Em todas as línguas

O que é que o nariz

      Por onde quer que passemos, vemos a língua desvirtuada. Mesmo quando não é a nossa, incomoda. Agora mesmo, vi, ao fundo da minha rua, na parede exterior de um cabeleireiro destes finos que pululam agora (é da crise), um autocolante que anunciava «bruschings» a 54 euros. Ontem, a minha mulher comprou um par de meias-calças (colãs, se insistirem) para a minha filha. Não numa dessas retrosarias que havia e agora não há em todas as ruas aqui em Benfica, mas numa loja de chineses. Na etiqueta (ah, sim, têm etiqueta), lia-se «fashion pantynose».
[Texto 3594]

Da importância das marginálias

E vamos tentando

      «Apesar de não ser muito usado, este volume [dos Lusíadas, depositado no Harry Ransom Center (HRC)] pode ser de extrema valia para várias áreas de investigação. Afinal, como diz o historiador inglês Peter Burke, professor emérito em Cambridge, as marginálias funcionam como uma “evidência da recepção daquilo que o autor emite ao leitor.” Marginálias dos séculos XV e XVI são entendidas, por alguns investigadores, como a primeira forma de hipertexto, de narrativa não linear. Peter Burke defende que as marginálias expressam o que o leitor considera importante, aprova ou desaprova numa leitura» («Camões no Texas», Cláudia Silva, Público, 27.11.2013, p. 33).
      É melhor continuarmos a fazer anotações nas margens dos livros que lemos, e quem sabe se a História não nos lembra daqui a uns séculos, como aconteceu com frei Joseph Índio, carmelita descalço que pode ter assistido Camões no leito de morte e que terá ficado com o exemplar dos Lusíadas que pertencia ao poeta. Claro que também se pode, não da mesma forma decerto, anotar um livro electrónico, mas não é o mesmo. Eu, por exemplo, que leio centenas de textos em PDF, não sou capaz de ler um livro electrónico. Começo, mas desisto. Quero interessar-me, mas desinteresso-me. A última vez foi com o Colecionador de Erva, de Francisco José Viegas. Tive de comprar um exemplar físico, de papel. Talvez me esteja a fazer falta um Kindle.
[Texto 3593]

Sobre «ob-reptício»

Li e não gostei

      «Sintomático é que a presidente da Associação de Professores de Português tenha, a priori, o capcioso argumento, típico dos ob-reptícios: dizer que com estas metas regredimos vinte anos... Não, minha senhora. Veja bem: o professor não fica dentro dum espartilho com este programa — liberta-se é dum programa que, admitido em 2001, terá, em 2015 (quando este Novo Programa vigorar), mais de uma década de leccionação. O resultado qual foi? Média nacional de 8,9 no secundário e uma iliteracia nefanda. Eis o resultado. Para quem, como Edviges Ferreira, tem sempre a posição do “não li e não gostei”, estas metas colocam um problema óbvio: o professor terá de ler e terá de saber como ensinar a ler e a escrever. Terá de ler literatura e ensaio sobre obras da nossa cultura (e não só...) e terá de saber articular o discurso literário com História e a Filosofia, com Música e as Artes... É chato. Dá trabalho. Mas os alunos agradecem. Merecem. E o país também» («Verdades sobre o ensino do Português: metas curriculares e não só», António Carlos Cortez, Público, 27.11.2013, p. 50).
      Digamos que o uso de «ob-reptício» — obtido por ob-repção; doloso, fraudulento — é um tanto inusitado.
[Texto 3592]

«Genograma»?

E «árvore genealógica»?

      Vejam o que pedem às criancinhas de 5 e 6 anos: «Desenha o rosto dos teus familiares no genograma, de acordo com as legendas, ou então cola fotografias» (Estudo do Meio – Alfa, 1.º ano, Eva Lima et al. Porto: Porto Editora, 2013).
      Em 2005, Tavares Louro, no Ciberdúvidas, dizia sobre esta palavra: «Consultados vários dicionários da língua portuguesa, da língua francesa e da língua inglesa, não encontrámos registo da palavra “genograma” nem equivalente nas línguas estrangeiras referidas.» Pois agora, passados estes anos, todos os caminhos vão dar à língua inglesa. Esta acepção está em poucos dicionários. O Merriam Webster regista: «a diagram outlining the history of the behavior patterns (as of divorce, abortion, or suicide) of a family over several generations; also: a similar diagram detailing the medical history of a family in order to assess a family member’s risk of developing disease».
[Texto 3591]

Léxico: «estrafega»

«Acto de estrafegar»...

