Sobre «maometanismo»

Ambos do francês, é claro

      Acabei de ler um texto em que o autor usou a palavra «maometanismo». Caramba. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o verbete remete para «maometismo». «Termo, como o maometismo, impròpriamente usado para designar a religião pregada por Maomé. A designação mais apropriada dessa religião é Islamismo, de Islão, “submissão à vontade divina” (v.). Por maometismo ou maometanismo devemos porém compreender o conjunto de factores sociais, económicos e militares que acompanharam a eclosão do islamismo e a sua propagação a um vasto sector geográfico do Mundo» (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 16, p. 194).

[Texto 2511]

Ortografia: «daytime»

Só uma

      «Desde ontem que o day time da RTP1 está diferente. Da parte da manhã, a Praça da Alegria é agora conduzida por João Baião e Tânia Ribas de Oliveira em direto de Lisboa e as tardes contam com José Carlos Malato e Marta Leite de Castro à frente de Portugal no Coração» («Alberto da Ponte visitou ontem os estúdios dos programas de ‘day time’», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 15.01.2013, p. 50).
      Todos os dicionários de inglês que consultei registavam daytime, uma só palavra. E desconfio que não precisamos dela para exprimir a ideia. Tal como não precisamos de prime time, que felizmente vejo cada vez mais traduzida pela expressão portuguesa «horário nobre».
[Texto 2510]

Tradução: «condition»

Um dia

      «Recorde-se que a mulher do filho mais velho da princesa Diana e do príncipe Carlos esteve recentemente internada no hospital londrino King Edward VII, com enjoos matinais crónicos (hyperemesis gravidarum), condição comum numa grávida múltipla» («Bebé pode nascer no aniversário da princesa Diana», Marlene Rendeiro, Diário de Notícias, 15.01.2013, p. 53).
      Um dia, quando dispuser de tempo (talvez hoje), a jornalista Marlene Rendeiro ainda vai comprovar num dicionário que nem todas as acepções do inglês condition têm correspondência no nosso vocábulo «condição».
[Texto 2509]

Léxico: «ânsio-depressivo»

Já podem usar

      «Segundo a sua defesa, entregue ao advogado Rui Veiga Pinto, um ano após a sua “destituição sem justa causa”, o maestro ainda sofria de “sintomatologia ânsio-depressiva grave”, que se manifestava em “apatia, sentimentos de desespero e mesmo inclinação suicida”. Uma junta médica acabou por o declarar incapaz, levando à sua aposentação prematura» («Tribunal da Relação nega indemnização de dois milhões ao maestro Graça Moura», Ana Henriques, Público, 15.01.2013, p. 10).
[Texto 2508]

É «meteorológico», suas melgas

Também tu, Arnaldo?

      «Ninguém se entendia com aquelas pirraças metereológicas, que é bem de calcular o quanto acrescentariam de zanga àquêles espíritos já por tão justos motivos concitados» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 11).
      Culpa do tipógrafo, eu sei. Pois. Como também sei que, na rádio e na televisão, é erro muito comum. Ou era. Na passagem do ano, comecei a reparar que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera passou a integrar vários institutos, entre eles o Instituto de Meteorologia, o que, deo gratias, reduzirá a oportunidade de propinar aos ouvintes mais uma calinada. De meteoro (e saberão, mesmo a generalidade dos jornalistas, que meteoro é o nome que se dá a qualquer fenómeno que ocorre na atmosfera? Hum...) só podíamos ter meteorológico, ou não?
[Texto 2507]


«Modelizar»?

É só copiar sem pensar

      «Pelo contrário, quando modelizaram a aerodinâmica das gaivotas e estimaram o número dessas aves necessário para levantar o pêssego e arrastá-lo, ao longo de milhares de quilómetros, atrelado à “cordas” excretadas por um bicho-da-seda gigante, perceberam que aí as contas não batiam nada certo. O número de 501 gaivotas avançado por Dahl estava completamente errado» («Quantas gaivotas conseguem levar um pêssego gigante até a [sic] América?», Ana Gerschenfeld, Público, 14.01.2013, p. 26).
      Tinha de ser: directamente do inglês to modelize. E para quê, não temos forma de dizer exactamente o mesmo com uma palavra nossa? Temos.
[Texto 2506]

Léxico: «XPTO»

Tal como este

       «Podiam ter gravado num estúdio xpto», acabei de ler. XPTO começou por ser apenas o tetragrama (abreviatura, X. P. T. O., como informa Fr. Domingos Vieira e Botelho de Amaral lembra) sagrado dos tempos das catacumbas, e mais tarde nos manuscritos, e que servia para designar Cristo. Com o tempo, passou a designar, em sentido figurado e na gíria, o que é óptimo, excelente, de elevada qualidade. Ora, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, XPTO é somente a «abreviação da palavra grega XPISTOS» e significa Cristo. Não chega, meus senhores, está incompleto.

[Texto 2505]

Léxico: «pedipalpo»

Está, pois, incompleto

      Lembram-se do opilião? Pois ainda não está no dicionário. E agora leio que, para «detectarem o que se passa em seu redor, os opiliões utilizam os pedipalpos (segundo par de patas mais próximo da cabeça), com função sensorial». Ora, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pedipalpo, como substantivo, é apenas a «ordem de aracnídeos tropicais, caracterizados por terem quelíceras terminadas por unha e o primeiro par de membros em forma de chicote». Para o Houaiss, «pedipalpo» também é o segundo par de apêndices dos aracnídeos, o que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só conhece como palpo, «cada um dos elementos do segundo par de apêndices dos aracnídeos».

[Texto 2504]

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