Bailarinas, dançarinas e jornalistas

Foguetório

     
      «A Câmara Municipal de Lisboa decidiu homenagear Pina Bausch (1940-2009), bailarina e coreógrafa alemã, figura revolucionária da dança, com uma rua na freguesia do Lumiar. Só que poucas horas depois de divulgar nas redes sociais a homenagem, o município liderado por Carlos Moedas foi alertado para o facto de ter designado a artista alemã como “dançarina”, em vez de “bailarina”» («Câmara Municipal de Lisboa assume erro em placa de homenagem a bailarina Pina Bausch», Joana Moreira, Observador, 25.09.2026, 12h18). Ai as redes sociais, que medo! E a historieta teve direito a ampla divulgação: só hoje ouvi-a duas vezes na Rádio Observador. A jornalista cita depois Bruno Cochat, bailarino, coreógrafo, ex-coordenador dos Estúdios Victor Cordon, na publicação da autarquia no Facebook: «Eu sei que é confuso, em português, os bailarinos dançam e os dançarinos bailam mas, na dúvida, era só perguntar… Até dói!» Em tom complacente, como se estivesse a explicar uma subtileza da língua que escapasse ao comum dos mortais. Mas será mesmo assim tão simples? 
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define bailarino como «pessoa que tem como profissão dançar; dançarino» e dançarino como «o que tem como profissão dançar; bailarino». (E digo «bailarino» e «dançarino» porque a Porto Editora se esqueceu de registar «dançarina».) Isto é, não só os apresenta como sinónimos, como recorre exactamente ao mesmo verbo, «dançar», para definir ambos. Segundo o dicionário, portanto, os bailarinos dançam e os dançarinos também. Claro que os dicionários não são infalíveis, eu que o diga, nem ditam o uso: podem não registar uma distinção que os falantes fazem ou, pelo contrário, manter como sinónimas palavras que entretanto se especializaram. É, pois, ao uso que temos de perguntar.
      E aqui acontece uma coisa deliciosa. Nem sequer precisamos de sair do Observador. Em 31 de Janeiro deste ano, Maria Ramos Silva escrevia ali, a propósito da criadora de moda Maria Carlos Baptista: «Falamos com Maria Carlos Baptista, outrora bailarina [...] inspirada por duetos artísticos como o que uniu Yohji Yamamoto e a dançarina Pina Bausch». Bailarina e dançarina, portanto, no mesmo trecho — e dançarina aplicado precisamente a Pina Bausch. Oito meses depois, hoje, o mesmíssimo Observador noticia que a Câmara de Lisboa foi alertada para o «facto» de ter designado Pina Bausch como «dançarina», «em vez de bailarina». Afinal, em Janeiro, ninguém parece ter dado pelo erro. Nem doeu.
      Mas há melhor. Bruno Cochat foi coordenador dos Estúdios Victor Cordon. Pois são os próprios Estúdios Victor Cordon que apresentam Lewis Seivwright como «Bailarino, Professor», informam que «foi bailarino» na companhia alemã Tanzmainz e, logo na frase seguinte, escrevem: «Desde 2016, atua como dançarino freelancer». E, noutra página, apresentam Connor Scott, formado na Rambert School of Ballet and Contemporary Dance e vencedor do BBC Young Dancer Award, como «um dançarino e coreógrafo britânico».
     Não são casos isolados. O LEFFEST, por exemplo, encabeça a ficha biográfica do português Paulo Ribeiro com uma única palavra: «Dançarino». Logo a seguir, porém, informa-nos de que «foi em várias companhias belgas e francesas que fez carreira como bailarino». Pelos vistos, pode fazer-se carreira como bailarino e acabar numa ficha biográfica como dançarino sem que a língua portuguesa sofra dano de maior.
      Tudo isto não significa que bailarino e dançarino sejam sempre perfeitamente permutáveis. É bem possível — e a minha própria intuição de falante vai nesse sentido — que bailarino seja hoje, em Portugal, a designação profissional mais corrente e mais prestigiante, sobretudo em determinados meios da dança. Se o uso estabeleceu ou está a estabelecer alguma especialização entre os dois vocábulos, os dicionários deverão registá-la.
      O que os factos não permitem, pelo menos por enquanto, é proclamar que chamar «dançarina» a Pina Bausch constitui um erro clamoroso, muito menos uma daquelas subtilezas apenas reservadas aos iniciados. Os dicionários apresentam «bailarino» e «dançarino» como sinónimos; o uso acolhe ambas as designações, chegando a aplicá-las à mesma pessoa no mesmo texto; o próprio Observador chamou «dançarina» a Pina Bausch; e até os Estúdios Victor Cordon, que Bruno Cochat coordenou («liderou», escreveria Joana Moreira), empregam «bailarino» e «dançarino» para designar o mesmo profissional.
      A Câmara tinha, aliás, uma razão muito simples para corrigir a placa: segundo esclareceu, a Comissão Municipal de Toponímia aprovara «Bailarina e Coreógrafa», e foi «Dançarina e Coreógrafa» que acabou por ser gravado. Houve, portanto, um erro. Mas talvez não tenha sido o erro que as redes sociais julgaram descobrir.

[Texto 23 592]


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