Toscana

Não, não

      Desta vez, foi Eduardo Pitta que escreveu «Toscânia». Topónimo mal traduzido, já aqui o vimos várias vezes, do inglês Tuscany. Em português é Toscana. «É praticamente impossível descrever as mil peripécias da aprendizagem de Buford (a qual incluiu uma viagem à Toscânia para aprender os segredos da “pasta”), os seus momentos de tensão, humor e júbilo, os mexericos, as duras regras que teve de vencer para passar de escritor a cozinheiro» («O escravo», Eduardo Pitta, Público/Ípsilon, 2.5.2008, pp. 40-42).

Uso dos parênteses

De outiva não vamos lá


      Há algum tempo, escrevia um anónimo o seguinte comentário: «Invoco, outra vez, o lema deste sítio e a condição de simples “tocador de ouvido” para dizer que não parece correcto fazer de um parêntesis um período. Ele há-de pertencer ao período cujos termos são clarificados pelo que for dito no parêntesis.» A frase era minha e o contexto era o seguinte: «Muito estranho, cara Luísa Pinto, que a professora de Português do seu filho tenha dito que a frase estava incorrecta. (Ou não estranho nada, isto é uma figura de retórica.)» O leitor já antes tinha deixado, noutro post, um comentário semelhante a uma frase estruturalmente igual. Claro que eu sabia que era correcto, e por isso assim escrevera. Sabia, até, que o consultor do Ciberdúvidas D’Silvas Filho era da mesma opinião. Ainda assim, consultei a Academia Brasileira de Letras, que ontem me respondeu: «Não há restrição quanto a isso. Leia em boas gramáticas sobre os diversos empregos dos parênteses. É interessante.» Conselho que passo, inteirinho, e legitimamente, para o leitor anónimo. E da próxima vez, já sabe: estude e depois diga qualquer coisa.

Ortografia: «malvisto»

Bem visto

      Lê-se na edição de hoje do Público: «Da “Áustria dos nazis, onde todos se espiavam e denunciavam”, passou-se para uma Áustria onde olhar para a casa do vizinho, querer saber o que se passa com ele ou denunciá-lo é “muito mal visto”, diz Max Friedrich, da Universidade de Viena, médico de Kampusch, ao El País» («O homem que manteve a filha em cativeiro 24 anos remeteu-se ao silêncio», Andreia Sanches, 1.5.2008, p. 20). Dizia a notícia do El País: «La historia reciente del país ha agravado esta tendencia según Friedrich, que recuerda la “Austria de los nazis, en la que todos eran espías y se denunciaban unos a otros, con el resultado de que en la sociedad de hoy, la denuncia y el espionaje son asuntos muy mal vistos”» («Un país sentado en el diván», J. Gómez, El País, 30.4.2008). Em espanhol, «mal visto» é uma locução adjectival, tal como «bem visto». Em português, é uma só palavra, que é um adjectivo: malvisto. No caso, no grau superlativo absoluto analítico: muito malvisto.

Grafia dos nomes próprios

Ver em cada caso

Ao meu texto de ontem sobre o uso da barra deixou um leitor — Franco e Silva, que não conheço de mais lado nenhum que não dos comentários pertinentes e informados ao meu blogue e a outros — um comentário que interessa trazer para aqui. Escreve este leitor: «Se me é permitida a achega na correcção do texto transcrito, deveríamos ter MADAIL e não *“Madaíl”, não é verdade?» O texto é o que está mais abaixo, da autoria de João Villalobos: «[…] prometi ao Virgil Mihaiu do ICR grafar-lhe o nome como deve ser desta vez e troquei conversas com o casal de bloggers Eduardo Pitta/Jorge Neves, o Miguel Real, a Isabel Goulão, o Nuno Miguel Guedes, o Jorge Silva, os “nossos” Luís Naves e Fernando Madaíl, o Fernando Pinto do Amaral, o Fernando Sobral, eu sei lá.»
Seria preciso perguntar à pessoa visada, jornalista do Diário de Notícias, e, em todos os casos, a cada pessoa que tem esse apelido, porque a norma (Base L do Acordo Ortográfico de 1945) em vigor refere: «Para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume, adopte na assinatura do seu nome.» Costume ou registo legal, na verdade. É o que me leva a grafar sempre o meu primeiro nome sem acento agudo: «Helder».
Não ignoro, naturalmente, que o apelido «Madail» ganhou grande visibilidade — e daí todas as elucubrações à volta dele — graças a Gilberto Madail, que ora se vê grafado com acento ora sem acento. Se alguma coisa me choca, é esta hesitação, nada mais. Para mim, a regra de que as palavras agudas terminadas em l não são graficamente acentuadas aplica-se somente aos nomes comuns. E será escusado lembrarem-me os nomes «Abigail», «Vermoil» e outros. Tão escusado, na verdade, como esgrimirem o argumento de que «Madail» está assim registado no Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado. Em suma, a forma como cada um escreve o seu nome faz fé. Nisto, não estou com Cesare Pavese, que escreveu: Pensa mal, non ti sbaglierai. Se houver dúvidas ponderosas e em casos oficiais, peça-se ao visado prova do facto. Quanto ao resto, ocupemo-nos dos verdadeiros erros no uso da língua portuguesa, que não são poucos.

