Miguel Ângelo — sempre!

Não para mim

      «A noite é o retrato da Dor, a Musa de Dante e Miguel Ângelo e a Mãe de todas as cousas...» (Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, vol. 8, Teixeira de Pascoaes. Lisboa: Bertrand Editora, 1973, p. 204).
      Ih, que rematado ignorante! Ou não, apenas nasceu antes do tempo. Os modernos escrevem Michelangelo — porque assim é que se escreve, argumentam de forma tautológica. «O artista Phil Hansen usa alfinetes para “tatuar” cascas de banana e reproduzir conhecidas obras de arte. Uma das últimas obras do norte-americano foi A criação de Adão, pintura de Michelangelo que enfeita o teto da Capela Sistina» («Artista recria quadros famosos em bananas», Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 48).

[Texto 1552]

Pontos cardeais no AOLP

Leiam e conversem

      Um dos dois está enganado, isso de certezinha:
     1. «Apesar da sua perspicácia, nem Legge deve ter percebido o que ali tinha. Pois Dietrich Fischer-Dieskau, que ontem faleceu no sul da Baviera, a dez dias de completar 87 anos, foi simplesmente um dos maiores barítonos (registo vocal entre o de tenor e o de baixo) e, em absoluto, o intérprete expoente do Lied (canção de câmara, com acompanhamento de piano) do século XX» («O maior cantor lírico que a Alemanha deu ao século XX», B. M., Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 37).
      2. «A descoberta dos fósseis, em Cerrejon, uma região do Norte da Colômbia, e o estudo sobre eles foram publicados na revista científica Journal of Systematic Palaeontology por um grupo internacional de investigadores coordenado pelo paleontólogo Edwin Cadena, da Universidade do Estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos» («Tartaruga gigante tinha o tamanho de um ‘Smart’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 26).
[Texto 1551]

Revisão nos jornais

Não há

      «A palavra “reality” não surge como um mero efeito anglófono. Trata-se, muito concretamente, de tratar uma conjuntura marcada pela reality TV, e, em particular, pelo poder mediático do programa Big Brother» («Os meandros da ‘reality TV’ no novo filme de Matteo Garrone», João Lopes, Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 41).
      «Trata-se [...] de tratar»... Nada que uma leitura atenta não resolvesse. Sem revisão, era a única maneira de a coisa sair escorreita. Quanto a reality TV, hoje mesmo lê-se no Público: «Puseram ao largo o grotesco e aproximaram-se com ferocidade e ternura das personagens: Seidl, com Paradise: Love — o turismo sexual no Quénia — e Garrone, com Reality, a reality tv nas nossas cabeças» («Toca na mulher branca, despe o homem negro e cobre o grotesco», Vasco Câmara, 19.05.2012, p. 32).
[Texto 1550]

Ortografia: «cardiotoráxico»

Pois claro

      «Duas alunas, de 20 e 22 anos, da Universidade do Minho foram ontem atropeladas por um carro desgovernado, tendo o condutor fugido. Mais tarde entregou-se à PSP. Uma das vítimas foi para o Hospital de S. João, Porto, por precisar de cuidados na área cardiotoráxica» («Duas estudantes atropeladas em Braga», Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 21).
      Se defendo (ver aqui) que todos os dicionários deviam registar as formas torácico e toráxico, é claro que não posso deixar de defender que cardiotoráxico é tão correcto como cardiotorácico.
[Texto 1549]

Sobre «institucionalizar»

Este ainda não

      «Fernando vivia no Seixal com três filhas, entre os nove e os 15 anos, que estarão ainda institucionalizadas à espera de que algum familiar as vá buscar, sendo que a mãe estava separada do pai há vários anos» («Pedófilo do Seixal matou-se na cela da prisão», Roberto Dores, Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 21).
      Para os dicionários mais conhecidos (ou para todos?), institucionalizar ainda é apenas dar ou adquirir forma de instituição; oficializar(-se). Na acepção usada no artigo, é anglicismo semântico, de to institutionalize. Não servirá internar: pôr em colégio, asilo, hospital ou instituição psiquiátrica, como o define o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora?
[Texto 1548]

Um mundo uniforme

Fardos e palha

      Numa peça do jornalista João Botas no Telejornal de anteontem, ouvimos David Cameron falar da situação da Grécia e da Zona Euro: «Either Europe has a committed, stable, successful eurozone with an effective firewall, well capitalised and regulated banks, a system of fiscal burden sharing, and supportive monetary policy across the eurozone, or we are in uncharted territory which carries huge risks for everybody.» Nas legendas, pudemos ler: «Ou a Europa tem uma Zona Euro empenhada, estável e com êxito, com uma firewall eficaz, com bancos bem capitalizados e controlados, um sistema de partilha de fardos orçamentais e apoiando a política monetária em toda a Zona Euro, ou estamos num território desconhecido, o que acarreta enormes riscos para todos.»
      O mundo omnipresente da informática... Então firewall é intraduzível, sobretudo neste contexto? «Barreira de protecção» não seria mais adequado? E porque hão-de os burdens ser sempre «fardos»? Não podem ser «cargas» ou «pesos»?
[Texto 1547]

Redija-se outra definição

Porcofobia e jemão

       O laboratório do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) aliou-se à indústria local (o pior é o nome: Bísaro Salsicharia!) para tentar produzir presuntos de cabra e de ovelha, que são menos gordos e mais proteicos do que os presuntos de porco. O projecto está ainda em fase de testes e os produtos destinam-se, ao que parece, a conquistar clientes árabes. Com isto, lá se vai a definição de presunto: «membro posterior do porco, depois de salgado, curado e seco». O termo «presunto» vem do latim perexutus, privado de todo o líquido. Dantes dizia-se, pelo menos no Alentejo, «jemão», sabiam? Há até o provérbio — Quem come presunto, come jemão. Os dicionários modernos perderam este verbete.
[Texto 1546]

«Vontade de/vontade em»

Mas também pode ser

      Jornalista Joana França Martins no Jornal da Tarde de ontem a propósito do lançamento de um livro, Peso, Uma Questão de Peso, das nutricionistas Paula Veloso e Teresa Maia: «Quase sempre a vontade em perder peso é o desejo de manter uma imagem.» Não é a regência mais usada, mas não é incorrecta, pois o povo também é assim que fala — ou falava, pois agora já não há povo, como sabemos. «Nunca tive vontade em casar-me. Ainda me calhava algum enxovedo na rifa que me amofinasse de contino», tive a sorte de ouvir a uma senhora idosa numa aldeia perto da Guarda.
[Texto 1545]

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