«Sarna/escabiose»

Pior que a sarna?

      «Dois casos distintos de surtos de escabiose – mais conhecida por sarna – numa CERCI de Oeiras e num hospital açoriano, abrangendo 18 pessoas, estão a gerar apreensão entre funcionários e utentes. [...] Um caso, denunciado ontem de forma anónima ao DN, prende-se com a CERCI de Oeiras, instituição de apoio ao [sic] deficientes que, nos últimos três anos, tem sido frequentemente atingida por esta doença de pele contagiosa, causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei» («Surtos de sarna em CERCI de Oeiras e hospital», Pedro Sousa Tavares e Paulo Faustino, Diário de Notícias, 22.05.2012, p. 13).
      É para «sarna» que remete o verbete «escabiose» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Deve ser uma sensação terrível, e não é por acaso que há várias frases feitas e provérbios sobre a doença. Só lhe falta sarna para se coçar é o que ouço mais vezes.
[Texto 1568]

Rife

Outras paragens

      «Considerada como a surpresa da campanha, a franco-marroquina Najat Vallaud-Belkacem assumiu o Ministério dos Direitos das Mulheres. Esta jovem de 34 anos nasceu no Rife marroquino, mas mudou-se com a família para França quando tinha apenas quatro anos» («Do Magrebe à Coreia do Sul, as origens dos ministros de Hollande», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 22.05.2012, p. 25).
      Prefiro, naturalmente, a grafia Rife. Que é também a usada no verbete «rifenho», no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «do Rife, região montanhosa de Marrocos setentrional».
[Texto 1567]

Plural metafónico

Eu seja surdo se

      «O alerta foi dado por funcionários da obra. Preparavam-se para mais um dia de trabalho num dos troços da futura Auto-Estrada n.º 4, em Mouçós-Vila Real, quando encontraram o tractor tombado numa via paralela», disse a repórter Eduarda Freitas (ou terá sido Ana Felício?) no Jornal da Tarde. E manteve o timbre da vogal tónica, isto é, sem metafonia. Ora, tanto quanto sei, «troços» tem plural metafónico e não é vocábulo alvo de indefinição. Como em tijolos, tortos, tremoços, trocos...
[Texto 1566]

«À maravilha»

Às mil maravilhas

      «Diogo Pires primou entre os humanistas do seu tempo, não lhe faltando servir-se à maravilha dum latim verdadeiramente ciceroniano como instrumento de expressão» (Portugueses das Sete Partidas, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, [1951], 3.ª ed., p. 248).
      «Como se está a ver, eu observei que “um ou outro autor português recorre à expressão à maravilha...” Mas adverti que a expressão às mil maravilhas tem sabor mais castiço em nossa fraseologia» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 153).
[Texto 1565]

«Cor-de-rosa» no AOLP90

Isso é absurdo

      «Sobre o artificialismo de escrever cor-de-rosa, mas cor de laranja, considerando aquela uma palavra composta, e dizendo que exprime uma só ideia, o argumento é infantil. Na tradução das cores tanto há uma só ideia em cor de rosa, como em cor de laranja, etc. Dizer, como Sá Nunes diz, que a cor-de-rosa leva hífen, por ter um único sentido, faz supor que em cor de laranja não se verifica a mesma semântica, e isso é absurdo. Cor de burro quando foge forma também uma unidade semântica, na ideia una da ironia» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 126).
      E ainda hoje continua, absurdamente, a ser assim. Mais um exemplo da falta de ponderação das soluções consagradas no Acordo Ortográfico de 1990.
[Texto 1564]

Acordo Ortográfico rejeitado

Ora aí está o que se pode fazer

      «A Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico aprovou quinta-feira em Lisboa uma moção de rejeição do Acordo Ortográfico. A associação irá agora defender também, junto dos órgãos de governo do Técnico, que “nenhum estudante seja prejudicado por recusar escrever segundo o Acordo Ortográfico”. É a primeira associação de estudantes do país a rejeitar oficialmente o acordo» («Estudantes do Técnico contra Acordo Ortográfico», Público, 21.05.2012, p. 12).
      A propósito: amanhã, às 19h50, no programa Nativos Digitais, na RTP2, vai falar-se do Acordo Ortográfico.
[Texto 1563]

Adeptos trajados

Ou viriam tarjados?

      Foi tal como me disseram. A repórter Filipa Pereira estava a fazer uma reportagem sobre o Académica-Sporting para o Primeiro Jornal da SIC. «Já se vão vendo alguns adeptos que vêm trajados.» Ela própria estava trajada e abrigava-se sob um guarda-chuva azul. Por causa disto, fui ver o que estabelece o Código Penal. Primeiro facto: este diploma legal não contém a palavra «nudez». Espanto e exultação dos defensores do nudismo. O artigo 170.º prevê a punição de «quem importunar outra pessoa praticando perante ela actos de carácter exibicionista». Lá está, clamam os defensores do nudismo, «exibicionismo»! Imaginem, pedem eles, que estamos a falar de pessoas de 80 anos que se despem numa praia qualquer. Estão a exibir-se? Confundem um pouco as coisas: exibir não é pôr à vista, mostrar? Então...

[Texto 1562]

Como falam os políticos

Grande coisa: «o coiso»

      «O desemprego tem que ser uma preocupação de todos nós. E todos nós temos que trabalhar em conjunto, sindicatos, patrões e partidos, para conseguirmos ultrapassar este coiso» (Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia, na sexta-feira, no Parlamento).
      A palavra «coisa» significa tudo e não significa nada, como se sabe. É, como dizem os Brasileiros, palavra-ônibus. Parece modesta, mas é irmã da palavra «causa». «Coiso», não, «coiso» é qualquer indivíduo, fulano. («Já francamente injurioso e provocador soa a forma masculina correspondente coiso», escreveu Manuel de Paiva Boléo.) Isto registam os dicionários. Mas «coiso» também é, como substituto lexical, sinónimo de pénis. «Nunca lhe ouvi nenhum palavrão, era sempre: o coiso. O seu coiso isto, o seu coiso aquilo, dê-me o seu coiso, senhor tenente, gosto tanto do seu coiso, meta o seu coiso na minha coisinha» (Os Cus de Judas, António Lobo Antunes. Lisboa: BIS/Leya, 2010, p. 85).

[Texto 1561]

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