Erros e gralhas

Muito bem

Recentemente, o Público emendou uma simples e mísera aspa a mais. Para mim, e para qualquer leitor, suponho, foi um acontecimento memorável. Hoje, prosseguindo na mesma senda, vem corrigir a falta de propriedade no uso de um vocábulo. «Na notícia “Punição verbal para dois jornalistas do Expresso que puseram on-line falsa notícia sobre Pinto da Costa”, publicada na edição de sexta-feira (página 8), o título mais correcto seria “repreensão verbal” ou “admoestação” em vez da expressão “punição verbal”» («O Público errou», 29.4.2008, p. 42). De facto, apesar de o primeiro parágrafo da notícia em causa terminar com «concluiu-se com a decisão de admoestar verbalmente os dois jornalistas envolvidos no caso», a locução «punição verbal» não faz sentido, e o princípio de corrigir é bom. Se não revelasse, como suspeito, simples acatamento de um possível reparo dos envolvidos, revelava, pelo menos, respeito pelo leitor. E é isto que importa.

Uso da barra /


Verão/Inverno

      Ora aqui está um bom uso da barra. João Villalobos escreveu apenas «[…] prometi ao Virgil Mihaiu do ICR grafar-lhe o nome como deve ser desta vez e troquei conversas com o casal de bloggers Eduardo Pitta/Jorge Neves, o Miguel Real, a Isabel Goulão, o Nuno Miguel Guedes, o Jorge Silva, os “nossos” Luís Naves e Fernando Madaíl, o Fernando Pinto do Amaral, o Fernando Sobral, eu sei lá.» O paginador é que, ao ver que a barra coincidia com o fim da linha, a repetiu na linha seguinte — e muito bem. Hum… também poderia ter sido um revisor que, ao passar perto do posto de trabalho do colega paginador, indicou a forma correcta de o fazer. De resto, que mais se pode dizer da barra? Pois que em regra não há espaço nem antes nem depois dela e que para os íntimos tem nome estrangeiro: forward slash. Os Ingleses também a conhecem pelos nomes solidus, virgule e diagonal. Adaptando um texto de Jacci Howard Bear sobre o mesmo assunto, esquematizo de seguida os usos da barra em português, de resto quase inteiramente coincidentes com os da língua inglesa.

1. Como separador para datas: 29/04/2008; 2007/2008
2.
Como separador para citações de poesia: «Palavras que nos transportam/Aonde a noite é mais forte,/Ao silêncio dos amantes/Abraçados contra a morte.»
Note-se que, por vezes, nesta circunstância, algumas obras mostram um espaço depois, mas não antes, da barra, excepção que não contemplo no uso que faço da barra. O texto não deve ter mais de três ou quatro linhas de poesia.
3. Como substituto de uma palavra: 220 km/h (quilómetros por hora);
e/ou (e ou ou)
4. Como substituto de uma palavra (ou) para indicar escolha: Estudante/trabalhador; S/N; ele/ela
5. Informalmente como abreviatura: n/ (nossa); v/ (vossa); c/ (com); s/ (sem)
6. Como símbolo matemático, para separar o numerador do denominador e em fracções: ¼ (um quarto); 200/5 (200 a dividir por 5)
7. Nos endereços da Internet: http://letratura.blogspot.com.

Apelidos asiáticos

Sr. Lua


      Segundo a edição de hoje do Público («É Ban, senhor Ban, explica a ONU», D. F., 28.4.2008, p. 20), Vijay Nambiar, chefe de gabinete de Ban Ki-moon, anda «angustiado com todas as incertezas que ainda persistem sobre o nome do secretário-geral das Nações Unidas». Não é caso para menos. Depois de mais de um ano de mandato, «muitos líderes mundiais, alguns que conhecem bem o secretário-geral, ainda usam erradamente o nome próprio dele como se fosse o apelido, tratando-o por Sr. Ki-moon ou Sr. Moon». E esta é, escreve Vijay Nambiar, uma questão «algo delicada». De facto, quem é que, nesta altura, não sabe que na Coreia do Sul, Coreia do Norte, China e outros países da região o primeiro nome é o apelido? Pelos vistos, muita gente. «De maneira a garantir um melhor e mais rigoroso reconhecimento do nome do secretário-geral, sugiro que no futuro […] usem a expressão “secretário-geral BAN”». E mais: que os funcionários da ONU «ilustrem [aos interlocutores] que BAN se pronuncia Baahn». Ah, e mais uma coisinha: que passem também a escrever o apelido todo em letras maiúsculas. BAN. Bah!

Símbolos % e ºC, outra vez

Outrora


      Aí por volta do início da década de 1950, quem estudasse pelo Compêndio de Geografia, para o 2.º Ciclo dos Liceus, da autoria de Alves de Moura, Evaristo Vieira e Américo Palma (Livraria Didáctica, Lisboa, 6.ª ed., s/d), podia ler coisas como estas: «A humidade relativa é muito elevada (80 %) e quase constante durante o ano.» (p. 467) «Dos círculos menores há a considerar os paralelos, assim chamados por serem paralelos ao equador (Fig. 43). Os mais notáveis são os quatro seguintes: trópico de Câncer e trópico de Capricórnio, que distam do equador 23º 27’, para N e para S, respectivamente: círculo polar árctico e círculo polar antárctico, que distam dos respectivos pólos 23º 27’.» «Quando a temperatura desce além de 0º, produz-se a solidificação do orvalho, cobrindo-se os corpos de uma camada branca de água solidificada a que se dá o nome de geada.» (p. 71). «No interior, o clima é frígido, e nas planícies do Sueste é temperado continental, com grandes amplitudes térmicas (–4º e +17º).» (p. 107).
      Meu caro Freire de Andrade: se tinha 14 anos em 1954, poderá ter estudado por este manual. Nesta altura, em que os livros eram impressos em tipografias — no caso deste manual, na Tipografia Silvas, no número 120 da Rua D. Pedro V, aqui em Lisboa —, as coisas não eram feitas por acaso, como agora mais frequentemente acontece. Era o tempo do chumbo, o dedo não escorregava no componedor, como agora escorrega nas teclas do computador.

Arquivo do blogue