Léxico: «entronizar | entronização | confrada | confradesa»

Andamos distraídos


      «Uma vez por ano a Confraria da Cerveja escolhe um monumento para receber a sua Cerimónia de Entronização. Este ano a escolha incidiu no Convento de Mafra. A XXII Cerimónia de Entronização realiza-se no dia 1 de Outubro e deverá reunir cerca de 200 convidados. A edição deste ano fica também marcada por um número redondo: desde a fundação da instituição, em 2003, já foram entronizados 1100 confrades e confradesas» («Mafra recebe Entronização da Confraria da Cerveja», Azul, Ericeira Mag,  28.09.2026). 
      O trecho do artigo chama a atenção para três lacunas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Não: em todos os dicionários. Em primeiro lugar, «confradesa», feminino de «confrade», não está registado, apesar de ter uso efectivo e consolidado no âmbito das confrarias portuguesas. Não se trata apenas de uma opção da Confraria da Cerveja, que emprega regularmente formas como «confrades e confradesas» e «confrades ou confradesas de honra». Em estatutos da Confraria das Artes — Associação dos Amigos da Gastronomia, lavrados em 14 de Novembro de 2005 e publicados no Diário da República de 9 de Fevereiro de 2006, encontram-se, por exemplo, «demissão do confrade/confradesa» e «todos os confrades e confradesas». A forma ocorre igualmente na imprensa portuguesa. Parece, pois, haver fundamento bastante para o registo de confradesa, que poderia ser definido simplesmente como «mulher que pertence a uma confraria; confreira», além de a forma passar a figurar entre os femininos indicados no verbete de «confrade». Ao mesmo tempo, conviria registar também confrada, feminino antigo de «confrade». A palavra está documentada em português desde a Idade Média — encontram-se testemunhos dos séculos XIV e XV —, embora tenha posteriormente caído em desuso, ainda que aqui e ali se use, seja por graça, seja por convicção. Justificar-se-ia, portanto, a sua inclusão, com a marca desusado. Finalmente, o mesmo excerto revela duas lacunas semânticas. No vocabulário das confrarias, entronizar adquiriu a acepção de «investir solenemente alguém como membro de uma confraria», não contemplada no verbete actual. Correspondentemente, entronização designa a «cerimónia solene de investidura de novos membros de uma confraria». Ambos os usos estão largamente documentados há décadas em confrarias portuguesas, pelo que se justifica o seu registo em acepções próprias.

[Texto 23 606]

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