«Dicionário Luís de Camões»

Só agora

      Na segunda quinzena de Novembro, a Caminho lança o Dicionário Luís de Camões, fruto de cinco anos de trabalho de uma equipa coordenada por Vítor Aguiar e Silva. Já tardava. (E vai mesmo chamar-se Dicionário Luís de Camões? É que a editora já tem o Dicionário de Camilo Castelo Branco e o Dicionário de Eça de Queiroz...)
[Texto 618]

Pontuação

Que faço?

      «E a passagem da monarquia para a república não melhorou a vida da população, que se sentiu defraudada.» A autora não quer ali a vírgula. Que é um disparate. Que seja à responsabilidade dela, pede. Quanto a Jaime Rebelo e às orações relativas explicativas e às orações relativas restritivas, isso é para esquecer. Viva a intuição!
[Texto 603]

Latim

Tinha de ser

      A repórter Arlinda Brandão, da RTP, foi ouvir Vítor Ferreira, o organizador da exposição O Mundo dos Dinossauros, na Cordoaria Nacional. «Aqui de novo o Velociraptor, não é, e um dos animais, que era o Spinosaurus, um dos animais mais violentos da altura, apesar de não ser dos maiores, porque, como pode ver pela dentição, era uma dentição onde encaixava [sic] os dentes perfeitamente e entrava uns dentro dos outros e portanto a vítima era esmagada.» E como é que o entrevistado pronunciou o nome do dinossauro? À inglesa, pois claro.
[Texto 600]

Acordo Ortográfico

Mal começou

«Ajudara-o a levantar-se e tinham caminhado juntos pela 24 de julho, em direção às docas.»
A aplicação cega das regras do Acordo Ortográfico também dá nisto. Como o AOLP90 manda grafar com minúscula inicial os nomes dos dias, meses e estações do ano e permite escrever Avenida 24 de Julho ou avenida 24 de Julho, vai tudo a eito.

[Texto 599]

«À boca calada»

Bocas

      «Foram estas forças que faltaram e à boca calada se atribui a responsabilidade a Joffre» (É a Guerra, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1934, p. 161). É expressão sinónima da outra: dizer à boca pequena, que é o mesmo que dizer em privado ou em voz baixa. O contrário é dizer à boca cheia, que significa dizer publicamente.

[Texto 598]

Sobre «travo»

Hum...

      «Expulsa pelo nariz, devagar, o fumo do primeiro travo e sente-se vacilar durante um instante.» Eu também me sinto vacilar um pouco. Podemos travar o fumo do cigarro — mas nunca antes vira o substantivo deverbal (é disso que se trata?) «travo». Conheciam? Só conheço o «travo» que todos conhecerão: o sabor adstringente de bebida ou comida ou, figuradamente, o vestígio ou impressão desagradável.
      «Tirei um cigarro e acendi-o. Inalei o fumo, travando-o nos pulmões até a vista me turvar» (O Rei do Volfrâmio, Miguel Miranda. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 55).
[Texto 597]

«Ter ganhado»

Em bom português

      «The Sense of an Ending, a novela de Julian Barnes que esta semana ganhou o prémio Booker, lê-se em duas horas. Levou um ano a escrever, disse o autor ao melhor telejornal do mundo — a Newsnight da BBC 2 — logo depois de ter ganho» («O Booker», Miguel Esteves Cardoso, Público, 21.10.2011, p. 41).
      Ter ganhado está mais conforme com os cânones da língua. «Eu só uso outro quando me engano», comentou aqui Montexto recentemente. Também há o contrário: quem acerte apenas quando se engana.

[Texto 596]

«Backbenchers»

Se não se importam

      «Cameron já ordenou aos líderes parlamentares para imporem disciplina partidária, mas o problema não deve desaparecer, pois a iniciativa surge ao abrigo de um novo procedimento que facilita a discussão de propostas apresentadas pelos deputados menos relevantes, como é o caso de Nuttall, os chamados backbenchers, que se sentam nos lugares de trás do parlamento» («Parlamento britânico discute referendo sobre saída da UE», Diário de Notícias, 20.10.2011, p. 25).
      Muito bem: se explicam o significado, podem usar estrangeirismos, tanto mais que não há em português um termo para dizer o mesmo.

[Texto 595]

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