«Município/concelho»

Que confusão?

      Há confusão entre os conceitos de município e de concelho? Juro que nunca tinha reparado. O primeiro é a instituição e o segundo o território, afirma categoricamente quem diz que há confusão. Consultemos um dicionário e uma enciclopédia. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, município é a «circunscrição [ou seja, divisão] territorial em que uma vereação exerce a sua jurisdição»; concelho, para este dicionário, é a «subdivisão do território sob administração de um presidente da câmara e das restantes entidades autárquicas». Parecem-me sinónimos. Para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, município é a «extensão territorial, em que se exerce a jurisdição de uma vereação» (Vol. 18, p. 169); concelho é a «circunscrição territorial em que se divide o distrito» (vol. 7, p. 345). Parecem-me sinónimos. Decerto: era preciso aprofundar mais a questão, consultar outras fontes, mas esta análise perfunctória demonstra que, a haver confusão, não é recente nem provém só de uma fonte.
[Texto 2559]

Como se escreve nos jornais

«Produtos»?

      «Segundo um estudo realizado pela Associação para a Promoção da Segurança Infantil [APSI] abrangendo [sic] o período entre 2000 e 2009, as varandas e as janelas são os produtos que aparecem mais vezes envolvidos em quedas (38%)» («Menino caiu da varanda enquanto o pai foi ao pão», Alfredo Teixeira e Inês Banha, Diário de Notícias, 1.02.2013, p. 17).
[Texto 2558]

Gutural, pouco democrático

Não sei se percebo...

      «Já o historiador José Pacheco Pereira está preocupado com “a tendência para tornar a língua gutural” — com menos palavras, algo que considera “pouco democrático”, evocando George Orwell, fruto da “simplificação publicitária, do marketing” ou dos usos nos SMS ou no Twitter. Convidado a falar sobre o uso do Português nos media, inquieta-o “a substituição da complexidade do pensamento por mecanismos de comunicação guturais e reduzidos à sua essência, um problema em que a comunicação social colabora para ser ‘moderna’”» («Português vai desaparecer como língua de trabalho na UE, diz Seixas da Costa», Joana Amaral Cardoso, Público, 1.02.2013, p. 28).
[Texto 2557]

Os Rothschilds

Pois claro

      «Wilson disse ao Guardian e à BBC que o estudo da colecção — a que pretende dedicar-se — poderá trazer surpresas. O conservador não acredita que haja falsos entre os 500 objectos, mas admite que a investigação poderá vir a provar que alguns foram alterados ou melhorados no século XIX, quando os coleccionadores milionários, como os Rothschilds, os disputavam nos leilões e nos grandes antiquários europeus» («Jarro português do século XVI faz parte de tesouro doado ao Museu Ashmolean», Lucinda Canelas, Público, 1.02.2013, p. 28).
[Texto 2556]

Léxico: «carrinha celular»

Estamos sempre a tempo

      «A carrinha celular partiu do Estabelecimento Prisional de Braga, transportando reclusos que seriam julgados no Tribunal de Guimarães e foi já quase a chegar à cidade que, na descida da autoestrada, após o alto da Morreira, na freguesia de Brito, que [sic] o veículo entrou em despiste» («Reclusos e guardas prisionais feridos em acidente na A11», Diário de Notícias, 30.01.2013, p. 21).
      Só hoje, depois de eu ter feito a sugestão, é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora passou a registar a locução carrinha celular.

[Texto 2555]

Outros em «-cídio»

Incompleto

      E, a propósito, fui ver como trata o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora os termos terminados em -cídio. Trata mal. Assim, se regista gaticídio, o acto ou efeito de matar gato(s), não regista avunculicídio, a morte do tio materno. Pior ainda: regista animicida, aquele ou aquilo que mata a alma, e não regista animicídio. Chega, como amostra. Para uma pequena lista de termos com este elemento, ver aqui no Assim Mesmo.
[Texto 2554]

Sobre «austericídio»

O contrário do que se pretende

      «“Este contexto de pressão coletiva, em resultado da política de ‘austericídio’ que o governo e a troika estão a levar à prática, afeta todas as famílias portuguesas. E as mulheres nas famílias são quem mais paga os custos”, afirmou [Ana Gomes], em Bruxelas, em declarações ao DN» («Ana Gomes acusa Governo de “austericídio”», J. F. G., Diário de Notícias, 30.01.2013, p. 12).
      Mau! Mas Ana Gomes não estará a dizer precisamente o contrário do que pretende? Austericídio só pode ser a morte da austeridade, como «homicídio» é a morte de uma pessoa praticada por outra. A eurodeputada socialista queria dizer talvez democídio, que é a morte do próprio povo às mãos do Estado.

[Texto 2553]

 

Léxico: «baforada»

Inspirar e expirar

      «Dá uma baforada no cigarro, sai do centro, nem mais uma palavra» («Recordações dolorosas para quem tenta viver com a perda e... a saudade», Luís Godinho e Luís Fontes, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 4).
      Pensamos logo em fumaça, mas esta é a «quantidade de fumo aspirado de uma vez», tal como a passa é o «acto de inalação profunda do tabaco ou droga que se está a fumar», ao passo que a baforada é o «sopro de fumo de cigarro, charuto, etc.» Tudo segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas torço o nariz àquele «acto de inalação». Não chegava «inalação», que já é o acto ou efeito de inalar?
[Texto 2552]

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