Dos dicionários

Uma tarefa infindável

      «Para o vulgo os físicos hebreus eram hereges e sequazes do Diabo, com o qual tinham pacta» (Portugueses das Sete Partidas, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, [1951], 3.ª ed., p. 237).
      É o mesmo que «pacto», claro, mas não a vejo nos dicionários, que deixam, forçosamente, muito de fora. Ainda ontem, no Arte & Emoção, ouvi: «Xavier Cortegano [do Real Grupo de Forcados Amadores de Moura] sofreu uma mangada forte do toiro, rematada com aparatosa voltareta.» Vejam se as encontram aí nos dicionários...
[Texto 1560]

«Car boot sale»

Feira de usados e vendas de garagem

«João e Sofia participaram ontem, pela primeira vez, como vendedores, numa car boot sale. Uma venda em que os participantes pagam uma inscrição por carro, levam os seus artigos na bagageira e vendem tudo o que quiserem. A iniciativa é da Women Royal Voluntary Service, uma organização com fins caritativos que reúne voluntários da comunidade internacional a residir em Portugal» («Abrir a bagageira do carro e vender tudo a um euro», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 20.05.2012, p. 17).
      Como é uma iniciativa da Women Royal Voluntary Service (WRVS), está bem, pode ficar em inglês. Umas linhas mais à frente, a jornalista não resiste a usar mais uma expressão inglesa: «Como compradora já tinha participado numa, bem como em garage sales (vendas de garagem), às quais vai com regularidade.»
[Texto 1559]

«Statu quo»

Só português seria menos arriscado


      Fernando Nogueira, presidente do júri do Start Up Programme, declarou no fim da competição: «Quando se fala em capacidade de improviso, eu acho que é inteligência prática. Mas como estamos muito dependentes do Estado e do statuos quo, nem sempre pomos, de uma forma inteligente e racional, essas qualidades próprias do Português em campo. Eu acho que isto ajuda.»
      Já vimos mais de uma vez que isto é latim abastardado por influência — como quase sempre! — do inglês. No caso do ex-ministro, ainda se intrometeu ali um o. Oh!
[Texto 1558]

O discurso dos finalistas

Enquanto o futuro não chega

      Na Alameda da Universidade, ontem, o cardeal-patriarca deixou mensagem de esperança a estudantes durante a Bênção de Finalistas. E que mensagem deixaram os estudantes? A repórter da RTP Catarina Dias Ribeiro escolheu-os bem. O primeiro, com a Torre do Tombo como cenário e impecável no seu traje académico, disse: «É uma concretização de objectivos a nível escolar, a nível académico. Ao fim ao cabo, é a abertura de uma nova etapa de vida, tanto profissional como pessoal em que vamos tentar concretizar os nossos sonhos e sagrar nas nossas áreas.» O segundo errou menos — porque felizmente falou menos: «Sabemos que o nosso mercado não anda muito bem. Talvez emigrar lá para fora.»
      Por sorte, a repórter não lhes perguntou o nome, que assim resvalará, sem pena de ninguém, à perpétua obscuridade.
[Texto 1557]

«De debaixo»

De novo, só para lembrar

      «Com a mesma rapidez de movimentos, Shukhov pendurou o capote numa viga e retirou o que desejava de debaixo do colchão: um par de luvas, um segundo par de palmilhas, um pedaço de corda e um farrapo com uma fita em cada extremidade» (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Alexandre Soljenitsin. Tradução de H. Silva Letra, revista por António Carlos. Lisboa: Círculo de Leitores, [1970], p. 32).
      No Assim Mesmo — lembram-se? — motivou 15 comentários, um pouco desencontrados. Por economia e eufonia, elida-se então. Sobretudo neste caso, com a dura sucessão de dd: «desejava de debaixo do».
[Texto 1556]

«As abas do gorro»

É isso mesmo

      «A geada tentava penetrar-lhe nos ouvidos através das abas do gorro, que ele tinha baixado mas não atara» (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Alexandre Soljenitsin. Tradução de H. Silva Letra, revista por António Carlos. Lisboa: Círculo de Leitores, [1970], p. 15).
      Ainda se lembra das «orelheiras», Montexto? Pois é, a história passava-se na antiga União Soviética, e seria mais provável que, em vez de boné, os prisioneiros usassem, naquele clima gélido do Cazaquistão, gorro. É que bonnet traduz-se por «gorro», que pode ter abas, e casquette é que é «boné» em português.

[Texto 1555]

«E ansiava por que...»

Um folhetim

      «Durante toda a noite não conseguira aquecer, e, mesmo no sono, sentira em dado momento que estava a piorar bastante, enquanto logo a seguir sentia que estava a melhorar. E ansiara porque a manhã não chegasse» (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Alexandre Soljenitsin. Tradução de H. Silva Letra, revista por António Carlos. Lisboa: Círculo de Leitores, [1970], p. 7).
      Não tinha de estar ali a preposição seguida da conjunção integrante? E ansiava por que... «Eu ansiava por que ele me abandonasse o jornal para ler o folhetim» (Confissão Dum Homem Religioso, José Régio. Lisboa: INCM. 2001, p. 55).
[Texto 1554]

Rochedo — sem aspas nem medo

Têm uma grande provisão delas

      «Uma opinião que a realidade desmente: 48 horas antes do almoço, a Rainha Sofia declinou o convite de Buckingham por causa do diferendo anglo-saxónico sobre Gibraltar e o direito das pescas nas águas territoriais do “Rochedo”» («Gibraltar separa as famílias reais britânica e espanhola», Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 30).
      As aspas devem ser ancoragens para os escaladores chegarem ao topo...
[Texto 1553]

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