      «“Acho que há muito tempo que não me enervava tanto”, diz ao PÚBLICO o Nuno Markl, que conseguiu bilhetes para dois dias do espectáculo: o primeiro e o último. “Às tantas éramos três pessoas em três computadores, em três sítios diferentes, todos na mesma demanda: o Bruno Nogueira, o Rui Lourenço (responsável pela gestão das redes sociais da Rádio Comercial) e eu, numa estrafega a ver quem conseguia primeiro”, continua o humorista, que vê nos britânicos uma grande influência, ou como diz: “São parte do cocktail que me fez amar a comédia para a vida”. “Nunca fui tão fã de ninguém como deles. Devo-lhes a devoção de os ir ver, nem que viessem os cinco acamados ou com próteses nas ancas”» («E em 43,5 segundos esgotaram-se os bilhetes para os Monty Python», Cláudia Carvalho, Público, 26.11.2013, p. 36).
      Está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira é muito mais claro: «luta, braço a braço».
[Texto 3590]

Sobre «rectius»

Mais correctamente

      «Este relatório foi aprovado por uma maioria esmagadora de cerca de 73% dos votos dos deputados. Quase três quartos dos representantes legítimos dos povos europeus entendem que o órgão de que fazem parte deve ter (rectius, tem) o direito de se “auto-organizar”. Apesar do silêncio mediático sobre a matéria, trata-se de uma decisão histórica. É muito importante — é mesmo fundamental — que os eleitorados e as opiniões públicas nacionais percebam e interiorizem o alcance e o sentido desta votação. A grande maioria dos deputados europeus, representando os cidadãos dos respectivos Estados, exprimiu a vontade de que o PE possa assumir-se como um parlamento livre da tutela “paternal” de outras instituições europeias e, em particular, do Conselho Europeu» («Estrasburgo e/ou Bruxelas: nem simbolismo nem pragmatismo (II)», Paulo Rangel, Público, 26.11.2013, p. 52).
      É termo usado em textos jurídicos, e Paulo Rangel, como jurista que é, trouxe-o para este texto. Não tenho é a certeza de que o usasse com propriedade. Habitualmente, é empregado para significar que há uma forma mais correcta (em latim também está no grau comparativo) de exprimir o que foi dito — por terceiros. Não parece ser o caso.
[Texto 3589]

«Checks and balances»

Era escusado

      «E não existe uma forma de o parar na sua desfilada. O sistema incipiente de checks and balances [sic] que temos em Portugal não funciona. O Governo ignora oposição, parceiros sociais, manifestações, tribunais e a academia e o PR assobia para o lado. O cocktail é explosivo e, como diz Soares, a violência está à porta. E a violência é uma arma política legítima quando não existe outra arma possível» («A violência, a procura de justiça e o regresso à democracia», José Vítor Malheiros, Público, 26.11.2013, p. 53).
      Se até nas faculdades de Direito e em obras jurídicas se usa, quando seria de esperar o contrário, a expressão equivalente em português — freios e contrapesos —, não vejo a necessidade de se usar na imprensa a expressão inglesa.
[Texto 3588]

«Quando mais não seja»

Já disse: Torga sabia

      «Não tenho a mínima dúvida de que Soares receia uma explosão de violência — quanto mais não seja porque, uma vez iniciada, ninguém pode prever a sua evolução. E não tenho notícia de que o PS, ou mesmo os “radicais” do BE ou do PCP, se preparem para enquadrar, controlar e liderar essa explosão de violência de forma que sirva os seus objectivos políticos» («A violência, a procura de justiça e o regresso à democracia», José Vítor Malheiros, Público, 26.11.2013, p. 53).
      «Enfim, eu estou e estarei sempre com eles, quando mais não seja porque tenho de estar com os meus. Mas já ouço sem convicção o “venha com Deus” habitual. Há também nestas humanidades uma faca debaixo de cada sorriso, e a bênção de amor com que o mundo precisa de ser regado necessita de alargar os braços e chegar até aqui» (Diário, Vols. I a IV, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999, p. 244).
[Texto 3587]

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