Obras do P. António Vieira

Promete

      «Pela primeira vez vai ser reunida a obra completa do Padre António Vieira, com cartas, sermões, profecias, política, teatro, incluindo textos inéditos — a edição dos 30 volumes pelo Círculo de Leitores tem o custo de 500 mil euros e a Santa Casa da Misericórdia (SCML) é o mecenas principal, associando-se à Universidade de Lisboa (UL)» («Santa Casa paga 500 mil euros para editar todo o Padre António Vieira», Alexandra Prado Coelho, Público, 6.02.2013, p. 30).
      O conjunto vai incluir um dicionário sobre António Vieira e 60 cartas inéditas, encontradas agora na Torre do Tombo.
[Texto 2567]

Léxico: «ismaelita»

Não só, não só

      «Nicolas Sarkozy regressou à advocacia e o seu primeiro cliente foi o bilionário Karim Aga Khan. Aos 76 anos, o imã dos ismailitas encontra-se enredado no segundo processo de divórcio e o jornal britânico The Times garante que requisitou os serviços do ex-presidente francês» («Sarkozy defende Aga Khan em divórcio», Diário de Notícias, 5.02.2013, p. 27).
      Claro que é ismaelita que se escreve. Mas consultemos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. «Ismaelita», neste dicionário é, como substantivo, o «descendente de Ismael, filho de Abraão», e como adjectivo, «relativo à tribo de Ismael» e «árabe». Está incompleto. Onde pára a acepção do texto? Os ismaelitas são um dos três ramos dos muçulmanos xiitas.
[Texto 2566]

Léxico: «madrasto»

De madrasta

      «Depois, com o tempo, por vicissitudes da própria actividade e da vida, as coisas vão regredindo, portanto, e vai havendo aqui um certo desalento e abandono, por dificuldades de comercialização, por dificuldades de organização, por dificuldades, portanto, de baixo rendimento, porque nós realmente desenvolvemos a actividade num meio que nós não controlamos, dependemos do clima, e isso por vezes é muito madrasto e tem dificuldades e tem consequências, digamos, muito nefastas» (Luís Saldanha Miranda, presidente dos Confederação Nacional dos Jovens Agricultores, no programa Portugal em Directo, 4.01.2013).
      Vá lá, ainda a encontramos aí pelos dicionários: «hostil e ameaçador». Muita gente, comprovei nas últimas horas, desconhecia a palavra. Ora, estamos sempre a tempo de aprender e usar.

[Texto 2565]

Porque não «micro-hostal»?

Seria mais coerente

      «Abriu este fim-de-semana [sic] o primeiro micro-hostel do mundo, no centro de Moscovo, a capital da Rússia» («Rússia inaugura primeiro micro-hostel do mundo», M. A. B., Diário de Notícias, 4.02.2013, p. 33).
      Se escrevem «hostal», como já vimos aqui (vocábulo que, por minha sugestão, passou a fazer parte, juntamente com «hostau», do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora), porque não escrevem «micro-hostal»?
[Texto 2564]

Como se escreve nos jornais

Pobre hífen, pobres alunos

      «De acordo com o porta-voz do estado maior das tropas francesas, o coronel Thierry Burkhard, “importantes ataques aéreos” foram levados a cabo na noite de sábado para domingo na zona de Tessalit, 200 quilómetros a norte de Tidal» («Chefes islamitas do Mali refugiam-se nas montanhas», Diário de Notícias, 4.02.2013, p. 22).
      Então e eu não sei que já escrevi isto?! Os jornalistas do Diário de Notícias deixaram, vá lá saber-se porquê, de usar o hífen em palavras que não mudaram com o acordo. Já vi o mesmo fenómeno em professores de Português. Claro que há erros ainda mais graves. Ontem, mostraram-me um texto de uma professora de Português em que se lia que era docente «à pelo menos metade de uma vida». Não há vidas que cheguem para curar tamanha ignorância.
[Texto 2563]

