Sobre «bonzo»

Tubérculo ou hipócrita?

      «E o pior é que só num país de parolos e provincianos se pode pensar que os males feitos à paisagem poderiam algum dia ser mitigados entregando uma parte da obra ao lápis de um arquitecto premiado (Eduardo Souto Moura), a quem a EDP pagará o que for necessário para dar verniz ao empreendimento. Nunca será mais do que verniz, só que com a chancela de um bonzo da cultura indígena» («Regresso ao mundo real: o irrealismo de uma barragem», José Manuel Fernandes, Público, 18.05.2012, p. 52).
      Já li e ouvi algumas vezes, é certo, mas nunca me pareceu bem usado. Bonzo é um sacerdote budista ou, popularmente, homem hipócrita ou indivíduo impassível. De outro étimo, do quimbundo, temos também em Angola os bonzos, que é o nome dado à batata-doce cozida, com azeite, bananas e milho, vendida às portas das casas.
[Texto 1544]

Léxico: «charabiá»

Quase rebuscado

      «A etiqueta exige que o sr. Hollande receba uma “adenda” sobre crescimento ao “tratado orçamental” (que ficará no papel) e com isso terminará a sua radiante passagem pela crise. A imprensa económica anglo-saxónica, de resto, não se interessa pelo charabiá da França» («A pergunta», Vasco Pulido Valente, Público, 18.05.2012, p. 56).
      Charabiá significa algaravia. Curioso é que conste do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas não do Dicionário da Língua Portuguesa da mesma editora. Provém do francês charabia: «patois auvergnat» e, por extensão de sentido, «langage parlé ou écrit qui est ou qui semble incompréhensible parce qu’il est inconnu, incorrect ou hétéroclite».
      «É galicismo inútil, pois o têrmo francês vem justamente do esp.-port. algaravia», alerta a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
[Texto 1543]

«Família militar»

Já estamos habituados

      «O atual Executivo — após anos de adiamentos e indecisões — aprovou a instalação do hospital militar único no Lumiar, tendo como missão prestar cuidados de saúde diferenciados aos militares das Forças Armadas e à família militar, assim como aos deficientes militares, podendo servir outros utentes ao articular-se com o Serviço Nacional de Saúde» («Aprovado hospital militar único», Diário de Notícias, 18.05.2012, p. 13).
       O jornalista confundiu um pouco as coisas: a curiosa expressão «família militar», em uso pelo menos desde o século XIX, não significa, como parece ter sido usada no artigo, os membros da família dos militares. Espantoso é como os jornalistas confundem tanto.
[Texto 1542]

Traduzido pelo porteiro

Para rir

      Vem em toda a imprensa internacional: uma imagem do estofador Stephen Mills a trabalhar no assento que a rainha Isabel II usará na lancha real. Vai daí, o Diário de Notícias não podia ficar atrás e publica fotos em duas páginas e escreve isto: «Upholsterer Stephen Mills trabalha no trono que a Rainha usará na Barge Royal, na oficina de AlbertE. [sic] Chapman, na zona norte de Londres» («Os passeios da rainha», pp. 8-9).
      «Upholsterer Stephen Mills works on seating for the Royal Barge, in the workshop of Albert E. Chapman in north London on May 11, 2012.»

[Texto 1541]

«Apelar para»

Aqui não errou

      Em Aquilino Ribeiro* vê-se de tudo: o que se deve e o que se não deve imitar. Eis dois exemplos da primeira espécie: «Tanto assim que apelaram para o Parlamento de Paris, que lhes deu razão, desse jeito colocando-se sob a égide de França» (Portugueses das Sete Partidas, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, [1951], 3.ª ed., p. 215). «Do Louvre o infante endereçava-lhe reiteradas instâncias e alvitres: vendesse isto, hipotecasse aquilo, tais alfândegas à Hansa, apelasse para o comércio... para a indústria... para a judiaria...» (idem, ibidem, p. 216).
[Texto 1540]


* Ia escrever «Na obra, etc.», mas: «obra, literária e artìsticamente falando, tem significação singular, e não colectiva» — Leite de Vasconcelos.

Incoerências ortográficas

Pouco mudou

      «Hífen a mais. G. Viana, a Academia de Lisboa e agora o Resumido puseram o hífen a alta-roda. Compare-se, porém, com alta sociedade, alta escola, alta cultura, alta estirpe e até alta costura, e ver-se-á a incongruência» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 21).
      Se se tivesse aceitado metade das alterações propostas, a seu tempo, por Vasco Botelho de Amaral, estaríamos hoje a escrever de forma sensivelmente diferente. Continua tudo mais ou menos na mesma — mesmo depois do Acordo Ortográfico de 1990. Só «alta-costura» passou, há não muitos anos, a ser grafado com hífen, assim como também passou a escrever-se «alta-fidelidade». Mas já vi «alta-luz», «alta-resolução» e «alta-tensão». E com «alto»? «Alto-comando», «alto-comissário», «alto-contraste», «alto-explosivo», «alto-falante», «alto-forno», «alto-mar», «alto-relevo», e os Brasileiros, não é assim, Paulo Araujo?, têm «alto-astral».
[Texto 1539]

Sobre «prestação»

Arreda!

      Sim, a língua evolui, etc., e tal, mas a verdade é que detesto, com todas as veras, a palavra «prestação» na acepção de actuação. Se for na oralidade e a sílaba -ta- for aberta, só me apetece mesmo esbofetear o artista. E muito me agrada ver que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a acolhe.

[Texto 1538]

«Há uns meses que...»

Corta!

      «Volto ao teatro. Há uns meses que faço a pergunta, sem lhe achar a resposta: — “O que mudou essencialmente nas atrizes, nos atores, nos diretores?” Outra pergunta: — “E por que não há mais Duse, nem há mais D’Annunzio?” Imaginem vocês que, de repente, descobri toda a verdade» (A Cabra Vadia: Novas Confissões, Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Agir, 2007, p. 403).
      A Montexto devemos, estarão recordados disso, este ensinamento: não é necessário, nesta construção, a preposição.
[Texto 1537]

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