«Certamente que», de novo

Certamente que viram

Sirva como exemplo esta frase da noveleta O Terrorista de Berkeley, Califórnia, de Pepetela (2.ª edição. Revisão de Rui Viana Pereira. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 22), já aqui citada para outros fins: «Certamente que as estrelas empalideceram quando ela fez a fotografia viajar pelas galáxias.» Retomo assim uma questão já abordada aqui, desta vez aduzindo a análise de Olívia Maria Figueiredo e de Eunice Barbieri de Figueiredo no Dicionário Prático para o Estudo do Português (Porto: Asa Editores, 2003, p. 26): «Quando um advérbio constitui o centro de uma oração, pode ter como complemento uma subordinada: Certamente (tenho a certeza) que ele te ama.»

Léxico: «retranca»


Agora sim

A partir de agora, ao recontarem um filme de piratas, já não precisam de dizer que o capitão Blood se pendurou do «pau» e se lançou sobre quatro bucaneiros inimigos. Para o interlocutor não ficar na retranca, acrescentem que andam a ler o blogue do Helder Guégués. Assim mesmo. «“O indivíduo estava a manobrar a retranca [vara de madeira na base da vela, perpendicular ao mastro] e terá sido atingido acidentalmente na cabeça por esta estrutura da embarcação”, disse ao DN fonte da Marinha» («Buscas para encontrar tripulante», Luísa Botinas, Diário de Notícias, 1.12.2008, p. 20). Boa prática, já aqui a recomendei, esta de explicar os termos desconhecidos.

Sobre «Zimbabwe»

Expliquem lá


      É verdade que o Diário de Notícias também opta por grafar Botswana, mas nunca deixa de me fazer espécie que escreva Zimbabwe, quando a esmagadora maioria da imprensa opta pelo nada forçado aportuguesamento Zimbabué. Por outro lado, grafa sempre Missuri, e Havai, e Baamas. Não queria chamar-lhe incoerência — mas é isso que chamo.

Actualização em 17.12.2008

      A Academia Brasileira de Letras recomenda que se escreva «Zimbábue, respeitando-se a pronúncia do termo, acentuado por se tratar de paroxítono terminado em ditongo crescente, como em tênue».

«Anticrise»

Estímulo ortográfico

      As televisões não deixam de falar no pacote de apoio à economia, o novo filão informativo. O pior é que, sempre desleixadas e fazedoras de semianalfabetos, escrevem «anti-crise». A primeira página do Público de hoje vem lembrar até a certos revisores que afinal a incúria não é completa e há quem se importe.

Sobre «mawlawi»


Nisto penso

A imagem acima reproduz uma página do Regulamento (CE) n.º 803/2008 da Comissão, de 8 de Agosto, que instituiu certas medidas restritivas específicas contra determinadas pessoas e entidades associadas a Osama Bin Laden, à rede Al-Qaida e aos talibãs. Como se vê, até em documentos oficiais se opta por maulavi em vez de mawlawi. Uma vez que são ambos títulos, e com origem próxima, quem opta por escrever mulá/mulás também deverá escrever, esperamos, maulavi/maulavis. De resto, já o tenho dito, não podemos esperar que todos os vocábulos estejam nos dicionários. Nem comungo da ideia de que a «ânsia de aportuguesar as palavras» seja «uma irritante obsessão». Como toda a gente já saberá a esta hora, isso não me bole com os nervos, antes o contrário.

Género de «jeans»

Trans

      «Era alto, o que o fazia parecer ainda mais magro, as jeans ficavam-lhe largas nas pernas compridas e tinha as mãos, esguias, elegantes e ossudas apoiadas, de palmas para cima, nos joelhos» (Doris Lessing. O Sonho mais Doce. 2.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Editorial Presença, 2007, p. 23). «Estava bonito, com uma camisa muito fashion, às listras coloridas, jeans rasgadas nos joelhos» (As Mulheres do Meu Pai, José Eduardo Agualusa. Revisão de Fernanda Abreu. 3.ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 115).
      Os dicionários, contudo, registam o género masculino. «Punha lacinho e camisa rendada por baixo de um casaco de marca, mas com jeans comprados invariavelmente na loja da Union Square, sendo os outros, segundo ele, falsificações baratas, indignos de um talentoso informático» (Pepetela. O Terrorista de Berkeley, Califórnia. 2.ª edição. Revisão de Rui Viana Pereira. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 13).

Recensão

Quatro estrelas

      Quem é que não aprende com as críticas literárias? Bem, muita gente. Hoje trago um exemplo de crítica (um excerto, na realidade, a crítica na íntegra pode ler-se aqui) que tem utilidade para leitores, tradutores e revisores. Infelizmente, não abundam os exemplos de críticas assim, pois é mais fácil colar meia dúzia de frases da própria obra, duas citações, e já está.
      «Nota: É uma pena que a edição portuguesa do livro de Robert Fisk tenha tantas falhas de tradução e revisão. Dois exemplos graves: confundir a cidade de Hama, na Síria, onde as forças sírias de Hafez al-Assad massacraram mais de 20 mil pessoas em 1982, com o movimento islâmico palestiniano Hamas (p. 213); dizer que a grande diva árabe Umm Kulthoum é “um cantor egípcio” (p. 421) — para quem não sabe que “Umm” significa, em árabe, “mãe de…”, uma busca no Google evitaria isso. Também o primeiro-ministro israelita, em 1990, é Ytzhak Shamir e não Ytzhak Rabin, como está na página 387. Depois, temos “montes Golãs” em vez de Montes Golã, “Cúpula da Rocha” em vez de Cúpula do Rochedo. E porquê escrever “Ramalá” e “Ramallah”? A ânsia de aportuguesar as palavras (chariá, xador, burca...) é uma irritante obsessão. Se optaram por “mulá”, então por que deixaram “mawlawi”, o plural de “mawla”, termo árabe de que deriva o persa “mullah”? E já agora outro esclarecimento: não há “mujahedines” nem “ulemas”, porque “mujahedin” é o plural de “mujahid” (combatente) e “ulema” é plural de “ulama”. A lista é longa, infelizmente» («As guerras de Fisk», Margarida Santos Lopes, recensão da obra A Grande Guerra pela Civilização, de Robert Fisk. Edições 70, tradução de Victor Silva e Miguel Mata. Público/Ípsilon, 5.12.2008, p. 44).
      Algumas observações. Na verdade, não é montes Golãs nem Montes Golã, mas montes Golã. Mawlawi, a par de mulá, é lamentável. Mujahedines (e mujahidines) foi a grafia corrente durante muito tempo na imprensa portuguesa. Actualmente, vê-se mais mujaidines, aportuguesamento mais coerente. Há muitos anos que se usa ulemá/ulemás na língua portuguesa.

Locuções adverbiais

Na verdade

Confirmo tudo, cara Luísa Pinto: «com certeza» é assim que se escreve, razão por que pode ser classificada como locução, e adverbial porque equivale, funciona como advérbio — certamente, por exemplo. Mas compreendo a sua perplexidade, quando leio esta definição: «As locuções adverbiais — o núcleo é um advérbio: Ela a cada passo vem visitar-me» (Olívia Maria Figueiredo e Eunice Barbieri de Figueiredo. Dicionário Prático para o Estudo do Português. Porto: Asa Editores, 2003, p. 277). Os autores de prontuários e de gramáticas deviam explicar que os termos desempenham, nas referidas locuções, a função de advérbios — não são advérbios.

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