico: «civilizatório»

Só no Brasil

      «“As editoras já não aceitam biografias não autorizadas. A Alice Ruiz [viúva de Leminski] pediu alterações, inclusive na parte que fala sobre o problema dele com o alcoolismo. Isso transformaria o livro em chapa-branca. Decidi disponibilizar na internet como contribuição civilizatória” [disse o escritor Domingos Pellegrini]» («Livro sobre Leminski será enviado por e-mail», Wilhan Santin, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E3).
      Hum, os nossos dicionários não conhecem o vocábulo «civilizatório». Regista-o o Aulete: «Que tem atuação positiva no processo de civilização».
[Texto 3404]

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