Como se escreve nos jornais

Pelo menos isso

      «No livro lançado na sexta-feira em Itália, Ali Agca conta como fugiu de uma prisão turca, na qual cumpria pena pelo assassínio de um jornalista e fala da sua estadia em Teerão, onde foi “doutrinado” durante várias semanas, antes de um suposto encontro noturno com o Guia Supremo da Revolução Iraniana, o ayhatollah [sic] Khomeini» («Memórias de Ali Agca em novo livro», Diário de Notícias, 4.02.2013, p. 25).
      E as aspas são para quê, pode saber-se? O homem foi doutrinado ou não foi? E estadia não é o tempo que um navio gasta, no porto, para carga e descarga? Era, dizem-me aqui. «Alguns gramáticos acham que estadia pode ser usada no mesmo sentido de estada.» E ayatollah mal escrito e sem itálico nem aspas a marcá-lo como termo de língua estrangeira. Podem não gostar — e não sei porquê — do aportuguesamento aiatola, mas então escrevam correctamente o termo estrangeiro.
[Texto 2562]


Léxico: «pesqueira»

Lampreia no Alto Minho

      «As pesqueiras são estruturas consideradas como prédios rústicos» (jornalista Andrea Neves, Jornal da Tarde, 3.01.2013). O Sr. António Castro, pescador e dono de uma pesqueira, explica mais: «Nós pagamos uma contribuição como seja um prédio rústico, uma casa ou assim. E depois pagamos uma contribuição para poder armar. E há muitas pesqueiras aqui que chamam-lhes eles interditas, que paga-se a contribuição, mas não se pode armar. É o mesmo que uma pessoa tendo a casa não pode habitá-la. A pesqueira é de uma pessoa só, foi quem a fez, os antepassados já. E depois aquilo fica dividido pelos filhos, pelos netos, e tudo mais. Depois cada um tem o seu dia aqui.»
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pesqueira é o «lugar em que há aparelhos de pesca». Quem nunca viu uma pesqueira, como é o meu caso, não vai, pela simples leitura desta definição, poder imaginar sequer do que se trata. Para o Dicionário Houaiss, que não nos leva mais longe, é o «lugar em que se encontram armações de pesca», mais ou menos a definição que já encontramos em dicionários mais antigos. Tendo em conta o que se vê na imagem, a melhor definição é a da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol. 21, p. 468): «Construção de madeira ou alvenaria que se instala na margem ou leito do rio, para estabelecimento de aparelhos de pesca.»
       (Quanto à contribuição, Sr. António Castro, não há-de ser elevada, pois o IMI rústico representa menos de 1 % do IMI total no País.)
[Texto 2561]

O desastre ortográfico

Último parágrafo da crónica de MST

      «Porque uma coisa é garantida: a arrogância dos poderosos não conhece arrependimento. Eles jamais voltarão atrás, reconhecendo que se enganaram, que se precipitaram, que foram atrás de vozes de sereias, que se esqueceram de que há coisas que nenhum país independente cede sem estremecer: o território, o património, a paisagem, a língua. Trataram isto como coisa menor, como facto herdado e consumado, de ministro em ministro, de governo em governo, de parlamento em parlamento, de Presidente em Presidente. Partiram do princípio de que os portugueses comem tudo, desde que bem embrulhado em frases grandiloquentes, com a assinatura dos influentes e a cumplicidade dos prudentes. Mas, dêem agora as voltas que quiserem dar aos acordos que assinaram e à língua que lhes cabia defender e não trair, cobriram-se de ridículo. Está escrito nos livros de História: um país que se humilha para agradar a terceiros, arrisca-se a nada recolher em troca, nem a gratidão dos outros nem o respeito dos seus. Apenas lhe resta o ridículo. Oxalá ele chegasse para matar de vez o triste Acordo Ortográfico!» («O desastre ortográfico», Miguel Sousa Tavares, Expresso, 19.01.2013, p. 7).
[Texto 2560]

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