«Tomar parte em»

Cultura universal

      «E apesar do [sic] arguido ter sempre negado ter estado em Cacia, um antigo colega disse à PJ que ambos tomaram parte em trabalhos durante a construção do centro de saúde de Ílhavo (1996 e 1997)» («‘Estripador’ recusou fazer exame de ADN», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 25.05.2012, p. 18).
      Parece português, dizem que é castelhano, mas veio do francês: prendre part à.
[Texto 1584]

Maiusculação dos pontos cardeais

Depois digam qualquer coisa

      «Na década de 1980, as larvas desta borboleta alimentavam-se no Sul de Inglaterra quase exclusivamente de uma planta silvestre, a Helianthemum nummularium, de nome comum Cisto» («Borboleta em declínio ganhou terreno com alterações climáticas», Filomena Naves, Diário de Notícias, 25.05.2012, p. 41).
      Como já vimos, a doutrina interna do jornal diverge: uma parte dos jornalistas grafa com minúscula os pontos cardeais quando estão junto de topónimos, outra parte grafa-os com maiúscula. Experimentem, é o meu fraternal conselho, ler o texto do acordo.
      O nome comum do Helianthemum nummularium só pode ser cisto. Se é comum...
[Texto 1583]

«Desprezível/desprezável»

Que se pode desprezar

      «Vestígios à parte, a investigação considera “desprezível”, por ser “muito baixa”, a probabilidade estatística de um indivíduo acertar aleatoriamente o local do homicídio da jovem prostituta Filipa Ferreira (Cacia, Aveiro), não dando crédito à tese assumida por José Guedes após a detenção de ter ficcionado a confissão dos crimes» («‘Estripador’ recusou fazer exame de ADN», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 25.05.2012, p. 18).
      Foi um polícia que falou assim? Então está tudo dito — ou quase. Desprezível usa-se, por exemplo, em relação a uma pessoa ou atitude dignas de desprezo, que merecem desprezo. Desprezável deve usar-se em relação a tudo aquilo que se pode desprezar, que não merece a nossa atenção. Assim, a probabilidade seja do que for só pode ser desprezável.
[Texto 1582]

Como falam os nossos políticos

Calma, calma

      Fala o Sr. Deputado Adolfo Mesquita Nunes: «Foi referido nesta reunião de que Portugal estaria a ultrapassar neste momento a fase pior, já estava a encontrar no caminho para sair do ponto mais baixo da recessão.»
[Texto 1581]

Porquê «açoriano»

Está explicado

      É relativamente comum encontrar o erro «açoreano» em vez de «açoriano», como a actual ortografia nos manda escrever. Vejam, porém, donde vem o erro: o falante pensa sempre na palavra de que deriva, um plural, que tem e e não i: Açores. «Ora, em açoriano, este i, espetado pelos filólogos, não pertence ao tema. Entre a derivação de Horatius – horatianus e Açores – açoriano só há uma analogia: a de um ovo com um espeto» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 109). «Como filólogo, só lamento que não seja o Vocabulário de Viana a base da nossa escrita. Lá estava já: – açoreano, torreano» (idem, ibidem, p. 110).
[Texto 1580]

Léxico: «cranioencefálico»

É claro que não

      «Uma menina de três anos sofreu um traumatismo crânio-encefálico depois de o carro em que se encontrava ter deslizado pela rampa de acesso da sua casa no Torrão, Marco de Canavezes [sic]» («Menina de três anos ferida após destravar automóvel», Mónica Ferreira, Diário de Notícias, 24.05.2012, p. 21).
      Nada disso, cara Mónica Ferreira: com o elemento de composição crani(o)- nunca usamos hífen. Logo, cranioencefálico. Pergunto a mim próprio se não estar registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não contribuirá para estes erros. Já fiz a sugestão ao Departamento de Dicionários.
[Texto 1579]

«PPP’s»

Mas é um bom exemplo

      «Quer isto dizer que numa democracia europeia será mais difícil a cada grupo controlar uma agenda em que os outros grupos se decidam por PPP’s? Admito: o exemplo é doloso» («A democracia na Europa», Pedro Lomba, Público, 24.05.2012, p. 48).
      Em português, o apóstrofo serve apenas para assinalar a elisão de uma ou mais letras. Que letra ou letras suprimiu, Pedro Lomba? Ah, e as siglas não têm plural.
[Texto 1578]

«Setúbal»

Digo de novo

      O Prontuário Sonoro da RTP, que ainda ontem foi recomendado no programa Nativos Digitais, acolhe a entrada «Sergei Rachmaninoff», mas mais valera que registasse, a avaliar pelo que ouço todos os dias na Antena 1, o topónimo Setúbal. Parecem todos asmáticos ou a convalescer de uma afonia. E isto não é implicância subitânea, antes amadurada reflexão, pois que há menos de dois anos já o escrevi no Assim Mesmo. Se o repito, é porque nada mudou. Assustariam o próprio Mafarrico.
[Texto 1577]

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